PARTE III O DESIGN CONTANDO O TEMPO DA HISTÓRIA
III. Capítulo 2 Experiências ordinárias, consequências extraordinárias
III. 2.1 A força operativa nos processos de experimentar
A designer e artista plástica Silvia de Medeiros Cabral50 trabalhou com o designer Julio Cesar Takayama na BIREME51 (Centro Especializado da OPAS – Organização Pan- Americana da Saúde), mas, dentre tantos trabalhos desenvolvidos por ambos, parece extremamente enriquecedora a apreensão do processo criativo de um projeto cujo desafio era realizar um visual que pudesse homenagear o trigésimo quinto ano da organização dessa empresa no Brasil.
O desafio havia sido colocado pelo diretor/cliente. Silvia informa: “O trabalho foi solicitado pelo Diretor da BIREME, Abel Laerte Packer para a comemoração dos 35 anos da Instituição e deveria ocupar o espaço integral de uma das paredes da recepção”.
Mas o que fazer para representar 35 anos da empresa? Como homenagear num material gráfico uma instituição que deseja ser lembrada no tempo? De que modo contar seus feitos?
50
O suporte teórico sobre a experiência dos designers deve-se à entrevista pessoal concedida por Sílvia de Medeiros Cabral em dezembro de 2009 e aos contatos posteriores obtidos em forma de conversas telefônicas e troca de e- mails.
51
A BIREME estabeleceu-se no Brasil em 1967 em colaboração com o Ministério da Saúde, o da Educação, a Secretaria da Saúde do Estado de São Paulo e a Universidade Federal de São Paulo e até hoje presta serviços no sentido de fortalecer o fluxo de informação em ciências da Saúde. Para isso, promove, dentre outras atividades, a divulgação da literatura técnico-científica publicada em papel e em formato eletrônico (Biblioteca Virtual em Saúde). Tais meios possibilitam o atendimento às necessidades de publicação, preservação, acesso e uso de informação dos governos, dos sistemas de saúde, das instituições de ensino e investigação, dos profissionais da saúde e do público em geral.
Dado o desafio, os designers iniciaram um diálogo, de troca, de busca por uma solução e puseram-se a pensar sobre as possibilidades do projeto:
Foi mobilizada uma comissão de funcionários que viveram parte da história da BIREME para nos ajudar a reunir documentos, homenagens, fotos, fatos e curiosidades etc. As reuniões de briefing foram momentos bastante prazerosos e às vezes até emocionantes [...] foram gastos aproximadamente 5 meses no trabalho de pesquisa de conteúdo, pesquisa de referências gráfica e produção gráfica propriamente dita.
É difícil mensurar o tempo envolvido nessa dinâmica. Constatou-se, porém, que a busca por uma coerência de projeto foi mediada pelo tempo. Robinet (2004) pôs-se a questionar a relação do processo do pensamento com as obras e para tanto indagava: Por que o pensamento exige tempo? Qual o tempo do pensamento?
[...] Em sua forma espontânea, o pensamento funde-se no objeto que ele visa, sem se reconhecer. Em sua forma refletida, ele volta sobre si mesmo para identificar os atos pelos quais ele pensa seu objeto. O pensamento espontâneo não tem começo nem fim designável. Ele acompanha nossa existência no ritmo dos humores do nosso corpo, de nossos desejos, de nossas paixões e de nossas meditações, de nossos sonhos e de nossas ruminações. Ele é como que o rumor de fundo, como o vigia benevolente de nosso eu, sendo certo que ele pode voltar sempre depois que acordamos e que, às vezes, nos importuna até durante a noite. O pensamento reflexo, desperta e se torna ativo quando nossos hábitos e nossas reações não conseguem mais resolver as dificuldades encontradas. (ROBINET, 2004, p. 11).
O modo de proceder reflexivo e crítico dos designers à procura de uma solução implicou a tomada de uma decisão: contar os 35 anos de história da empresa em formato visual.
Uma das soluções foi a investigação do percurso da BIREME no Brasil e, ao pesquisar-se seu passado com base em documentos arquivados, registros e imagens, obtiveram- se os indícios de alguns fatos que poderiam destacar-se e servir de memória.
Mas ainda assim o desafio persistia: como condensar muito tempo, muita história em pouco espaço?
Tendo essa perspectiva, os designers trabalharam num esforço de captar imagens e textos que traduzissem e condensassem significados passados e que pudessem dar sentido ao presente.
