1.9 Os Requisitos Formais Idealistas da Imparcialidade
1.9.2 A imparcialidade e a tese da “parte imparcial”
Outro pilar de sustentação da concepção clássica da interpretação da imparcialidade do juiz repousa na afirmação de que o magistrado não seria parte da relação jurídica processual penal, uma vez que a posição de parte é contraposta à característica da imparcialidade.
119 CARNELUTTI, Francesco. Crisi della giustizia penale. In Rivista di diritto procesuale. Padova, Cedam, 1958, I, p.334.
120 MORELLO, A., Loc. Cit.
121 Idem. Ibidem., p.270.
Por muito tempo imperou na doutrina a existência de contradição lógica e de uma impossibilidade prática entre a posição de parte numa dada relação jurídica processual e a exigência de imparcialidade como condição ou regra de conduta.
Para essa concepção, o simples fato de ser parte de uma relação jurídica processual já demonstrava a parcialidade do sujeito.
A parcialidade, por exemplo, da administração pública no processo administrativo, ou mesmo do Ministério Público na persecução penal, era apontada como característica distintiva da imparcialidade própria dos juízes e da função judicial. 1 2 2
Para Marcello Caetano, analisando o direito português, a imparcialidade é, desta maneira, característica exclusiva da função jurisdicional, pois somente os órgãos jurisdicionais não são parte interessada no conflito que visam resolver, colocando-se numa posição suprapartes. Na verdade, apenas os órgãos jurisdicionais têm o dever de ouvir todos os interessados antes de proferir sua decisão. Somente em relação a esses órgãos faria sentido impor garantias de imparcialidade, tais como os impedimentos e suspeição. 1 2 3
Contudo, Marcello Caetano não explica o porquê da exigência das garantias de imparcialidade dos juízes (art. 14, n. 1, do Código de Processo Civil português) também em relação ao Ministério Público, órgão encarregado de representar os interesses do Estado (na perspectiva do próprio Marcello Caetano) . 1 2 4
Muito cedo a doutrina, principalmente a partir de um estudo direcionado à administração pública, começou a pôr em questão a afirmação de que o simples fato de ser parte já configura sua parcialidade.
122 ALLEGRETTI, Umberto. L ’imparzialità amministrativa. Padova: CEDAM - Casa Editrice Dott.
Antonio Milani, 1965. p. 55.
123 Apud MELO RIBEIRO, M. T., Op. Cit., p. 113 e 114.
124 Idem. Ibidem., p. 114.
Percebeu-se que os interesses defendidos pela Administração Pública não são iguais aos interesses postulados pelos particulares, uma vez que os interesses da administração ou por ela perseguidos são interesses públicos e por natureza objetivos. Assim, não obstante possa a administração ter certa discricionariedade na perseguição de seus interesses, isso não lhe retira a prerrogativa constitucional de ser imparcial.
Atualmente, para a generalidade dos autores:
A Administração Pública, apesar de vinculada ao princípio da imparcialidade, ocupa uma posição jurídico-institucional especial, que resulta da natureza pública dos interesses que persegue e da obrigação de agir imparcialmente; em suma, do facto de figurar no procedimento, simultaneamente, como parte e juiz: parte porque ‘é um verdadeiro agente empenhado no exercício de um poder de iniciativa na efectiva realização de projectos e interesses próprios’;
juiz porque ‘ há-de designadamente ponderar o valor relativo dos interesses que a sua decisão vai sacrificar, por modo a não discriminar contra algum deles ou privilegiar algum por razões estranhas à lei que os tutela ou ao interesse público que visa satisfazer. 1 2 5
A doutrina, então, começou a formular a tese de existência de parte
“imparcial” , principalmente a partir do momento em que passou a sustentar a
“imparcialidade” diante da administração pública, com base, inclusive, no próprio texto Constitucional português. 1 2 6
Aliás, a referência a “parte imparcial” não é exclusiva da doutrina administrativista. Pelo que tudo indica, Francesco Carnelutti, em suas lições sobre o processo penal, foi o primeiro autor a utilizar a expressão “ parte imparcial” para mencionar a participação do Ministério Público na relação jurídica processual penal. 1 2 7
125 Idem. Ibidem., p. 115.
126 Idem. Ibidem., Loc. Cit.
127 “ (...)El problema de la acusación pública tiene así el aspecto de un juego de palabras, cuya fórmula paradójica es la de la parte imparc/al(...)” .(CARNELUTTI, Francesco. Lecciones sobre el proceso penal. Trad. Santiago Sentís Melendo. Buenos Aires: Bosch Y Cía Editores, 1950.
p.227.
Aliás, atualmente, segundo Afrânio Silva Jardim, a configuração do Ministério Público como “ parte imparcial” é fruto inclusive do próprio princípio do
“ Promotor Natural” , o qual impede que a acusação seja formulada por órgão estatal sem atribuição expressamente prevista em lei e desprovido, por isso mesmo, da necessária imparcialidade e independencia.
