3. O caráter dialético da liberdade
3.3. A história da liberdade “apesar” do Homem
O carácter violento e repressivo das políticas que querem evitar o futuro em ordem a preservar um mundo de senhores e escravos levou Alves uma conclusão óbvia, quanto contraditória e mesmo absurda: os escravos, os miseráveis da terra, os excluídos e os marginais, os que não estão sobre, mas sob, os bens privados (private forms of good) criados pela vontade de poder, são estes que têm a visão, a paixão e a capacidade de compreender a linguagem da esperança, da liberdade e da libertação. Porque sofre na própria carne a desfuturalização que as estruturas de dominação lhe impõe, o oprimido experimenta o desespero e a ausência do futuro (futurelessness) e é livre para se arriscar por um futuro que prometa a vida, urdindo do cativeiro a sua vontade de liberdade. É por meio do sofrimento e da impotência do escravo, cujo futuro é subtraído pelo senhor, que a negação do presente e a esperança no novo são gerados. O sofrimento é como que o ponto de partida para a dialética da libertação que nega o velho e se estende, como esperança,
rumo ao novo. Emerge, todavia, a questão: como se processa esta negação do negativo, este poder da liberdade contra a violência da preservação? O messianismo humanista, no que lhe concerne, confia que o escravo nunca será domesticado, porque a sua consciência “permanecerá negativa, protestando, enquanto presença contraditória e subversiva”77 contra a domesticação pela escravidão. Por seu turno, o humanismo messiânico recusa esboçar a sua esperança a partir do pressuposto que o protesto é intrínseco à sua condição de escravo. E fá-lo, segundo Alves, por três ordens de razões. Porque a sociedade tecnológica pode dissimular a condição do escravo, tornando-o agradecido pelos bens com que se permite usufruir no seu cativeiro: o negro é tolerado, por exemplo, ou as nações subjugadas condividem com as nações dominantes os bens gerados, abdicando da tarefa de construir o seu próprio futuro. Em segundo lugar, porque a experiência histórica de que é portador o humanismo messiânico comprova a possibilidade de, uma vez conseguida a liberdade por parte dos oprimidos, os mesmos virem a ser dominados pela preocupação de preservar o seu presente, tornando-se, justamente semelhantes àqueles contra os quais se rebelaram, isto é, infetados pelo evitamento do futuro. E por último, porque o humanismo messiânico não ignora o facto do escravo frequentemente encontrar felicidade no próprio cativeiro, desaprendendo a esperança e esquecendo o futuro, como se a sua vontade de ser livre se tornasse vontade de domesticação. Por conseguinte, argumenta Alves, a história da liberdade não basear-se no poder do Homem em si mesmo:
“Se há uma história de liberdade que nega o presente e cria a possibilidade de um novo amanhã, uma história dependente de um poder de liberdade que transcende a história e a determina, é porque este poder, Deus, não permite que o sofrimento da ausência do futuro (futurelessness) se dissolva no esquecimento da felicidade do sofrimento78.
77 “Humanistic messianism proceeds in the confidence that the consciousness that suffers will remain
negative, protesting, as the contradictory and subversive presence”, Human Hope p. 115
78
“If there is a history of freedom that negates the present and thereby creates the possibility of a new tomorrow, a history dependent on a power of freedom that transcends history and determines itself to be in and for history, it is because this power, God, does not allow the suffering of futurelessness to be dissolved in the oblivion of happiness in suffering”
Sucede aqui, na nossa perspetiva, a tentativa conseguida por Rubem Alves de harmonizar – por oposição radical – ambas as linguagens, segundo a ideia já expressa de que qualquer diálogo não deve prevenir um verdadeiro confronto nem prescindir de uma autocrítica radical. É o que o nosso autor faz, ao afirmar que Deus, como presença do futuro, é o Deus que sofre na história: o escravo pode esquecer-se do seu sofrimento, mas Deus não. Deus é o poder que permanentemente nega a justiça e o direito (justice and
right) do sofrimento na história, ao ser ele próprio o Deus que sofre. Só na medida em que
Deus participa na fraqueza e no sofrimento do escravo que se esquece da sua impotência e dor pelo poder hipnótico das políticas de preservação, é que pode haver esperança da sua libertação: “os sofrimentos de Deus são, por conseguinte, o fundamento da esperança (ground of hope) para os que não têm esperança”. Logo, os sofrimentos dos oprimidos não são meramente os sofrimentos dos homens mas os sofrimentos de Deus, que se volta a Si mesmo para a história e se elege a Si mesmo para participar nos sofrimentos do Homem, segundo a personificação do Servo Sofredor pelo Messias: a cruz, que seria fundamentalmente o símbolo da falta de esperança e de futuro (futurelessness) passou a ser o início de uma nova possibilidade para a história. Se Deus sofre com e pelo Homem, o Homem pode estar certo que a própria negação do negativo na história não é uma voz isolada: o próprio Deus o nega pelo próprio sofrimento. Mas se este humanismo esboça a sua esperança, para além e apesar do Homem que sofre, tal significa que o sofrimento de Deus encerra também um outro tipo de sofrimento: Ele sofre quando o escravo (oprimido) deveria sofrer e não sofre, como resultado da sua domesticação e des-historização. Incapaz para a esperança, impotente para pensar um futuro no qual se torne livre, fechado para o futuro, este Homem torna-se árido, infecundo e estéril. Deus fica só: o Homem não é mais o seu companheiro na política (politics) da libertação. Apesar de ter degustado as primícias da liberdade, o aperitivo do novo amanhã, o Homem desaprendeu a esperança, esqueceu o futuro e optou pela segurança do presente.79
No entanto, apesar do Homem se rebelar contra o futuro e preferir a segurança da ausência da liberdade, Deus permanece fiel. Isto é a graça: a persistência da presença do
79 Ambas as imagens do aperitivo e da fecundidade (bem como as suas antinomias) expressam bem o nexo
futuro, mesmo que o Homem se ache hipnotizado. O sofrimento de Deus é a negação do negativo, não lhe permitindo que pronuncie o veredito final sobre o futuro do Homem e da História. E se Deus, que é a presença do futuro, sofre com a história, ele declara, através do seu sofrimento, a inumanidade e falsidade dos poderes que dominam o presente. A cruz, não é, portanto, nem a absolutização ou justificação do sofrimento, nem o anúncio triunfante das ambiguidades na história, mas antes a negação concreta do ser assim: “A esperança encontra em Cristo não apenas a consolação do sofrimento”, enfatiza Alves ao citar Moltmann “mas igualmente o protesto da promessa divina contra o sofrimento”80
. Ao negar radicalmente o ser assim, e por causa do sofrimento que isso causa, a história é forçada a olhar para um novo amanhã.
Nesta perspetiva, defende Alves, é o sofrimento histórico que torna a esperança radicalmente histórica, enquanto superação de tudo o que torna o Homem não livre para o futuro e para a vida. O sofrimento é, portanto, a mãe da esperança; caso contrário, a esperança desvanecer-se-ia na indefinição de um futuro abstrato e seria incapaz de servir o Homem na tarefa de criar um novo amanhã.
Somos a crer que a negatividade radical de Alves aqui apontada, ao afirmar o sofrimento como motivação da História e a cruz como o seu facto brutal, segundo a imagem de que só pelas suas dores é que nasce o Homem novo, é ainda provisória, se atendermos ao modo como adiante virá a afirmar que, mesmo no sofrimento do cativeiro, é possível ao Homem permanecer humano e esperar contra toda a esperança, como “vivesse por amor do que nunca verá”.81