2 GRAMÁTICA DAS CONSTRUÇÕES E SEMÂNTICA DE
2.2 A GRAMÁTICA DAS CONSTRUÇÕES COGNITIVA
2.2.3 A GCC como um Modelo de Linguagem Baseado no Uso
Um ponto importante para a GCC na definição de uma rede de construções que integra a gramática e o léxico de uma língua é a questão da frequência de uso (cf. introdução da seção 2.2). Assim, para que uma construção venha a integrar tal rede, é preciso que seja recorrente o suficiente para se entrincheirar na língua e, consequentemente, no uso que dela é feito. Essa característica faz do arquétipo construcionista golbergiano um Modelo de Linguagem Baseado no Uso, em que as propriedades de uso da linguagem são responsáveis pela representação de padrões gramaticais e lexicais na mente do falante (CROFT E CRUSE, 2004, p. 278).
Os modelos de linguagem que se alinham nesse espectro ancoram-se na visão de que é a reiteração de formas específicas com funções igualmente específicas em contextos linguísticos (e socioculturais) particulares que vão determinar a relevância de determinada estrutura para certa língua e, por isso, a maneira como a linguagem é armazenada.
Dois mecanismos de frequência impactam a forma como a linguagem está estruturada e armazenada na mente do falante. Trata-se da frequência com que determinada estrutura ocorre em uma determinada comunidade linguística (chamada
frequência de token/ocorrência) e da frequência com que essa mesma estrutura varia dentro do mesmo grupo de falantes (nomeada frequência de type/tipo).
A frequência de token tem impacto direto na forma como a estrutura será armazenada – ligando-se à noção de convencionalização: quanto mais frequente uma forma for, mais entrincheirada, mais central à língua ela será. A construção {X-s}, por exemplo, é altamente frequente na Língua Portuguesa, instanciando a forma plural da maior parte das palavras desse idioma que se flexionam em número. Tal construção é, por isso, entrincheirada no Português e constitui, dessa forma, a “regra”, o padrão para formar plural nessa língua. É por isso que, ante a necessidade de flexionar em número uma palavra desconhecida que atua como um substantivo (que seja terminada em vogal, o mais comum para as palavras dessa classe em Português), utilizaremos essa construção, e não a construção {X-is}, que atende uma parte dos substantivos e adjetivos terminados em “-l” (como “anzol”, “varal” e outras), pois ela é mais central para os usuários do Português, ao passo que as outras formas de obtenção do plural ocupam a periferia da língua, sendo válidas apenas para um número de casos mais restritos.
A frequência de types, por outro lado, diz respeito à possibilidade de extensão de um padrão a novos padrões (especialmente através do processo cognitivo da analogia) e relaciona-se à ideia de produtividade, pois, quanto maior for a variação de uma mesma forma no interior de uma língua, maior será a possibilidade de se estender essa forma a usos diferenciados daqueles que já são feitos. A construção {X-EIRO} (BOTELHO, 2009) é uma construção da Língua Portuguesa que forma nomes de agentes que estão associados, de maneira geral, a atividades de menor prestígio social – cujos morfemas radicais das palavras que a elas remetem vêm ocupar a posição X da construção, formando as palavras “açougueiro”, “faxineiro”, “jornaleiro”, dentre muitas outras. É, dessa forma, uma construção muito produtiva. Por isso, quando uma nova atividade que possua algum vínculo com a sua função semântico- pragmática surge, é natural que utilizemos esse padrão (portanto, estendemo-lo) para formar seus nomes de agentes. Vejam-se os casos de “blogueiro”, “tuiteiro”.
Nessa concepção, a definição de gramática como organização cognitiva da experiência com a linguagem, proposta por Bybee (2010, p. 08), é altamente pertinente e capaz de suscitar que somos capazes de armazenar não apenas generalizações abstratas, mas também conhecimentos específicos acerca de certas particularidades da linguagem. As generalizações emergem, inclusive, da reiteração
de casos particulares (cf. GOLDBERG, 2006, p. 47-49). Daí decorre o fato de dominarmos não apenas as regras gerais, mas também grande quantidade de exceções.
Em Português, por exemplo, os adjetivos são canonicamente colocados após o nome que qualificam, como “carro vermelho”, “menino levado”. No entanto, há adjetivos que podem ser colocados tanto antes quanto após o nome que qualificam sem que haja mudança drástica de sentido, “bela mulher/mulher bela”. Assim, o usuário da língua armazena a regra geral – no caso, a posposição do adjetivo –, mas guarda também as individualidades de um adjetivo como “belo(a)” que, além de atuar conforme a regra geral, apresenta uma possibilidade de colocação que não se estende a todos os membros da categoria a que se vincula.
Feldman (2006, p. 80) endossa essa visão de linguagem, ao afirmar que, de um ponto de vista neural,
a repetição de um padrão [...] provoca alterações intracelulares adicionais que levam, com o tempo, a um aumento do número de canais receptores associados a sinapses bem sucedidas – a mudança estrutural necessária para a memória de longo prazo.19 [Trad. Nossa]
É relevante ressaltar, ainda, que essa perspectiva põe relevo sobre o caráter cultural da linguagem, destacando-a como “instituição social simbolicamente incorporada que surgiu historicamente de atividades sociocomunicativas” (TOMASELLO, 2003[1999], p. 131-132). Afinal, padrões linguísticos emergem de demandas sociocomunicativas específicas e, conforme se afirmou mais acima, o seu reiterado uso em uma situação particular fará com que se estabilize na cultura e seja armazenada como conhecimento convencionalizado na mente dos usuários de uma língua (por natureza, participantes de uma cultura). E, como cada cultura valoriza aspectos diferentes de suas relações interpessoais e com o mundo que a cerca, é natural que a diversidade seja o mais comum de existir entre as diferentes línguas do globo (cf. seção 2.1).
Entender a linguagem como intrínseca a seu uso confere à pesquisa um viés empirista muito forte e impele-nos a lidar com dados reais, coletados em contextos de
19 “Repetition of a pattern […] triggers additional intracellular changes that lead, in time, to an increased
number of receptor channels associated with successful synapses – the requisite structural change for long-term memory.”
usos reais da língua. Dessa forma, esses aspectos guiam a metodologia que subsidia a presente pesquisa.
Ainda que o modelo goldbergiano de gramática seja reconhecido pela sua relevância dentre os demais, tem sido alvo de algumas críticas no que respeita a seus limites. Boas (2013) traça uma síntese clara dessas restrições. É o que passamos a apresentar.