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A pasta de matrícula de Alda Lodi, pesquisada no Arquivo Geral do IEMG, guarda ainda dois documentos referentes à sua entrada na Escola Normal da Capital, em 1912, aos 13 anos e 5 meses: o atestado de idade e o atestado de saúde. O atestado de idade não está acompanhado da certidão de nascimento de Alda e traz uma curiosidade: um abaixo-assinado contendo três assinaturas39, que atestam o nascimento de Alda Lodi em 17 de dezembro de 1897, confirmando que a aluna havia completado 14 anos. Mas, conforme o registro civil, seu nascimento ocorreu um ano mais tarde, em 17 de dezembro de 1898, portanto, Alda não tinha ainda os 14 anos declarados.40O atestado de saúde traz o seguinte texto:

Atesto que a senhorinha Alda Lodi, candidata à matrícula na Escola Normal d´esta Capital, acha-se imunne de moléstia infecto-contagiosa ou que a inhabilite ao exercício do magistério. Outrosim atesto ella ter sido vacinada contra a varíola com rezultado positivo.

Bello Horizonte, 8 de maio de 1912 Dr. Alfredo Balena

A Escola Normal Modelo, instância de formação inicial e atuação de Alda Lodi, era um destino previsível para as moças “de sociedade” de Belo Horizonte naquela época. A legislação que regulamenta o ensino normal, quando Alda inicia seus estudos, divulga o programa de ensino regulamentado pelo Decreto nº 3.123, de 6 de março de 1911,41 assinado pelo Presidente do Estado de Minas Gerais, Júlio Bueno Brandão, sendo Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Justiça, Delfim Moreira da Costa Ribeiro. Esse decreto aprova o regimento interno da Escola Normal da Capital, definindo em seu capítulo I os programas para os quatros anos do ensino normal estabelecidos nas seguintes cadeiras:

39

José Isaac Benjamin, José Luis de Mendonça e outra assinatura ilegível.

40Pelo Decreto nº 1982, de 18 de fevereiro de 1907, que aprova o Regimento Interno da Escola Normal da Capital ,

em seu artigo 8º um dos documentos a ser apresentado na matrícula a certidão de registro civil ou justificação

perante a auctoridade judicial, que demonstre ter 14 annos completos, pelo menos.

41Decreto nº 3.123, de 6 de março de 1911, teve por base no artigo 57 da Constituição do Estado, de acordo com o

1º anno

Portuguez (4 aulas por semana) – Desenho e Calligraphia (idem) – Musica (idem) – Gymnastica (idem) - Costura e Trabalhos Manuaes (idem para cada secção) – Arithmetica, (tres aulas por semana) – Physica (uma aula por semana)

2º anno

Geographia (aulas diarias) – Geometria e Desenho Linear (idem) -

Arithmética (tres aulas por semana) – Musica (idem) – Desenho e Calligraphia (idem) – Gymnastica (idem) – Costura e Trabalhos Manuaes (idem para cada secção) – Portuguez (duas aulas por semana) - Chimica (idem)

3º anno

Phisica e Chimica, Historia Natural e Hygiene (aulas diarias) – Historia e Educação Moral e Cívica (idem) – Francez (idem) – Geometria e Desenho Linear (tres aulas por semana) – Geographia (idem) – Portuguez (duas aulas por semana) – Musica (uma aula por semana) Desenho e Calligraphia (idem) – Gyminastica Idem) – Costura e Trabalhos Manuaes (idem para cada secção)

4º anno

Historia e Educação Moral e Civica (tres aulas por semana) – Francez (aulas diarias, sendo dois dias da semana destinados a pratica de conversação) – Arithmetica Commercial e Escripturação Mercantil (duas aulas por semana) – Pratica Profissional de todas as cadeiras, com excepção de francez (duas aulas por semana)

Fonte: Regimento Interno da Escola Normal de Bello Horizonte Diário Oficial, 6 de março de 1911

