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Defender as Florestas

4.1. A Floresta Paga a Conta do Desenvolvimento

As nossas florestas começaram a ser destruídas tão logo se efetivou a ocupação portuguesa. A exploração das matas se deu por motivos diversos, principalmente de ordem econômica; seja para extrair madeiras de lei, seja para expor terras agricultáveis e expandir as pastagens ou, ainda, como parte do processo de adentrar os Sertões em busca de metais preciosos, conquistar territórios e aprisionar índios. O resultado foi que, além de ceder o espaço para as atividades produtivas, a floresta sempre pagou a conta da energia que moveu o progresso brasileiro.

Dessa forma, todos os momentos históricos conhecidos como “ciclos econômicos do Brasil” contribuíram para o desmatamento. A árvore que deu o nome ao Brasil, por sua singular utilidade, quase foi extinta para abastecer o mercado europeu. O cultivo da cana-de- açúcar prosperou no solo fértil chamado “massapê”, uma terra cheia de manchas avermelhadas e pretas que se apresentava sob a floresta primitiva “uma vez desbastada de seu arvoredo mais grosso” (FREYRE, 2004, p.49). Para Gilberto Freyre (ibid), foram essas manchas excepcionais que tornaram possível a civilização baseada nos engenhos de açúcar que se desenvolveu na Zona da Mata de Pernambuco. Esse tipo de solo também seria encontrado em outras regiões, segundo atestaram os célebres naturalistas Johann Baptist Von Spix e Carl Phillip Von Martius, que analisaram e descreveram o massapê no seu relato de viagem através do sertão da Bahia:

As cercanias da Feira da Conceição72 foram por nós exploradas com grande interesse, em procura de plantas. O terreno já tem aqui os característicos especiais, que, daí em diante, tivemos ocasião de observar, através de todo o sertão [...] Humo propriamente dito acha-se somente em algumas vargens, e às vezes corresponde ao barro fino, untoso, quase sempre de cor preta, a que chamam massapé. O nosso excelente amigo Ferreira da Câmara opinou que o massapê fosse o resto de formação basáltica desagregada. Para verificar essa hipótese, procuramos alguns lugares baixos, onde havia cana plantada em massapé; não descobrimos, porém, vestígio algum de outra formação a não ser o granito. O canavial, plantado em maio do ano antecedente, estava muito viçoso e pronto para o corte [...] A não ser esses lugares isolados de

massapé, é a região pouco própria para a agricultura. Nos pontos mais baixos e mais úmidos, encontram-se pequenos arvoredos, semelhantes aos capões de Minas Novas; as planícies mais altas e os outeiros ora são despidos de qualquer vegetação, ora cobertos de alguns pés de cactos

72 De acordo com a Prefeitura Municipal de Conceição da Feira (nome atual), o Município está localizado no

Centro-Norte Baiano e distante 119 Km da capital. A sede foi formada freguesia em 1847, com o topônimo de Nossa Senhora da Conceição Nova da Feira. <http://conceicaodafeira.ba.gov.br>.

isolados e ervas, ou de cerrados e arvoredo baixo. Todas essas plantas pertencem à formação de catinga, pois na seca perdem as folhas, e só se revestem de novo à entrada da estação das chuvas. (SPIX, MARTIUS, 1976, p.183-184, grifos nossos).

Essa região, localizada na orla do Recôncavo Baiano, integrava a área coberta pela Mata Atlântica original, porém, de acordo com a descrição acima, se apresentava como uma transição entre o litoral úmido e o sertão seco. Tanto nessa região, quanto mais ao sul da Mata Atlântica, o cultivo da cana se deu conforme procedimentos semelhantes. Warren Dean (1996, p.190) confirma que, nas áreas convertidas à cana, a leste da baía da Guanabara e nas proximidades da capital paulista, a floresta primária era queimada e derrubada porque recobria os solos mais férteis. De acordo com o autor, “a cana plantada nas cinzas da vegetação que ela substituía, era colhida após um ano e deixada a rebrotar de suas raízes por duas colheitas mais, para depois ser queimada e replantada” (ibid, p.191).

Além dos solos da floresta, que os canaviais engoliam vorazmente, o processo de fabricação do açúcar ainda consumia suas árvores, que serviam de combustível para os tanques de fervura. Assim, o funcionamento dos engenhos representava uma enorme demanda por lenha, o que despertava preocupação, principalmente no Nordeste. A escassez ocasionou o abandono de algumas plantações, devido à exaustão das matas, além de ter motivado, em alguns engenhos, a utilização do bagaço da cana para combustível, nos anos de 1840 (ibidem). De acordo com o autor, o plantio de cana exigia, ainda, outros produtos da floresta, em quantidade menor, mas não insignificante:

A madeira era queimada para produzir cinzas para purificar o açúcar crista. O açúcar continuava a ser embalo em caixas e certas árvores eram preferidas para tal fim porque não lhe conferiam cor ou sabor. Entre elas, estavam o jequitibá e a tapinhoã, supostamente reservada para uso da armada. A cachaça era colocada em barris, preferivelmente de canela (Ocotea spp.). Todas eram árvores da floresta primária. Os bois puxavam cana dos campos e moviam os engenhos menores. Tinha-se de formar pastos para alimentá- los. À medida que os canaviais substituíam o gado na região de Campos e penetravam na terra florestada do planalto paulista, esses animais tinham de ser criados a distancias consideráveis das plantações, nas montanhas de Minas Gerais, no vale do rio Pomba ou na região de cerrado de Goiás (DEAN, 1996, p.192-193).

