A GRANDE ESCATOLOGIA

No documento LIVRO DE ISAÍAS AD EXPERIMENTUM (páginas 63-71)

24

O julgamento de Deus

1Eis que o SENHORc vai devastar e arrasar a terrad, desfigura-lhe a face e dispersa os seus habitantes.

2Acontecerá o mesmo ao povo e ao sacerdote, ao escravo e ao seu senhor,

à criada e à sua senhora, ao comprador e ao vendedor,

ao que pede emprestado e ao que empresta, ao credor e ao devedor.

3A terra ficará completamente devastada e inteiramente despojada,

porque o SENHOR pronunciou esta palavra.

4Desolada, a terra desfaleceu, murchou e desfaleceu o mundo, murcharam as alturas com a terra.e

5A terra está profanada por causa dos seus habitantes, porque transgrediram as leis,

violaram as normas, quebraram a aliança eterna.

6Por isso a maldição devora a terra e os culpados são os que nela habitam.

Por isso foram consumidos os habitantes da terra e de humanos resta apenas um pequeno número.

c Estes capítulos (24-27) constituem um bloco independente no conjunto do livro de Isaías, em-bora se possam notar ligações com os capítulos precedentes. São caraterizados pela linguagem e pelo estilo muito próximos do género apocalíptico. Chamam-se “a grande escatologia” por apontarem para o “final dos tempos” e para a transformação das realidades históricas, sujeitas a um juízo divino. A data da composição é certamente pós-exílica, num período tardio. A com-pilação de peças independentes num texto final deixa ligações nem sempre fáceis de identificar. d O cenário é universal e a humanidade está dispersa, lembrando a história primordial em Gn 6-9

e 11. Os vv.7-12 centram-se numa cidade e nos seus habitantes. O tema da vinha e do vinho remete para 5,1-7, mas recorda sobretudo o que é dito em 16,7-12 sobre as vinhas e campos de Moab, que deixam de produzir e dar alegria. Para a identificação da cidade desolada ou do caos (vv.10.12) há várias hipóteses de cidades em diferentes momentos da história às quais o texto se adaptaria. A hipótese mais seguida é a que identifica a cidade poderosa com a Babilónia, oposta a Jerusalém, a cidade forte, guardada pelo Senhor (26,1-3).

A cidade do caos

7O mosto está fraco, a videira está murcha, gemem todos os que estavam de coração alegre.

8Cessou o regozijo dos tambores, acabou o bulício dos divertimentos, terminou o regozijo da cítara.

9Já não bebem vinho a cantar,

as bebidas inebriantes são amargas para quem as bebe.

10Ficou destruída a cidade do caos,

foram fechadas todas as casas para ninguém entrar.

11Clama-se nas ruas por causa do vinho, ficou ensombrada toda a alegria, foi banido o regozijo da terra.

12Na cidade resta apenas a desolação e a ruína das portas despedaçadas.

Destruição

13Pois isto é o que vai acontecer no meio da terra e entre os povos, como quando se varejam as oliveiras, como no rebusco, quando termina a vindima.

14Eles levantarão a sua voz,

aclamarão a majestade do SENHOR, clamarão do lado do mar.

15Por isso, nas regiões do orientea

glorificai o SENHOR,

o nome do SENHOR, Deus de Israel, nas ilhas do mar.

16Dos confins da terra ouvimos cânticos: «Glória ao Justo!»

Mas eu disse: «Infeliz, infeliz de mim! Ai de mim!» Os traidores atraiçoam, os traidores atuam à traição.

17Terror, trambolhão e tropeçob

estão sobre ti, habitante da terra.

a Ou: ao raiar das luzes.

b O hebraico joga com três palavras em assonância para significar um medo crescente que vai terminar em desastre.

18O que tenta escapar do grito de terror dá um trambolhão no buraco; e o que se levantar do buraco será apanhado num tropeço. Pois abrem-se as comportas do céu e estremecem os fundamentos da terra.

19A terra desfaz-se em pedaços, a terra parte-se em vários bocados, a terra treme por todos os lados.

20A terra cambaleia como um bêbedo, vacila como uma cabana,

pesa sobre ela o seu crime, cairá e não voltará a levantar-se.

21Naquele dia, o SENHOR intervirá no céu, contra o exército do céu; e na terra, contra os reis da terra.

22Juntar-se-ão em grupo

como prisioneiros no calabouço, ficarão encerrados na masmorra

e depois de muitos dias serão castigados.

23A lua ficará pálida e o sol, envergonhado, porque é o SENHOR dos exércitos que reina no monte Sião e em Jerusalém;

e a Glória está diante dos seus anciãos.

25

Hino de ação de graças

1SENHOR, tu és o meu Deusc; exaltarei e louvarei o teu nome, porque realizaste planos maravilhosos, firmes e seguros, desde há muito tempo.

