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7 PRODUTO EDUCACIONAL

7.1.1 A formação do leitor

A formação de leitores foi erroneamente atribuída aos professores de língua portuguesa e literatura através dos tempos. Esses educadores são sempre confrontados por perguntas do tipo: Como formar leitores ou, como estimular o gosto e o hábito da leitura?

Para responder a esses questionamentos é preciso entender as técnicas que já foram utilizadas nesse processo e tentar corrigir os erros cometidos em nome desse objetivo, pois na tentativa de formar leitores, impôs-se muitas vezes o texto sem o trabalho de mediação do professor. Foucambert (1997) afirma que toda a atuação para a formação do leitor inicia-se e é constantemente acompanhada por um conjunto de informações sobre a natureza da leitura e o que a ela esta relacionada. Ninguém se torna leitor sem querer, mas somente através de um processo voluntário, amparado por diversas tomadas de consciência sobre as condutas de leitura e a importância dessa leitura para a vida de cada um.

Além da formação do leitor, é preciso lembrar de que a escola é o ambiente ideal para a formação do cidadão consciente, critico e humano. E nisso a competência leitora cumpre um papel fundamental. Portanto, formar leitores na escola, implica de maneira direta na formação humana.

Mas a experiência mostra-nos que não basta disponibilizar mais livros aos estudantes, é necessário investir na qualidade das obras disponibilizadas e em situações que favoreçam um trabalho ativo de construção do sentido do texto. Além de exigir livros variados e de qualidade, selecionados por educadores que planejem atividades que possibilitem, entre outras

coisas: compreender o que está escrito e também o que não está identificando elementos explícitos e implícitos; estabelecer relações entre a obra lida e outras já conhecidas; descobrir os inúmeros sentidos que podem ser atribuídos a ela; justificar e validar a sua leitura com base em elementos encontrados no próprio texto e em seu contexto. Ou seja, formar leitores requer um investimento significativo na construção de uma comunidade que compartilha seus textos, troca impressões acerca de obras lidas e constrói um percurso leitor próprio, inicialmente mediado pelo professor e, posteriormente, com autonomia.

Mas para que isso se torne uma realidade nas escolas, é necessário que, antes de formar alunos leitores, os professores sejam leitores competentes. Mas como corrigir um problema que atinge um número tão elevado de professores que já estão atuando na educação? Como formar professores leitores em meio a sua atuação? Esse desafio precisa ser encarado pela escola, que pode - e deve - encontrar em seu interior espaços para promover entre seus profissionais a análise de bons textos, discutindo os diferentes recursos utilizados pelos autores e os efeitos de sentido que provocam nos leitores, as relações que podem ser estabelecidas entre as obras conhecidas e quais são as mais ricas para o trabalho com a língua e a linguagem. Enfim, é preciso que a vivência de uma comunidade de leitores não se restrinja apenas aos alunos, mas possa envolver todas as instâncias educativas da escola.

Deixando o posto egocêntrico de “detentor do saber” o professor pode promover ambientes propícios para conversar sobre textos trazidos por ele e por seus alunos, não se constrangendo do fato de não ter lido todos os texto – tarefa impossível a qualquer um.

Um dos problemas que encontramos nas atividades que envolvem a compreensão do sentido do texto é a posição do professor como única voz autorizada. Quando isso acontece, os alunos se veem diante da necessidade de alcançar as respostas esperadas, como se a leitura fosse uma fonte objetiva de informações. Dessa forma, se habituam a depender sempre da opinião autorizada do educador para compreender a obra e construir sua representação mental sobre ela. Por isso, é bom lembrar que o trabalho com leitura compartilhada também pressupõe o desejo da escuta. Em seu livro Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura, Bajour (2012) afirma que "[...] escutar, assim como ler, tem que ver, porém, com a vontade e com a disposição para aceitar e apreciar a palavra dos outros em toda a sua complexidade, isto é, não só aquilo que esperamos, que nos tranquiliza ou coincide com nossos sentidos, mas também o que diverge de nossas interpretações ou visões de mundo."

Assim, nas oportunidades de leitura, é preciso disponibilizar espaço e tempo para que todos possam se apropriar da leitura e se sintam à vontade para compartilhar suas impressões, não deixando apenas os alunos que possuam as “melhores respostas” falarem, tampouco, monologizando a experiência de leitura do professor. Isso não significa se abrir para desfrutes subjetivos a respeito do texto, o que gostaram ou não na leitura. É preciso entender que nele está o “chão” da interpretação e todo texto tem o seu discurso organizado para comunicar algo que existe independentemente das interpretações dos seus diferentes leitores.

Essas leituras compartilhadas devem ser organizadas constantemente na rotina escolar. Devem possuir objetivos, claros e compartilhados com os alunos, e serem frutos do planejamento criterioso do professor.

No livro Ler e brincar, tecer e cantar: literatura, escrita e educação, Reyes (2012) afirma que é preciso lembrar que os educadores são a voz que conta, a mão que abre portas e traça caminhos entre a alma dos textos e a alma dos leitores. "Seu trabalho com literatura (...) é risco e incerteza. Seu ofício privilegiado é, basicamente, ler. E seus textos de leitura, não são apenas os livros, mas também os leitores. Não se trata de um ofício, mas de uma atividade de vida. Não figura em dicionários, nem nos textos escolares, tampouco no manual de funções, mas pode ser ensinado. E essa atitude será o texto que os alunos irão ler. Quando saírem do colégio e esquecerem datas e nomes, poderão recordar a essência dessas conversas de vida que se teciam entre as linhas. No fundo, os livros são isto: conversas sobre a vida. E é urgente, sobretudo, aprender a conversar."