Então, projetaram um Painel (2 x 8 m) que materializasse a vivência da organização e que pudesse ser portador de uma história. Criaram em planos superpostos uma linguagem gráfica contendo fragmentos do passado e, por intermédio dos vestígios simbólicos
dos acontecimentos, das ações comemoradas, das mudanças da empresa ao longo do tempo e da pressão do tempo acelerado e imediato, realizaram um painel reinvestido de uma perspectiva aberta ao futuro, fonte de reapropriação coletiva.
Dito de outro modo, o resultado do trabalho foi um painel programado para ser alterado, ou seja, novos signos, símbolos e textos podem ser acrescentados aos já existentes à medida que outras histórias forem sendo escritas e somadas. Silvia Cabral explica:
A ideia inicial era ter uma linha do tempo como base para o mural e, a partir dessa linha, registrar os fatos importantes da história da BIREME usando textos, fotos, ícones e referências gráficas. Foram usadas referências a documentos de criação da BIREME, comissões de avaliação da BIREME, produtos e serviços da BIREME, centenário da Organização Pan-Americana da Saúde, cooperação técnica, virtualização da informação (CABRAL, 2009).
O projeto foi executado em fatias, ou camadas verticais, que possuem um caráter de sucedimento ou substituição. Os designers elaboraram uma linha do tempo em que “estão registrados os Diretores da BIREME, os Diretores interinos da BIREME, os Diretores da Organização Pan-Americana da Saúde e os Diretores/Reitores da UNIFESP” (CABRAL, 2009).
Quando se deseja acrescentar um novo diretor, funcionário, imagem ou outro signo visual, elege-se a faixa a ser alterada sem mexer no todo do painel (não se pode deixar de mencionar que tal opção facilita o processo de produção serial da peça gráfica, pois, ao se acrescentarem outras imagens, não há necessidade de substituição geral, e sim de uma parte do todo).
Figura 48 – Uma das fatias verticais projetadas pelos designers Silvia Cabral e Julio Cesar Takayama. Fonte: Acervo pessoal da designer Silvia Cabral.
Essas diversas fases de atualização da imagem permitem reabrir o horizonte do futuro para a imprevisibilidade da criação, que está sempre “por vir”, e introduzem a incerteza de novas projeções.
O painel é um constante “vir a ser” de uma instituição que contém memória e quer “permanecer no tempo”. Nesse sentido, o resultado do trabalho dos designers pode ser considerado um memorial que distancia o tempo passado e torna o tempo presente gerador de sentido da realidade vivida.
Figura 49 – Parte do painel, contendo, no primeiro plano, a linha do tempo, que revela os diretores da instituição e, no fundo, observa-se a evolução dos materias graficos, do livro ao digital, além de texturas com essa
temática. Fonte: Acervo pessoal da designer Silvia Cabral.
O ato de projetar não foi imediato, deu-se num processo longamente duradouro que envolveu um controle e uma intenção consciente que se modificava, enquanto se percebia pouco a pouco o resultado da produção.
A intenção de criar algo que satisfizesse a percepção do receptor e do cliente era constantemente controlada pela satisfação de agradar também aos próprios produtores do projeto, ou seja, os designers usufruíram da experiência sensorial imediata acerca do resultado do
trabalho e permitiram-se a experiência estética do gosto pessoal, ao manipular cores, imagens, textos e outros signos e qualidades a cujas fontes tiveram acesso.
Mas essa experiência não foi liberta de tensões e resistências advindas da dispersão, das dúvidas, das excitações inerentes ao ato da criação; ao contrário, a experiência foi motivada pela necessidade de um término satisfatório.
Dewey (1985) define experiência:
A experiência, como o respirar, é um ritmo de inspiração e expirações. Sua sucessão é pontilhada e tornada um ritmo pela existência de intervalos, pontos nos quais uma fase cessa e a outra está latente e em preparação [...] Cada lugar de descanso na experiência é um padecer em que são absorvidas e abrigadas as consequências de um fazer anterior e, a menos que o fazer seja o total capricho ou a rotina pura, cada fazer traz em si próprio um significado que foi extraído e conservado. Como no avanço de um exército, todos os ganhos já efetuados são periodicamente consolidados e, sempre em vista do que se fará depois. Se nos movemos rápidos demais, afastamo-nos da base de suprimentos – dos significados acumulados – e a experiência é aturdida, pobre e confusa. Se perdermos tempo demais após havermos extraído um valor líquido, a experiência perece de inanição. (DEWEY, 1985, p. 105).
Fica claro que a “experiência” proporciona variedade e movimento numa contínua função de ações e ritmos peculiares.
Particularmente no processo de criação do painel para a BIREME, os designers experimentaram a conexão do gosto pessoal e da sensibilidade, além do juízo perceptivo, até que pudessem estar satisfeitos com a produção planejada. Puderam, continuamente, reformar o projeto e guiar-se nesse propósito a cada estágio.
