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Quando lemos um texto, não podemos nos basear apenas nas informações

que estão claramente afirmadas nele. Afinal, sempre há ideias implícitas,

essenciais para a compreensão dos enunciados. Mesmo as provas objetivas

de Língua Portuguesa dos concursos públicos cada vez mais se debruçam

sobre esse tópico, dada sua relevância para a capacidade interpretativa.

Como você não estará junto ao corretor na hora em que ele for ler

seu texto, é preciso estruturar de forma clara sua redação, para garantir

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que eventuais informações implícitas em seu texto sejam facilmente re­

cuperadas por ele. Caso contrário, o corretor pode julgar determinadas

passagens em sua redação como incoerentes, uma vez que não percebeu

a lógica implícita que as justifica.

A fim de que isso fique mais claro, optamos por explicar separada­

mente os dois principais recursos de que você pode dispor para veicular

ideias implícitas.

2.1. Pressuposição

O

pressuposto é uma ideia implícita que pode ser recuperada a partir

de elementos gramaticais do texto, em uma leitura mais atenta. Veja o

exemplo a seguir:

O mundo começa a mudar, ainda que muito discretamente. Após mais de seis anos de. negociações às vezes frustrantes, entra em vigor o Protocolo de Kyoto, único instrumento internacional já concebido para lidar com o maior desafio ambiental da história: o aquecimento global. O consenso entre pesquisadores, ambientalistas e diplomatas é que Kyoto representa mais um sucesso diplomático que ambiental. O acordo, que pretende cortar a emissão de gases causadores do efeito estufa, é um triunfo do multilateralismo representado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Mas deixa de fora o maior poluidor do planeta, os Estados Unidos da América (EUA).

(Folha de S.Paulo, 16.02.2005, p. Al 5, com adaptações.)

Nesse trecho, o autor, além de informar o leitor acerca do efeito es­

tufa, expressa sua opinião sobre o tema, por meio de diferentes estruturas

gramaticais que permitem entrever pressupostos.

Há um exemplo de pressuposto que pode ser identificado facilmente

logo no primeiro período, quando se apresentam as ideias da mudan­

ça do mundo e sua discrição, que não são teoricamente opostas, mas

complementares. Veja, a esse respeito, que o autor poderia ter dito com

neutralidade: “O mundo começa a mudar lentamente”. Porém, de acordo

com a argumentação sustentada na notícia, a mudança é bem mais discreta

do que se espera, quase inócua. Essa ideia pode ser entrevista no uso do

conectivo ainda que, que expressa uma concessão, isto é, uma oposição

entre a discrição e a mudança, como se esta pudesse ser prejudicada por

aquela. Embora o autor não tenha dito isso explicitamente em seu texto,

é fácil recuperar esse pressuposto a partir de uma marca lingüística. As­

sim, da neutralidade ao posicionamento direto acerca do tema, a locução

conjuntiva ainda que desempenhou papel fundamental, veiculando por

meio de um pressuposto a tese do autor.

168 TÉCNICAS DE REDAÇÃO PÁ R kC Ó N Q Ú R S O S .-lU liariF urtad q g.Viriiciys Carvalho Pereira.

Além disso, observe a seguinte estrutura: “o Protocolo de Kyoto, úni­

co instrumento internacional já concebido para lidar com o maior desafio

ambiental da história”. Nesse caso, o autor deixou pistas no seu texto para

que possamos perceber outra informação implícita: é necessário serem cria­

dos novos instrumentos internacionais para lidar com esse desafio. Mesmo

que isso não tenha sido dito abertamente na notícia, as palavras único e

já sugerem que outros instrumentos já deveriam ter sido criados, o que é

reforçado pela urgência denotada pela expressão o maior da história.

É importante perceber que um pressuposto é sempre indicado pelo

autor do texto, cabendo ao leitor apenas sua recuperação a partir de pistas

deixadas por quem escreveu. Assim, na hora de elaborar sua redação, é

preciso tomar cuidado: se você acionar, mesmo que acidentalmente, um

pressuposto, não poderá entrar com um recurso, caso o corretor julgue

essa informação implícita incoerente. Uma vez que a marca lingüística

foi você quem deixou no texto, indicando o pressuposto, não há como

questionar a pertinência dessa interpretação ou afirmar “mas não foi isso

o que eu quis dizer...”

2.2. Inferência

Uma inferência é recuperada não a partir de um dado lingüístico,

mas de uma informação contextual. Assim, nada no texto indica haver

uma ideia implícita, que só pode ser inferida se o leitor tiver determinado

conhecimento de mundo anterior à leitura. Para entender isso melhor, veja

o parágrafo a seguir:

Uma das causas da violência crescente no estado do Rio é a de­ sigualdade de acesso das pessoas à escola de qualidade. Enquanto os que têm dinheiro podem pagar a mensalidade de colégios trilíngues caríssimos na Zona Sul, os despossuídos precisam contentar-se com edifícios caindo aos pedaços, greves constantes e professores sem salário compatível cora uma formação e atualização contínuas. Se queremos menos presídios, o Rio de Janeiro precisa de mais investimentos em educação. E o govemo gastou milhões nas obras da Cidade da Música, onde lindos concertos podem ser apreciados diariamente, para fruição dos estudantes da rede pública de ensino.

{,Jornal A Língua, 20.04.2010.)

O

autor desse texto expõe claramente seu posicionamento a favor do

investimento em educação no estado do Rio de Janeiro, mas conclui com

uma afirmação aparentemente desconexa, acerca da Cidade da Música. Um

leitor talvez não possa recuperar a informação implícita sugerida na última

frase do texto, caso não tenha conhecimento prévio acerca da referida obra

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na Barra da Tijuca, objeto de constantes acusações de superfaturamento

e desvio de verba pública, que sequer havia sido terminado quando da

redação desse texto. No texto há uma ironia implícita, indicando que o

dinheiro destinado para a Cidade da Música não traz até hoje benefício

algum aos estudantes da rede pública, enquanto suas escolas estão em

situação precária.

Como, nesse caso, a ideia implícita não é veiculada por um elemento

lingüístico em si, como uma palavra, um sinal de pontuação ou uma ex­

pressão, dizemos tratar-se de uma inferência, cuja recuperação é de total

responsabilidade do leitor. Embora tal recurso textual permita ao autor

entrar com um recurso caso a banca discorde de seu posicionamento, já

que, em princípio, ele não é diretamente formulado pelo candidato, há

outro risco aqui presente: a banca pode simplesmente não entender a in­

ferência, caso não disponha do conhecimento prévio que sua interpretação

exigiria. Assim, se você acha que é possível o corretor não ter determinado

conhecimento essencial à identificação de uma informação implícita em

seu texto, é melhor apresentá-la de forma mais direta.