Em face dessa exigência de imparcialidade do Ministério Público para o exercício do “jus puniendi” , parte da doutrina (Alfredo Vélez Mariconde e Ernes Beling) já fez severas críticas ao instituto da acusação penal privada nos crimes de ação pública, uma vez que a parte privada não estaria revestida da indispensável imparcialidade. 1 2 9
Mas o que efetivamente interessa nesta análise pontual, é que não há qualquer contradição ou paradoxo na afirmação de existência de “parte imparcial” , principalmente porque, em última instância, o conceito de parte jurídica reclama, de certa forma, a noção de imparcialidade.
Na concepção de Umberto Allegretti, todas as partes da relação jurídica processual, em regra, são imparciais, pois não assumem uma posição de interesse que possa beneficiar eventualmente a outra parte que participa da relação jurídica. Para que alguém seja parcial numa determinada relação jurídica processual, essa parcialidade deve ter conotação com a outra parte da relação jurídica, o que não se configura legítimo no processo. Muito embora cada parte processual persiga um fim específico, tal fato, por si só, não lhe retira a característica de ser imparcial. Na verdade, o próprio magistrado também possui ou deveria possuir um fim ou um interesse a ser almejado no processo, no sentido de que sua decisão seja uma decisão justa e equânime. Assim:
Il concetto giuridico di parte manifesta un’intima tendenza all’imperativo di imparzialità. La parzialità, nel senso di partigianeria, qualunque siano le inclinazioni pratiche degli uomini ad un comportamento ingiusto, è bandita dal concetto giuridico di parte, perché essa si risolverebbe inquell’esclusivo rinchiudersi della parte nel perseguimento del próprio personale fine, che sarebbe contrario allá natura stessa della parte.
128 SILVA JARDIM, A., Op. Cit., p. 430.
129 Idem. Ibidem., p. 431.
E questa tendenza giuridica è d’ordine generale, riguarda sia la parte privata, che la processuale, e (comi si è visto) l’amministrativa. Perciò parte imparziale tende ad essere, nel maggior punto di evoluzione degli ordinamenti, ognuna di queste parti. E solo vero che il legame recíproco tra i fini dei vari soggetti, nelle diverse attività e rapporti, è esso stesso assai diverso. 1 3 0
Nessa concepção doutrinária defendida por Umberto Allegretti, não haveria qualquer impedimento de se inserir o juiz como parte da relação jurídica processual penal.
Na verdade, o que se observa é que não existe qualquer incongruência na aproximação da concepção de “ parte” ao imperativo de
“imparcialidade” , mesmo porque, atualmente, há uma exigência inexorável de ser o Ministério Público imparcial. Aliás, não se concebe a “ parcialidade negativa” de uma instituição, a quem a própria Constituição Federal conferiu a honrosa missão de defender o Estado Democrático de Direito.
A questão da exigência de imparcialidade do Ministério Público na persecução do “jus puniendi” é de tamanha importância, que a doutrina já pensou, inclusive, na existência de um processo penal sem partes.
Não foi outra a conclusão de Jorge de Figueiredo Dias: “Tudo quanto fica apontado servirá para convencer que a estrutura fundamental do processo penal português é, tipicamente e em princípio, a de um processo sem partes” . 1 3 1
Segundo o aludido autor português, O Ministério Público e o réu não têm disponibilidade sobre o objeto do processo, pois o primeiro está adstrito ao princípio da legalidade e o segundo não pode submeter-se indiscriminadamente à pretensão acusatória e, muito menos, evitá-la. Enfim, não obstante tenha o processo penal português uma estrutura acusatória, é um processo sem partes.
130 ALLEGRETTI, U. Op. Cit., p.61.
131 FIGUEIREDO DIAS, Jorge. Direito processual penal. Primeiro Volume. Coimbra: Coimbra Editora, Ltda., 1974. p. 254.
Na realidade, conforme já teve oportunidade de se manifestar Evaristo de Moraes, não há qualquer antagonismo fundamental entre as funções da defesa e do Ministério Público. Essas funções não são antagônicas, não obstante aparente colisão entre o direito individual e o interesse social. Na verdade, “ (...) são funções harmônicas, no sentido de colimarem o mesmo fim - a satisfação da Justiça ( )” 132
Aliás, com base nessa perspectiva de que o processo penal é um processo sem parte, já se sugeriu a criação do defensor público encarregado de desempenhar o papel de “ Ministério Público de defesa” , paralelo ao Ministério Público de acusação.133
Concluindo, pode-se com segurança afirmar que não mais procede a afirmação de que o juiz é um sujeito imparcial pelo simples fato de não ser parte da relação jurídica processual, pois, contemporaneamente, observa-se existência efetiva e concreta de “ parte imparcial” .
1.10 A Natureza Jurídica da Imparcialidade - Princípio, Regra ou Direito