2Reduziste a cidade a um montão de pedras, a cidade fortificada a escombros,

c A forma deste texto está relacionada com os salmos de ação de graças. O motivo de louvor são as maravilhas realizadas por Deus. Contrapõe-se a cidade reduzida a escombros a um povo forte que encontra no Senhor o seu refúgio.

a cidadela de estrangeiros deixou de ser cidade, nunca mais será reconstruída.

3Por isso te glorifica um povo forte, a cidade de povos tirânicos te respeita.

4Porque foste uma fortaleza para o necessitado, uma fortaleza para o pobre na sua angústia, refúgio na tempestade, uma sombra contra o calor. Pois o sopro dos tiranos é como chuva no frio,

5como calor em terra árida é o tumulto dos estrangeiros; tu baixas o calor com a sombra da nuvem,

o coro dos tiranos é silenciado.

O banquete de Deus

6O SENHOR dos exércitos prepararáa, para todos os povos, neste monte, um banquete de manjares suculentos, um banquete de vinhos envelhecidos, carnes selecionadas, vinhos excelentes.

7Neste monte destruirá o véu que cobre a face de todos os povos, o manto que envolve todas as nações.

8O Senhor destruirá a morte para sempre,

o SENHOR enxugará as lágrimas de todas as faces e retirará da terra inteira a desonra do seu povo. Porque o SENHOR falou.

9Naquele dia há de dizer-se: «Este é o nosso Deus

em quem confiámos e Ele nos salvará. Este é o SENHOR em quem confiámos: alegremo-nos e rejubilemos na sua salvação.

10Pois a mão do SENHOR pousará sobre este monte

a Há uma ligação entre este texto com 24,23 que situa a realeza do Senhor no monte Sião, em

Jerusalém. A imagem do banquete serve para traduzir o bem-estar e a reconciliação universal. Jesus também compara o reino dos céus a um banquete (Mt 8,11-12; 22,1-14) e celebrará com os seus discípulos a última ceia, anunciando o vinho novo no reino do Pai (Mt 26,29).

e Moab será pisado na sua terra, como se pisa a palha na estrumeira.

11Ali mesmo estenderá as suas mãos como as estende o nadador para nadar. Mas Ele derrubará o seu orgulho, bem como o esforço das suas mãos.

12O baluarte inacessível das tuas muralhas, Ele o derruba e abate,

deitando-o por terra, feito em pó».

26

Hino de vitória

1Naquele diab cantar-se-á este cântico na terra de Judá: «Nós temos uma cidade forte.

Para a salvar, Ele colocou muralhas e uma cerca.

2Abri as portas e que entre um povo justo, um povo que guarda fidelidade.

3O seu propósito é firme; Tu manténs sólida a paz, a paz, pois em ti está segura.

4Colocai a segurança no SENHOR para sempre, porque o SENHOR é eternamente um rochedo.

5Humilhou os que habitavam no alto, derrubou a cidade excelsa,

derrubou-a por terra até ficar reduzida a pó.

6Calcam-na aos pés os pés dos oprimidos, os passos dos pobres».

Esperança nos juízos de Deus

7A senda para o justo é a retidãoc,

Tu tornas plano o caminho reto do justo.

b Com a cidade excelsa (v.5), a cidade cuja destruição se narra nos cc. 24-25, contrasta agora (vv.1-16) a cidade forte de Jerusalém.

c Os vv.7-13 são uma reflexão sobre os caminhos de Deus em tom didático: os que procuram o Senhor caminham na retidão e na justiça; os que estão longe dele não compreendem.

8Pois é na senda dos teus decretos que esperamos por ti, SENHOR; para o teu nome e para a tua memória vai o desejo da nossa alma.

9Do fundo da minha alma anseio por ti durante a noite,

e no mais íntimo do meu espírito desde o amanhecer te procuro; pois, com os teus decretos dirigidos à terra,

os habitantes do mundo aprendem a justiça.

10Usando de clemência para com o malfeitor, ele não aprende a justiça;

na terra da retidão ele pratica a iniquidade e não vê a grandeza do SENHOR.

11Levantou-se a tua mão, SENHOR, mas eles não veem.

Que vejam o teu zelo pelo povo e se envergonhem e o fogo destinado aos teus inimigos os devore.

12SENHOR, és Tu que nos concedes a paz,

pois mesmo todas as nossas obras, Tu as realizas para nós.

13SENHOR, nosso Deus, dominaram-nos outros senhores que não Tu, mas só a ti, só o teu nome lembraremos.

14Os mortos não reviverãoa, os defuntos não se levantarão; porque tu os julgaste e destruíste e apagaste deles toda a memória.

15Fizeste-o crescer como povo, SENHOR,

fizeste crescer o povo manifestando a tua glória, alargaste todos os confins da terra.

16SENHOR, na aflição recorreram a ti

e derramam-se em orações quando a tua correção os atinge.