Uma série de atos (como o fazer, o refazer, o desviar-se do planejado, o domínio da técnica, o exercício da imaginação, a ordenação das ideias e a incorporação de outras novas) pôs-se em interação contínua, consubstanciando-se em experiência criativa.
Os designers selecionaram, simplificaram e extraíram o que pensaram ser significativo a ponto de condensar os códigos visuais, primeiro de acordo com seus próprios interesses para, então, submeter o resultado do que se construía à preferência do cliente.
Existe nessa experiência uma “ênfase seletiva”, como bem afirma Dewey (1985, p. 22): “[...] escolhas são inevitáveis quando ocorre a reflexão. Não há mal em seja assim. A fraude começa apenas quando a presença e a operação da escolha são ocultadas, disfarçadas, negadas”.
Figura 50 – Partes do painel, contendo elementos diversos. Fonte: Acervo pessoal da designer Silvia Cabral.
As séries de ações experimentadas impuseram um ritmo dinâmico ao trabalho, proporcionando, como resultado, variedade e movimento. Fica amplamente visível que o resultado agrega a abundância, que inclui uma parte do conto de Jorge Luis Borges em sua própria caligrafia.
O conto de Jorge Luis Borges, “A Biblioteca de Babel”, foi a metáfora inspiradora da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS)52 e seu Logo.
O projeto exigiu uma ordenação dos elementos para que a totalidade do resultado pudesse ser consumada, a ponto de haver integração das partes. Cada parte do todo deveria resumir um aspecto da história, além de agregar um valor coerente à obra.
Percebe-se, então, a opção pela sobreposição de imagens, as quais sugerem a dominância de alguns elementos sobre os outros.
Figura 51 – Última parte do painel, contendo o nome de todos os funcionários da Instituição. Fonte: Acervo pessoal da designer Silvia Cabral.
52
* A Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) é um dos serviços da BIREME. Disponível em: http://regional.bvsalud.org/php/index.php.Acesso em: 10/12/2009.
O excesso dá-se na proliferação das formas e das variadas imagens, que, por adição, percorrem vertical e horizontalmente toda tela, enriquecidas pelos detalhes.
A pluralidade torna-se instância permanente, o paradoxo “completude/incompletude” constrói-se a partir de signos fragmentados, em um grande mosaico de muitas combinações e texturas, características, aliás, tipicamente barroquizantes.
O tempo do fazer passa-se longo e carrega no resultado da obra um tempo que enfatiza a longa duração, pois o painel concebe a dinâmica das mudanças e permanências sociais. Silvia Cabral comenta:
Na última lâmina do mural aparecem escritos os nomes de todas as pessoas que trabalham ou já trabalharam na BIREME e que de alguma forma deram sua contribuição. Esses nomes não aparecem em ordem alfabética, com o propósito de fazer com que as pessoas parem em frente ao mural, procurem seu nome e, nessa procura, acabem identificando nomes de colegas e fatos relacionados a eles, fazendo do mural um objeto de interação. Essa lista de nome deve continuar a crescer e com o tempo virar uma textura que para ser lida necessite de uma lupa rsrsrs […] CABRAL (2009).
Vale lembrar que a investigação da história da empresa necessitou de um domínio que levasse em conta, seriamente, a memória passada e a perspectiva de futuro, sem jamais deixar de lado uma das dimensões em benefício da outra.
É curioso observar que o percurso mental de ambos os designers coloca o tempo sociocultural como um fator primordial e de destaque no projeto. Ora o tempo apresenta-se marcado pela relevância da permanência, do tempo linear, em que se priorizam os eventos coletivos, as atividades profissionais e o destino ímpar da história da empresa com seus movimentos, rupturas e mudanças, ora se destaca o tempo cuja perspectiva flutuante dá a impressão de contínuo e impõe um sentimento de perspectiva para o futuro.
O tempo está em aberto, juntamente com a obra que destaca seu inacabamento.
O tempo de criação contou com a vantagem de ambos os designers estarem trabalhando para a empresa BIREME, o que facilitou o acesso constante dos designers à pesquisa e ao contato frequente com o diretor (cliente).
Ambos conheciam o objeto “empresa” no qual estavam trabalhando, mas tal conhecimento não os dispensou da investigação árdua, que se deu num processo dinâmico, pois, à medida que a pesquisa constituía-se fonte de busca para a solução do projeto, também os conduzia em suas ações.
