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A implantação do Reuni na UTFPR e os novos problemas

3 METODOLOGIA

4.3 A voz de atores que fizeram acontecer o Reuni na UTFPR

4.3.2 A implantação do Reuni na UTFPR e os novos problemas

Com a adesão ao Programa em 2007, pouco mais de 14 meses depois da transformação, a UTFPR teve a possibilidade de construir muito rapidamente a ideia de universidade em uma instituição na qual, apesar da reconhecida qualidade e de já ministrar algumas graduações, predominava os cursos superiores de tecnologia (E6; E7). O processo de amadurecimento tornou-se muito acelerado.

A instituição pós-Reuni tornou-se outra, muito diferente da existente em 2005. Muitos cérebros chegaram (E1). O impulso proporcionado pelo Reuni facultou uma dimensão que, até internamente, era inimaginável.

A UTFPR, aproximadamente uma década depois de ganhar a condição de universidade, transformou-se numa das dez maiores universidades federais do Brasil. Para o E1, trata-se de um processo permeado por sonhos, ocorrido em ciclos de aproximadamente duas décadas, e que intenta como objetivo final a obtenção da condição de uma universidade de classe mundial (Figura 3). O Reuni representou a consolidação de um ciclo.

Figura 3 – Ciclos da UTFPR

Fonte: Diapositivo elaborado pelo E1.

Nos ciclos, os primeiros anos são sempre mais conceituais (E1). O processo pode ser representado por uma curva sigmoide. Pouco tempo depois de findado o Reuni, por volta de 2018, a UTFPR conclui de forma exitosa um ciclo, o ciclo da consolidação em universidade tecnológica (E1). As condições para o próximo ciclo estavam dadas.

O solicitado no projeto de adesão, dentro dos limites previstos pelo Edital, ao final da implantação, acabou superando o inicialmente previsto. As expansões, sendo de longe o Reuni a mais importante, representaram a contratação de aproximadamente 1800 docentes e 1000 técnicos administrativos (Gráfico 2).

Na implantação do Programa, a UTFPR foi citada pelo MEC em vários momentos como um case de sucesso (E5; E7). Chegou-se muito próximo dos 100%

do que foi pactuado e aditivado. Trata-se de algo que está muito longe de ser simples em um projeto das proporções do executado, e sem correspondente na maioria das universidades que aderiram ao Programa (E5). O início dos novos cursos ocorreu em 2009 (E2).

Gráfico 2 – Aumento do número de servidores – ETFPR, CEFET-PR e UTFPR – 1978 a 2016

Nota: Aproximadamente 1.800 docentes e 1.000 TAs foram admitidos na UTFPR (depois de 2005).

Fonte: Diapositivo elaborado pelo Entrevistado 1.

Outro aspecto altamente positivo da implantação foi que, apesar do volume altamente expressivo de vagas de concurso para docentes disponibilizadas em todo o Brasil, a UTFPR conseguiu contratar um número bastante expressivo de docentes com a titulação de doutor. O IQCD cresceu exponencialmente (E2; E6; E7).

O mesmo aconteceu com a estrutura física em todos os campi. O Campus Medianeira, local examinado no presente estudo, duplicou sua área construída, passando de aproximadamente 20 mil m2 para 40 mil m2. “A parte principal desta expansão ocorreu com o Reuni” (E7). Em suma, a instituição “cresceu muito, não só em número de cursos, como também em qualidade. Porque os níveis de ensino e de pesquisa aumentaram violentamente. O Reuni fez esse trabalho para a sociedade brasileira”(E1).

Não obstante, a expansão trouxe efeitos colaterais. Os efeitos foram produzidos internamente, com desvios importantes da proposta inicial e o foco quantitativo dado na proposta da UTFPR, e, também, advieram de distorções produzidas pelo Edital do Reuni.

Entre os problemas produzidos internamente, a expansão intencional além do pactuado foi, talvez, o principal (E6). Foram fechados cursos técnicos e de tecnologia, principalmente, e criados cursos de engenharias para além do pactuado no Reuni. O crescimento não foi e, até hoje, não é sustentável. A preocupação dos diretores gerais era crescer. Segundo o E6, muitos diretores gerais pensavam: “vou criar o curso, se faltarem professores, técnicos administrativos, laboratórios, bato na porta da Reitoria, o problema também é deles”. O pensamento advém da lógica que, mesmo sendo inevitável a existência de problemas futuros, uma condição prévia perfeita para implantar um curso é impensável (E6). Trata-se de uma lógica complicada, mas com a qual, historicamente, a solução, mesmo que parcial, sempre acaba acontecendo (E6).

Outro problema interno foram os termos da proposta de adesão da UTFPR.

Apesar de correta a decisão de crescer (E1; E6), principalmente considerando a dificuldade histórica de novas vagas para concurso, a opção determinou que uma parcela importante do valor do Reuni tivesse a forma de vagas docentes.

Decorrente, os valores financeiros e de técnicos administrativos, como técnicos de laboratórios, foi reduzido.