17Como a grávida, prestes a dar à luz, se contorce e grita com as suas dores,

a Os vv.14 e 19 abrem e fecham esta secção que mostra como a vida está nas mãos de Deus. Quem não segue o seu caminho desaparece; mas quem caminha com Deus é restabelecido. Afloram esperanças e ideias sobre uma atenção específica de Deus sobre a vida dos justos depois da morte.

assim éramos nós diante de ti, SENHOR.

18Concebemos, sentimos as dores e o que demos à luz era vento.

Não conseguimos a salvação para a terra e não nasceram habitantes no mundo.

19Reviverão os teus mortos, levantar-se-ão os seus cadáveres. Despertai e exultai, vós que habitais no pó,

porque o teu orvalho é orvalho de luz, e a terra dará à luz os defuntos.

20Vai, meu povo, entra nos teus aposentos, fecha a porta atrás de ti,

esconde-te por uns momentos até que passe a indignação.

21Pois eis que o SENHOR sai da sua morada para julgar a iniquidade dos habitantes da terra. A terra revelará as suas manchas de sangue e não esconderá mais os que foram mortos.

27

1 Naquele dia o SENHOR interviráb, com a sua espada dura, grande e forte, contra Leviatan, a serpente fugidia,

contra Leviatan, a serpente tortuosa, e matará o dragão que há no mar.

Novo cântico da vinha

2Naquele dia cantai um cântico à vinha preciosac:

3«Eu, o SENHOR, sou o seu guardião: rego-a frequentes vezes.

b Este versículo pode ser lido junto com os anteriores (26,20-21) pois retoma o castigo em ter-mos mitológicos. Leviatan é descrito como a serpente fugidia, a serpente tortuosa, o dragão que habita no mar. É uma forma de identificar o caos primitivo, oposto a Deus, que, ao longo da história, nunca está totalmente derrotado e ameaça a estabilidade e a ordem da criação. É o símbolo das forças do mal no que se contrapõem ou resistem à ação do criador.

c Como aqui (vv.2-5), muitas outras vezes Israel e Judá são apresentados com a imagem agrícola

da vinha (Is 1,8; 3,14; 5,1-7; Os 10,1; Jr 2,21; 5,10; 12,10-11; Ez 15,1-5). É o Senhor quem cuida desta vinha, mesmo quando dá “espinhos e silvas” superando-se assim o castigo referido em 5,5.

Para evitar ataques contra ela, guardo-a dia e noite.

4Não sinto indignação.

Se me desse espinhos e silvas, entraria em guerra contra ela e queimá-la-ia inteira.

5Mas, se se apegar à minha proteção, fará as pazes comigo.

Sim, fará as pazes comigo».

Castigo e renovação

6Virão dias em que Jacob ganhará raízesa, Israel produzirá rebentos e flores

que encherão de frutos a superfície do mundo.

7Será que Ele lhe bateu como bateu naqueles que lhe batiam? Será que o mata como matou aqueles que o matavam?

8Ele levou-a a julgamento, expulsando-a e mandando-a para longe; dispersou-a com o seu sopro forte como em dia de vento lesteb.

9Pois assim será expiada a culpa de Jacob e este é o resultado de ter afastado o seu pecado:

tratar todas as pedras de altar como se desfazem pedras de cal. E não erguerão mais estelas a Achera nem altares de incenso.

10Pois a cidade fortificada está só,

é mansão desabitada e abandonada como um deserto. Ali pastarão os bezerros e ali se deitarão

e serão consumidos os seus ramos.

11Quando se secam os seus ramos, eles partem-se; vêm as mulheres e queimam-nos.

De facto, é um povo sem entendimento.

Por isso, aquele que o criou não terá compaixão dele, o que o formou não o favorecerá.

a O sentido e a sequência destes versículos (6-11) levantam alguns problemas. Israel recebeu um castigo mas este castigo não é definitivo: foi perdoado, florescerá e produzirá. Achera (v.9) é uma divindade feminina dos fenícios e cananeus, cujo culto se difundiu também em Israel. No v.10 retoma-se o castigo da cidade anónima, um tema que preenche os cc. 24-27.

b Este julgamento e os castigos que se seguem dirigem-se a uma cidade que o texto não explicita e que poderia ser tanto a cidade dos opressores como a própria Jerusalém.

12Acontecerá naquele dia

que o SENHOR debulhará as espigasc

desde o Eufratesd até à torrente do Egito, e vós, filhos de Israel, sereis recolhidos um a um.

13Acontecerá naquele dia que será tocado o grande chofar

e voltarão os que andam perdidos na terra da Assíria e os desterrados na terra do Egito;

prostrar-se-ão diante do SENHOR

no monte santo em Jerusalém.

No documento LIVRO DE ISAÍAS AD EXPERIMENTUM (páginas 63-71)