Outro fato importante agrega a parceria de ambos os designers, conforme comenta Silvia: “Julio C. Takayama é meu marido, então já viu, trabalhávamos sem parar em casa ou onde estivéssemos. Sempre acompanhados do nosso notebook. Foi um trabalho delicioso de fazer e carrego muitas boas lembranças desse momento” (CABRAL, 2009).
Portanto, o projeto emergiu da interação social e afetiva dos designers, que, no contexto de trabalho e nos momentos informais, evidenciaram, como característica fundamental no desenvolvimento do projeto, a manifestação da comunicação interpessoal de todas as partes envolvidas.
O processo de criação do painel aparece como resultado da relação do designer com os diferentes tempos (internos e externos) que ambos experimentaram. Tempos diluídos e tempos extremamente concentrados ao longo de cinco meses.
O processo de criação foi regido pelo conceito de tempo plural, ainda que alguns momentos da história apareçam por sucessão linear. A ideia foi a combinação, a conjunção, a dispersão e a reunião de várias linguagens que, no espaço, fazem reaparecer o tempo não como linha, mas como um emaranhado, um turbilhão.
O design deveria contar a história a partir de uma trajetória no tempo, mas, curiosamente, ao investigar-se o processo de criação dos designers, outra história é percebida, a que marcou a experiência de ambos.
Houve o tempo de luta com o projeto em si, que envolvia a complexa pesquisa, mas também houve o tempo do fazer, que esteve sempre aliado ao aspecto de domínio técnico instrumental dos designers.
A competência de ambos para a execução do projeto é inegável; contudo, percebe-se que a designer Silvia transmite um modo peculiar ao projeto. Flagram-se nas texturas
do painel movimentos em caracol, à semelhança de suas pinceladas, que são encontradas nos lenços em seda que ela mesma pinta.
Figura 53 – Lenços em seda pintados pela artista plástica e designer Silvia. Fonte: Acervo pessoal da designer Silvia Cabral.
De forma geral, sua pintura, num primeiro momento, parece ser realizada de maneira espontânea, uma “reflexão espontânea” que alimenta e constitui sua expressão, a qual explode em emoções carregadas de afetividade (paixão, alegria, raiva etc.).
Sua atitude afetiva e seu gestual dão formas específicas ao objeto. Nele ela impõe sua imaginação, sua reflexão e acomoda suas emoções, especificando assim a relação existente no humano: subjetividade e objetividade.
Figura 54 – Detalhe do painel, em forma espiral ou caracol. Fonte: Acervo pessoal da designer Silvia Cabral.
A singularidade do gestual da designer também aparece nas formas verticais ou em faixas pintadas em outros trabalhos. Sua maneira de significar o mundo que circundante ganha sentido, e o que poderia ser interpretado como acaso, ou gesto caótico, já que, na pintura mais solta, não se tem um total e absoluto controle sobre o resultado, passa, paulatinamente, a ser experimentado na materialidade do painel que projeta.
O sujeito traz das experiências vividas sua subjetividade e imprime-as em tudo o que realiza, em uma postura espontânea, com ou sem essa consciência.
Figura 55 – Lenço em seda pintado pela artista plástica e designer Silvia. Fonte: Acervo pessoal da designer Silvia Cabral.
Dessa forma, a designer trouxe seu imaginário ao processo de criação do painel, e a experiência irreversível que se intensifica é a da subjetividade do caos/ordem, os quais deixam de ser antíteses, passando a predominar a objetividade/liberdade e o pensamento reflexivo/emotivo, que vão sendo estruturados no tempo e no espaço.
Nessa direção, pode-se afirmar, ao lado de Salles (2006), que é possível encontrar, tanto na obra, como nos documentos dos processos, os resíduos de outras linguagens e saberes que, ao serem incorporados, remetem o sujeito à tradução de uma nova linguagem.
Figura 56 – A designer Silvia acompanhando a instalação do painel. Fonte: Acervo pessoal da designer Silvia Cabral.
O resultado do trabalho afirma-se pelo jogo existente entre a subjetividade dos sujeitos, submetidos ao contexto histórico e cultural dos envolvidos (cliente/designers), e a competência do fazer, que confere sentido ao projeto no tempo.
O painel contém várias temporalidades, uma vez que assume a representação da história, da cultura e da tradição. É uma tentativa de registrar todas as ações, as maneiras de agir, de deixar vestígios de sua presença no mundo e na memória dos homens e, por isso, reflete que a empresa continua no tempo: o que está por vir pode ser acolhido e proporciona uma unidade na disparidade, uma sensação de harmonia em meio a mudanças e apela para o sentido da permanência da BIREME no tempo.
É, no fundo, uma intenção de sobrepujar a finitude e elevar-se ao infinito.