Entre as distorções produzidas indiretamente pelo Edital do Reuni, quase todas previsíveis, o enxoval insuficiente para a abertura dos novos cursos, a criação posterior de cursos de pós-graduação, recursos financeiros insuficientes e a falta de continuidade do Programa.

A estruturação dos novos cursos não ocorreu, em muitos casos, num patamar minimamente desejável (E5). O quantitativo de vagas de docentes e técnicos administrativos disponibilizados para os cursos abertos ou que expandiram o número de vagas mostrou-se insuficiente, gerando problemas graves (E2). O problema foi amplificado na UTFPR com o foco da expansão, cursos na área das engenharias. Tratam-se de cursos pesados, com pelo menos 5 anos de duração e que apresentam altos índices de reprovação nas disciplinas.

O número insuficiente de vagas para a abertura de novos cursos ganhou escala com novos programas de pós-graduação que não estavam no escopo do Reuni (E2).

A verticalização, natural, com a existência de um quadro docente crescentemente qualificado não foi considerada (E7). Até havia a expectativa que, com a adesão ao Reuni, de forma indireta, se passaria dos cinco cursos existentes para aproximadamente 12 (E3). Chegou-se em 40 cursos e, ainda fruto da expansão, já se passou de 50, mesmo com as contratações de docentes não tendo sido alinhadas com uma política de expansão da pós-graduação (E3).

A falta de programas, em medida importante, foi responsável pela evasão de um número muito significativo de docentes concursados em tempos de concursos abundantes. Os novos cursos de pós-graduação contribuíram sobremaneira na fixação dos docentes concursados, principalmente no interior (E3). Assim, a expansão produziu problemas e soluções.

Em muitos casos, a readequação dos espaços considerou locais para a permanência de alunos, pensando na ampliação da pós-graduação. Alguns laboratórios de pesquisa foram construídos (E3). Houve também a necessidade de serem adquiridos equipamentos, mas como os equipamentos da pós-graduação não são os mesmos da graduação, a solução foi adequar as aquisições com a compra de equipamentos mais robustos que os demandados pela graduação (E3).

O Reuni, mesmo sendo destinado para a graduação, trouxe também 50 bolsas para a pós-graduação (E3). Os desvios, possivelmente, afetaram a graduação, na medida em que os recursos financeiros não eram suficientes. Ainda durante a implantação do programa, foi aventado pelo MEC um Reuni para a pós-graduação, mas a ideia não foi colocada em prática (E3).

Os recursos financeiros disponibilizados também se mostraram insuficientes para atender as demandas da expansão (E2). Para o E2, é evidente que houve uma série de problemas, e obviamente aconteceram uma série de críticas. Mas não havia alternativas. Além dos cursos, foi necessária a estruturação e a ampliação das bibliotecas, da assistência estudantil, a construção de restaurantes universitários, além de uma série de outros setores que inexistiam ou não apresentavam condições de atender a nova realidade.

Para o E5, tudo que foi pactuado em termos de investimentos foi cumprido.

O mesmo não aconteceu com a expansão paralela, uma espécie de Reuni 2, que aconteceu ainda dentro do mesmo governo, da qual até hoje se têm pendências de professores e de técnicos administrativos pactuados, apesar dos contratos assinados junto ao MEC.

A grande falha do Reuni foi não existir a mesma regra do investimento para o custeio, argumenta o E5. Na época, a unidade básica de custeio (UBC) da matriz orçamentária valia pouco mais de R$ 800,00 por aluno/ano. O valor era insuficiente para a manutenção do aluno. Fez-se necessário o deslocamento de valores do orçamento da instituição para complementar o custeio deste novo aluno que não entrou na matriz da instituição até 2021 (E5). Sem esquecer que “na área tecnológica tudo é caro e, ultimamente, o investimento do governo em equipamentos e melhoria de instalações é praticamente zero” (E5).

Em termos práticos, o orçamento dos últimos anos, em vez de crescer ou de pelo menos se manter estável, diminuiu. A matriz orçamentária desde 2018 não é aplicada, mesmo havendo uma regra que nenhuma instituição pode receber menos do que no ano anterior mais o percentual da inflação (E5). Houve ano, inclusive, em que foi estabelecida a exigência de se aplicar um índice de redução linear a todas as instituições, fato que não cobriu nem os gastos do ano anterior e muito menos a inflação sofrida durante o ano (E5).

O Reuni foi indiscutivelmente um grande programa, um programa que mudou as universidades brasileiras, mas sem continuidade (E1; E2; E6; E7). Depois do Reuni, as universidades ficaram na berlinda em termos de investimentos (E5;

E7). Está se falando de mais de uma década. Em termos práticos, o Reuni trouxe novos problemas e muitas soluções, mesmo sendo uma política pouco sustentável e que não transcendeu as balizas do governo que a propôs (E4). O E6 lembra que

“nos tornamos uma universidade muito grande, o que implica em ter problemas grandes. A evasão é certamente um deles”

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