Assim, o modelo de agricultura e de pecuária adotado no Brasil, significou um binômio destrutivo, com irremediáveis consequências para a floresta primitiva. Enquanto a

agricultura de plantation73 se expandia sobre a área florestada, o gado – parte do processo

produtivo, seja como força de trabalho ou alimento – tinha que ser mantido longe para não danificar os campos cultivados, aumentando, dessa forma, a demanda por novas áreas de pasto, logo desmatadas:

Os pecuaristas queimavam os campos não uma vez por ano mas constantemente, na tentativa de evitar que o crescimento da mata retomasse o campo, de reduzir a biomassa ao crescimento novo e imaturo e de destruir os inúmeros insetos que atacavam seus animais. As repetidas e freqüentes queimadas de pastos nativos constituíam uma grave ameaça às orlas interiores e mais secas da Mata Atlântica [...] Cavalos e mulas também entravam, para mascar a casca dos troncos das árvores. Os pecuaristas valorizavam os solos dessas faixas de florestas, que tendiam a secar menos nos meses de inverno [...] por isso, frequentemente as queimavam (DEAN, 1996, p.218-219).

Ironicamente, a floresta protegia as plantações, fazendo às vezes das cercas, muito dispendiosas e que exigiam madeira resistente e arames para conter o avanço das boiadas. Porém, na medida em que “o mato virgem” desaparecia no entorno dos campos de cultivo, estes se tornavam mais vulneráveis à penetração do gado vacum e outros, como suínos e caprinos. Tão logo rareavam as reservas florestais, esses animais, criados de maneira errante, se tornavam agentes de depredações; mas outros mamíferos, pássaros e insetos, desalojados de seu habitat passavam também a se alimentar das safras, e assim as arruinavam para o mercado e, não raro, levavam à partida dos fazendeiros itinerantes (ibid, p.208-209).

De forma semelhante à cana-de-açúcar, a cultura do Café foi também responsável por grandes danos às nossas florestas. As plantações se adequaram aos terrenos íngremes que não se prestaram aos canaviais e, portanto, encontravam-se ainda florestados quando se introduziu aquela planta exótica no país, em finais do século XVIII e inícios do XIX. Porém, a maior ameaça representada por essa cultura resultou da crença generalizada de que “o café tinha de ser plantado em solo coberto por floresta virgem” (DEAN, 1996, p.195). Logo, tal como ocorreu primeiramente com os canaviais, os cafezais devoraram as matas em busca de solos férteis e as substituiriam. Cultivaram-se extensões ainda maiores de campos, tendo em

73 Plantation foi um sistema agrícola muito utilizado na colonização da América. No Brasil, e em outras partes

do continente, utilizou-se este sistema agrícola com o objetivo de gerar produtos agrícolas a baixo custo para as metrópoles em suas respectivas colônias e o enriquecimento por meio de sua comercialização na Europa. Desta forma, os lucros da metrópole eram significativos. O uso dessa forma de produção agrícola se inseria na lógica de um sistema, atualmente, muito questionado pela historiografia: o Pacto Colonial. Segundo essa política, a metrópole detinha o monopólio dos produtos gerados em suas colônias americanas e da comercialização de itens manufaturados. (GASPARETTO JUNIOR, 2010).

vista que o café se tornou o principal produto de exportação brasileiro durante mais de cento e cinqüenta anos.

A madeira era matéria prima para quase tudo, desde os utensílios domésticos, a mobília e as embalagens, até enquanto item indispensável à construção civil74; mas foi principalmente como fonte de energia que se consumiram as florestas. A lenha, o vapor e o carvão moveram os motores das pequenas fábricas e acionaram as caldeiras, as forjas e os fornos utilizados na fabricação de diversos produtos – como o refinamento do açúcar e a torrefação do café. Ademais, foram utilizados para a calcinação da cal e para o cozimento das telhas e tijolos, utilizados na construção das cidades e que resultaram na transformação da paisagem brasileira.

O carvão é um caso à parte, uma vez que além de ser um subproduto da floresta, demanda ainda mais lenha para a sua fabricação. Dean (1996, p.213) calculou que a produção de seis toneladas de carvão útil, implicaria na queima de cem toneladas de madeira. O carvão vegetal, apesar de baixa capacidade térmica e, portanto, pouco eficiente como fonte de energia, tornou-se amplamente utilizado como uma em contrapartida ao dispendioso carvão mineral – tanto o produto importado quanto o seu congênere nacional, raramente encontrado no Brasil75.

74 Em 1877, André e José Rebouças, publicaram o Ensaio de Índice Geral das Madeiras do Brasil, contendo a

descrição de 213 variedades de madeira para construção, suas aplicações, meios para identificação, suas aplicações, aspectos do cerne, além de seus pesos específicos (SEGAWA, 1996, p.176).

75 As reservas brasileiras de carvão mineral são compostas pelos tipos linhito e sub-betuminoso. As maiores

jazidas situam-se nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. As menores, no Paraná e São Paulo. As reservas brasileiras ocupam o 10o lugar no ranking mundial, mas totalizam 7 bilhões de toneladas,

correspondendo a menos de 1% das reservas totais. Do volume de reservas, o Rio Grande do Sul responde por 89,25%; Santa Catarina, 10,41%; Paraná, 0,32% e São Paulo, 0,02%. Somente a Jazida de Candiota (RS) possui 38% de todo o carvão nacional. Mas o minério é pobre do ponto de vista energético e não admite beneficiamento nem transporte, em função do elevado teor de impurezas. Isto faz com que sua utilização seja feita sem beneficiamento e na boca da mina (ANEEL, 2009, p.136).