4 OS CONDICIONANTES HISTÓRICO-ESTRUTURAIS DA RETOMADA DA
4.6 O DESENVOLVIMENTO NACIONAL DA PERSPECTIVA DO
4.6.1 A implantação do projeto do Estaleiro em Maragojipe
O empreendimento localiza-se no município de Maragojipe, situado a 130 km
de Salvador, capital da Bahia (Figura 10) e integra a região do Recôncavo baiano,
no entorno da Baía de Todos os Santos. À época dos estudos iniciais para a
implantação do empreendimento, o município possuía uma população de 42.815
habitantes (IBGE, 2011), e suas atividades econômicas, abarcando todos os bens e
serviços produzidos, somavam (em valores monetários) um Produto Interno Bruto
(PIB) de R$ 156.299,534 mil (IBGE, 2015) expresso num PIB per capita de R$ 3.
583,21. (IBGE, 2015).
Figura 10 - Localização do município de Maragojipe - Ba.
Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas - IBGE (2015).
Esse município constituiu-se desde o período do Brasil colonial, no ciclo da
cana-de-açúcar, a partir de uma tribo indígena que se estabeleceu às margens do
Rio Paraguaçu. Com a chegada dos primeiros portugueses, que acessaram a área
pelo rio, as lutas e resistência dos indígenas com os portugueses eram constantes
até que, em 1520 duas décadas depois do ―descobrimento do Brasil‖, surgiam as
primeiras civilizações e povoamentos, indígenas, que se fixaram nessa área. (SÁ,
1984), mas o município foi instalado, de fato, em 1939. Rico na sua biodiversidade,
beleza natural, com Mata Atlântica exuberante, e características marcantes às
margens da Baía do Iguape.
Historicamente, a produção de riquezas em Maragojipe, da ―descoberta‖ à
abolição, é resultante da agroindústria açucareira, o principal elemento produtivo
local e em torno da Baía de Todos os Santos. No período colonial, a cidade
tornou-se núcleo urbano estratégico para a região dada a importância de tornou-seu ancoradouro,
favorecendo as atividades comerciais. O crescimento de Maragojipe foi tão
vertiginoso que no final do século XVI esta já se constituía a principal localidade da
―Capitania do Paraguaçu‖. Seu processo de povoação se deu através da extração
madeireira, do cultivo de cana de açúcar e do plantio de mandioca, que
proporcionou a construção de engenhos e de casas de farinhas. (SÁ, 1984).
Na virada do século XX, a implantação das fabricas de charutos, de matrizes
alemãs – Dannemann e Suerdieck, contribuiu para a superação do declínio da
atividade fumageira, o que conduziu a economia local à um novo ciclo de
desenvolvimento no município, com forte conteúdo de urbanização.
Só depois de várias décadas, com o seu desenvolvimento industrial
consolidado, entre as décadas de 20 e 40 do século fluente, foi a cidade tomando
novo aspecto, bem melhor, lentamente embora, com seus habitantes, na maioria já
em condições econômicas de corrigirem ou melhorarem suas residências. Destarte,
a partir de 1940, quase desapareceram as casas de palha da cidade, até mesmo em
sua zona suburbana. Pode-se a partir daí considerar restabelecida dos golpes que
recebera com a extinção do braço escravo e com o insulamento em que
permanecera após terem sido inauguradas as ferrovias de Nazaré e de São Félix.
(SÁ, 1984, p. 24-25).
Em março de 2000, a última fábrica da cidade anunciou seu fechamento. O
fechamento da Suerdieck desestabilizou grande parte da população local, dando
largada a um novo momento de decadência econômica.
Com um desenvolvimento promissor ainda durante o império, o município
cresceu e se desenvolveu acolhendo a instalação de investimentos estrangeiros no
local, transformando-se num alicerce da economia do Recôncavo. Como
demonstrado, gradativamente, no entanto, essas atividades econômicas produtivas
tradicionais deixaram de se constituir num polo econômico.
