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6 A COMUNICAÇÃO NO DESFILE

6.2 A imagem em pixels (desfile primavera-verão 2011)

Quando em 1965 Yves Saint Laurent se inspirou no geometrismo e na composição de

cores do trabalho do artista plástico Piet Mondrian (1872-1944) em "Composição com

Vermelho, Amarelo e Azul" (1921), para a criação de um modelo de vestido isso representou

um marco na história da moda. Ali, o corpo tornou-se tela, transformou-se em arte. E o

costureiro, um artista moderno que ultrapassava as fronteiras da criação entre moda, arte,

arquitetura, decoração. Na mensagem capturada pelo costureiro, a modernidade já insinuava o

esmaecimento das fronteiras entre vida e arte.

O desfile de primavera - verão 2011 de Herchcovitch exibe uma moldura artística

para o exercício dos fundamentos da moda. Estabelecendo um paralelo com a proposta de

YSL, no desfile do verão 2011 Herchcovitch se coloca não como um costureiro-pintor, mas

como um contemporâneo criador de imagem. Tendo essa se confirmado – desde o vestido

Mondrian (1921) até hoje em vetor da comunicação, na forma, “o laço de reciprocidade que

se tece entre os indivíduos” (Maffesoli, 2010, p. 130). Paradoxalmente, (como convém à

época atual) a ideia da construção da imagem se revela a partir de uma metáfora de sua

desconstrução, em pequenos quadradinhos, pixel por pixel aplicada na superfície têxtil da

roupa e recoberta por símbolos.

O processo desta construção segue uma sequencia (anexo 2). Os primeiros looks são

vestidos curtos (00 min 27 s) em composição monocromática da cabeça (com as cores nos

coques baixos) até os pés, nos escarpins que desafiam o equilíbrio fazendo a modelo parecer

que está flutuando em cima de uma plataforma colorida. Os vestidos tem forma ampla,

cilíndrica, muito curta em cetim com muito brilho. Registrada a imagem na passarela, nos

looks seguintes começa a desconstrução, L 08 (02 min 32s) apresenta um vestido com pixels

(unidade mínima da imagem) nas cores dos vestidos que acabamos de ver. Em uma sucessão

de looks vemos os pixels crescerem em amplitude e se expandir nas peças.

O corpo torna-se uma tela não para tintas e pinceis, mas para uma arte digital. Em

seguida, as cores explodem em splashes (uma derivação da linguagem do grafite L 13 (03 min

54 min) na superfície brilhante dos vestidos para depois se mostrarem em dégradés sobre

vestidos e macacão L 25 (07 min 09s). São técnicas de expressão utilizadas pela arte não

figurativa, são abstratas no sentido de que conduzem nossa percepção a partir das cores nos

colocando em conexão com um imaginário de arte mais do que nos colocando à frente de uma

representação figurativa da realidade posição mais frequentemente atribuída à moda.

Cores e formas estão unidas nesta composição, mas no que diz respeito às formas a

inspiração vem do repertório da moda. O estilista faz um exercício de criação nas mangas que

remete ao estilista Cristóbal Balenciaga (1895-1972) que tinha nas modelagens inventivas das

mangas uma das principais referencias do preciosismo de seu trabalho. No desfile, em L

03(01min10 s) no look totalmente preto as mangas já começam a ser trabalhadas ganhando

volume em relação ao corpo. Em L 05 (01 min 30s) os ombros começam a ser puxados para

as costas levantando um pouco o vestido na frente. São os looks L 22 (06 min 20s) e (06 min

30 s) que mais revelam esta influência com a frente do vestido deslizando pelo ombro até se

acomodar em uma capa caída pelos ombros para trás. Há também a presença da influência da

estilista japonesa Rei Kawakubo quando as mangas se tornam o centro da composição do

corpo conferindo um aumento visual da caixa torácica e curiosamente oferecendo destaque à

cintura. L 15 (04 min; 30s).

Ao fazer uma analogia à construção da imagem, Herchcovitch fez uma representação

da desconstrução dos pixels colocando-os sobre um outro suporte técnico que é a superfície

têxtil. Seguindo o mesmo raciocínio propomos aqui uma desconstrução da imagem da moda

construída no desfile a fim de entender como ela dá a conhecer sua forma mítica

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a partir do

corpo da modelo na passarela.

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Aqui utilizamos como referência para esta construção apenas o corpo da modelo. A mística em torno do desfile envolve outros elementos como a comunicação com a mídia, , as celebridades, o posicionamento estratégico dos convidados na primeira fila e outros fatores analisados sob a perspectiva da semiótica em: SOUZA, Josenilde Silva. Desfile de moda nos espaços da cidade: uma abordagem semiótica dos regimes de visibilidade, de identificação e de sentido. Dissertação de Mestrado, curso de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica da. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, SP, 2011.

Nas ilustrações (Desfile verão 2011, p.99) em (a) a modelo ainda sem a maquiagem ou

as roupas do desfile se prepara para entrar na passarela. Nesse momento é possível fazer dela

uma leitura de pessoa comum (apesar do batom) que transmite suas próprias mensagens. Na

foto (b) já com a maquiagem, mas sem as roupas, o rosto da modelo já se aproxima de uma

imagem que aos poucos perde suas características de “naturalidade” expressa na

individualidade da modelo. Ele parece interagir com um suporte técnico que pode ser a

câmara fotográfica. O corpo despido contrasta com a imagem do rosto que parece pronto,

irretocável. Em (c) o look já está pronto mas ainda pode-se ler o gestual do indivíduo/

modelo como o sorriso, a forma do olhar, a, colocação dos braço. Aqui, já há a imagem de

um figurino, um conjunto de roupas com seus símbolos (inclusive a linguagem do corpo).

Quando em (d) este conjunto vai para a passarela, ele assume uma qualidade de

imagem mítica ao reunir em si não apenas as sensibilidades de um criador, mas as

sensibilidades de um corpo coletivo.

Ali se forma a imagem de passarela que por suas singularidades, sua gramática própria

alimenta a mística em torno da moda. Sua aderência, se dá por sua capacidade de comunicar e

de continuar a gerar novas imagens que de forma metafórica ofereçam as narrativas que a

sociedade utiliza para se expressar. Quanto mais próxima desse desejo coletivo a imagem se

apresenta, mais ela mobiliza adesões estabelecendo a comunicação consubstanciando uma

união através da estética (MAFFESOLI, 2003).

Figura 05: desfile verão 2011 - cabelo e maquiagem

(c) (d)

Fonte: www.ffw.com.br

Na cenografia, a passarela é tripla com duas filas paralelas de cadeira. Um cenário

minimalista, mas com uma informação mais orgânica pela proximidade do publico que fica

bem perto das modelos e pela boca de cena em madeira (ou imitação) clara. O caminhar das

modelos sobre a passarela é menos rígido do que o habitual nos desfile do estilista a marcação

de passada é mais suave. O rosto procura não comunicar com o olhar que é distante, duro.

Algumas modelos usam nas cores da composição do seu look, um óculos de armação redonda

grossa no estilo do usado pelo arquiteto francês Le Corbusier que se tornou ícone de uma

imagem de modernidade e hoje pode ser lido como retrô - aquilo que remete a uma

iconicidade de uma época passada. A maquiagem é forte componente na composição do look

por reforçar os aspectos cromáticos da proposta das roupas, mas também por adicionar

elementos à leitura artística do desfile com a pintura no cabelo (feita com pistola de ar) e a

pele das modelos preparada para expressar neutralidade tal como uma tela em branco sobre a

qual o pintor derrama suas cores.