A formação docente de Alda Lodi teve início a partir desse programa de ensino proposto para preparar as normalistas na capital. A análise desse programa possibilita perceber que o currículo da Escola Normal Modelo compatibilizava aspectos que envolviam tanto a aquisição de conhecimentos para o exercício do magistério primário, quanto os saberes que deviam ser contemplados na formação das moças, contendo os elementos para a constituição do “feminino”, no período, como a costura, por exemplo. O ensino normal passa por diferentes regulamentações ao longo do tempo, por meio de novos decretos, que confirmam ou alteram os anteriores. Alda cursava o 3º ano normal quando foi publicado o decreto nº 4.139 de 03 de março de 1914, estabelecendo o programa de cada disciplina (cadeira), assinado pelo professor responsável, a saber:

Portuguez, Arthur Joviano; Francez, Leopoldo da Silva Pereira; Arithmética, Egídio Soares; Geometria e Desenho Linear, Edgard Renault Coelho; Geographia, Nelson Baptista; Physica e Chimica, Dr. Francisco Magalhães Gomes; História, Educação Cívica e Moral, Dr. Cipriano de Carvalho; Música, Branca de Carvalho Vasconcellos; Desenho, A. Corrêa e Castro; Costura, Emma Belgrano Simoni; Trabalhos Manuaes, Alexandrina de Santa Cecília e Gymnástica, Aurélia Olynto”42.

O período de estudos de Alda Lodi na Escola Normal da Capital, entre 1912/1915, está registrado no Livro de Matrículas do Arquivo Geral do IEMG, onde pude observar seu desempenho e rendimento em cada ano do curso, não apresentando notas numéricas e sim conceitos como “distinção, plena e plenamente”, o que reforça a idéia de que ela era uma aluna responsável e dedicada aos estudos; observo que se destacava em Aritmética, Geometria e Música.

O exercício de interrogar as fontes no estudo da trajetória de Alda Lodi como estudante normalista, preparando-se para o ingresso no magistério, levou-me às bases históricas da Escola Normal. Busquei entender como se instituiu, como se constituiu e evoluiu o ensino que deveria “ensinar professoras a ensinar”. Para pensar sobre a formação de professores no passado e pensar a escola por dentro, busquei elementos em obras e autores que se debruçaram sobre esses temas.

Na introdução de seu livro sobre o processo de complexificação da instituição escolar, Faria Filho (2000) afirma que uma das intenções de seu trabalho foi privilegiar a ação dos sujeitos, dos profissionais que construíram a escola pública primária em Belo Horizonte. Essa ideia vem reforçar minha intenção nesta pesquisa que é, fundamentalmente, compreender a ação de um sujeito da educação, numa trajetória marcada por muito trabalho na própria formação e na de outros na cena escolar, co-autores na “escrita da história” da educação em Minas Gerais. A história de vida profissional de Alda Lodi é permeada pela ação de seus mestres, colegas e alunos (as), sujeitos que “também trabalharam”,43 que aprenderam com ela, mas que certamente ensinaram a ela, influenciando-a e recebendo sua influência durante sua extensa trajetória no ensino mineiro.

42Fonte: Programa de Pesquisa – A educação do corpo nos espaços de sociabilidade do urbano: investigação sobre os investimentos no corpo em Belo Horizonte 1891-1930 – desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisa em

História da Educação – GEPHE/FaE e o Centro de Memória da Educação Física, do Esporte e Lazer da Escola de Educação Física, ambos da UFMG.

43 Parafraseando Ecléa Bosi (1979), em sua obra Memória e Sociedade: lembranças de velhos, um clássico para os

historiadores, em especial, os oralistas, obra importante para a compreensão do significado do coletivo nas trajetórias individuais.

Marta Carvalho, na apresentação do livro de Faria Filho (2000) aponta algumas perspectivas de análise referentes ao campo das investigações sobre a história da instituição escolar. Entre elas, pensar a escola como instituição que é produto histórico da interação de

dispositivos de normativização escolar e práticas de agentes que se apropriam deles (2000, p. 9).

Essa perspectiva levou-me a buscar entender os dispositivos contidos nas leis e decretos que normatizaram o ensino primário e normal no período que estudo, levando em conta que produzir história não significa repertoriar medidas de regulamentação, como pontua Carvalho (2000, p.9). Entendendo também que a escola não é uma instituição transistórica nem atemporal. Sua natureza tem a marca da impermanência, se inscreve na ordem da mudança, no fluir e no devir do tempo.

1.3 De aluna a professora: o trabalho de Alda Lodi nas Classes Anexas à Escola Normal