As expectativas da implantação do Estaleiro Enseada Indústria Naval por
parte do governo visavam a transformação socioeconômica da cidade e da região,
pelo incremento de processos modernizadores em infraestrutura naval, no âmbito
local e da Bahia, incorporando-se nas oportunidades de incentivos e apoios
decorrentes da implantação do projeto prioritário de desenvolvimento nacional – o
Plano de Aceleração do Crescimento (PAC).
De fato, a expectativa da implantação do empreendimento era que ele
resultasse num robusto fortalecimento da atividade econômica em toda a região do
baixo curso do Rio Paraguaçu e Recôncavo Baiano, contribuindo com a renda,
―crescimento na arrecadação dos municípios com a geração de impostos, empregos
diretos e indiretos, além de representar uma oportunidade de dinamização da
capacitação profissional no nível regional‖. (EIA/RIMA, 2009, p. 10).
Do ponto de vista produtivo, o estaleiro Enseada Indústria Naval objetivou
inicialmente a construção de seis sondas de perfuração para a área do pré-sal, já
contratadas pelo governo brasileiro, via Petrobras
36. O projeto previa a construção e
a conversão de plataformas fixas e flutuantes, além da construção e integração de
seus módulos. Na fase de implantação do empreendimento, foram ―[...] previstos
cerca de 3.900 empregos diretos para a construção das instalações prediais e
industriais, além das áreas operacionais‖. (EIA/RIMA, 2009, p. 12).
Constavam como os principais projetos do empreendimento: a) a construção
de sondas de perfuração offshore, principalmente para exploração em águas
profundas, como a do petróleo na camada do pré-sal; b) a construção de navios
para apoio offshore, como PLSV
37, MPSV
38e c) Construction Support Vessels
39.
Figura 11 - Estaleiro Enseada Indústria Naval.
Fonte: Silva (2014).
36
O estaleiro entrou em operação em fevereiro de 2014, mas paralisou suas obras em janeiro de 2015, com cerca de 80% delas concluídas, embora sua conclusão, conforme o documento do EIA/RIMA (2009), estivesse prevista para março de 2015.
37
PLSV (Pipe Layng Support Vessel) significa navios de apoio. São embarcações que lançam e
recolhem linhas no mar, utilizadas para conectar as plataformas à sistemas de produção de petróleo.
38
MPSV (Multipurpose Supply Vessel) quer dizer Navio multitarefa, suprimento (cimento, tubos, lama, salmura, água doce, óleo e granés) e manuseio de âncoras.
39
O canteiro de obras de São Roque do Paraguaçu (COSRP), de propriedade
da Petrobras, foi em parte arrendado ao Estaleiro, à época denominado Enseada do
Paraguaçu (EEP). De acordo com a Figura 11 observa-se, no primeiro plano, e à
esquerda, o Povoado de Enseada do Paraguaçu. No segundo plano, na margem
oposta ao Rio Baetantã, foram erguidas as edificações do Estaleiro Enseada.
O empreendimento tem por objetivo construir embarcações de grande porte,
navios de produção de petróleo e gás natural e construir também barcos militares,
barcos especiais para apoio às atividades de perfuração e produção de petróleo,
além de equipamentos especiais para a indústria do petróleo e mineração.
(EIA/RIMA, 2009, p. 9).
Com essas características o Estaleiro Enseada constitui-se num
empreendimento que resulta de uma ação articulada entre as instâncias do governo
estadual e federal, com vistas a integrar o estado da Bahia na dinâmica e nas
diretrizes do novo desenvolvimento econômico nacional. Nesse sentido, o
desenvolvimento regional aparece como ações nacionais programadas pelo PAC,
visando a criação de infraestrutura necessária ao fomento da atividade produtiva
nacional, crescimento econômico e melhoria de competitividade da indústria
nacional no cenário da globalização. Nesse sentido o empreendimento resulta numa
complexa articulação de interesses em escalas nacional, estaduais e locais, entre
agentes públicos e corporações econômicas nacionais, reunidas no Consórcio, cujos
fluxos econômicos e políticos estão diretamente associados à dinâmica da
acumulação e interesse de agentes internacionais e globais.
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO
(páginas 103-107)