MUDANÇAS ESTRUTURAIS, REFORMA DO ESTADO E A INSTITUIÇÃO DAS PARCERIAS PÚBLICO-PRIVADAS (PPS)
3.2 A importância da interatividade no processo educativo via EaD
A abordagem sobre interatividade aqui nesta pesquisa se torna necessária por várias razões. A primeira delas é que o grau de interatividade tem relação direta com o cumprimento dos critérios de qualidade estabelecidos pelos Referencias de Qualidade para a Educação Superior a Distância (BRASIL, 2007a). De fato, as várias mudanças no conceito de EaD e no processo regulatório se devem, inclusive, às constantes evoluções tecnológicas da informação e comunicação.
Mas é preciso reconhecer que existe uma variação semântica no que diz respeito à utilização do termo interatividade, o qual muitas vezes é usado com fins mercadológicos, mas destituído do real conteúdo que o termo carrega consigo. A abrangência semântica permite que o mesmo seja utilizado indiscriminadamente para fazer referência a praticamente tudo que circula na internet ou em outros canais comunicativos. Desta forma, o termo “interatividade” é campo de disputa de diversos interesses, que podem ir do interesse político ao comercial, estando presente em muitos discursos.
Ao fazer referência sobre interatividade nesta pesquisa, tem-se o entendimento de que a mesma é um fenômeno que está ligado à comunicação/linguagem e determinam amplamente o processo de ensino e aprendizagem, sendo usado muitas vezes em lugar do termo interação, mas cuja característica mais acentuada é a possibilidade de comunicação com outro(s) ser(es) humano(s) ou com um dispositivo digital pela mediação de um computador conectado à internet.
Para chegar-se ao termo interatividade, convém que se comece analisando o termo interação, o qual está intimamente ligado à linguagem e ao processo comunicativo relacionado ao conhecimento. Sobre isso, Vygotsky, Luria e Leontiev (2006, p. 26) afirmam que “A linguagem carrega consigo os conceitos generalizados, que são a fonte do conhecimento.” Neste sentido, quanto maior a possibilidade de interação social, com os outros e com sua cultura, maiores as possibilidades de aprendizagem.
Desta forma, ao falar sobre a externalidade da função psicológica superior72, Vygotsky (2000, p. 24-25) afirma que “[...] antes de se tornar função, ela foi uma relação social entre duas pessoas. Meios de influência sobre si – inicialmente meio de influência sobre os outros e dos outros sobre a personalidade.” Com isto, Vygotsky, criador da corrente sócio-interacionista, considera que as funções mentais superiores são responsáveis pelo aprendizado, efetivando-se no plano intersubjetivo através das interações sociais, das trocas ocorridas entre as pessoas, principalmente pela linguagem, sendo que os conteúdos transmitidos pela linguagem ocorrem em um contexto social historicamente determinado.
Nesta perspetiva, as aprendizagens são definidas como uma reelaboração interna de uma operação externa fundamentada na linguagem, a qual tem função comunicativa. Isto evidencia a importância dos processos interativos para a construção das internalizações/aprendizagens. Isso reafirma a necessidade da existência do outro, da relação, da interação como elemento catalisador das aprendizagens, as quais existiam mesmo antes das tecnologias da informação e comunicação.
Segundo Silva (2004), o conceito de interação é mais antigo, teve amplo uso na física, mas foi incorporado pela sociologia e pela psicologia. O termo interatividade surge na informática como derivação de interação. Este fato ocorre nas décadas de 1970 a 1980, apesar de que hoje existe uma banalização deste termo.
A respeito destas questões, Belloni (1999) chama a atenção para a necessidade de definir bem a diferença entre os conceitos de interação e interatividade. Neste sentido, afirma Belloni (1999) que o termo interatividade vem ganhando espaço cada vez maior, principalmente quando se trata das NTICs. O termo se deriva da mesma raiz do verbo interagir, mas vai assumindo algumas peculiaridades no decorrer do tempo, apesar de que são usados muitas vezes como sinônimos.
Umas das referências principais relacionadas com a utilização do termo interatividade é Lévy (1999), segundo o qual a utilização tem correspondência com o progresso das novas tecnologias, as quais possibilitaram a comunicação simultânea
72 Vygotsky (2006) descreveu como processos psicológicos superiores as ações conscientemente
ou em tempo real na condição de receptor e emissor. Neste sentido, afirma-se que não bastaria dizer que a utilização do termo interação faz referência à relação entre seres humanos e a utilização do termo interatividade faz referência à relação entre homem e máquina porque nem todas as máquinas oferecem a possibilidade de comunicação simultânea, em tempo real.
A respeito da comunicação simultânea, interativa, Silva (2004, p.4) afirma que a bidirecionalidade privilegia os
[...] dois pólos da comunicação que são o emissor e o receptor. Ou seja, o funcionamento do meio de comunicação deve ser concebido a partir do princípio que diz: só existe comunicação a partir do momento em que não há mais nem emissor nem receptor e a partir do momento que todo emissor é potencialmente um receptor e todo receptor é potencialmente um emissor. [...] comunicação é troca entre codificador e decodificador, sendo que cada um codifica e decodifica ao mesmo tempo.
Neste sentido, entende-se que é correto afirmar que as aprendizagens podem ser altamente potencializadas pelos recursos tecnológicos em proporção direta a sua capacidade comunicacional e inter-relacional, sendo que os sujeitos, mesmo nos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), estão acompanhados de seu contexto histórico, suas experiências e também podem estabelecer trocas simultâneas no ciberespaço. Isto significa que atualmente as tecnologias se abrem em leques de interfaces como vídeo, computador, chat ou outras alternativas capazes de produzir trocas. Por sua vez, estes atos comunicacionais têm uma enorme capacidade de envolver quem as utiliza de tal forma que a interatividade ou interface com as novas tecnologias vão possibilitando uma verdadeira simbiose a qual ultrapassa em muito o ato da passividade ou o ato de ser mero expectador diante das alternativas de envolvimento holístico em simultâneas trocas, as quais não fazem mais distinção entre ser humano e máquina, mas possibilitam que ambos sejam extensão um do outro.
Silva (2010, p. 43) fala sobre os fundamentos da interatividade, os quais são encontráveis
[...] em sua complexidade nas disposições da mídia online. São três e se manifestam imbricados: a) participação- intervenção: participar não é apenas responder “sim” ou “não” ou escolher uma opção dada, significa modificar a mensagem; b) bidirecionalidade-hibridação: a comunicação é produção conjunta da emissão e da recepção, é cocriação, os dois polos codificam e decodificam; c) permutabilidade-potencialidade: a comunicação supõe múltiplas redes articulatórias de conexões e liberdade de trocas, associações e significações (SILVA, 2006). (Figura 4).
Para exemplificar o processo de interatividade presente nas interfaces mais atualizadas, Silva (2010, p. 44) utiliza a seguinte figura:
Figura 1 – Fundamentos da Interatividade Imbricados
Fonte: Silva (2010, p. 44)
Constata-se com isto que a distância física própria da modalidade EaD não deve se caracterizar como distância real entre os agentes do processo de ensino e aprendizagem, precisando, portanto, ser superada através de procedimentos, técnicas, equipamentos e/ou estruturas que vençam a distância física, privilegiando a interação/interatividade entre os sujeitos.
Entende-se que tanto a interação quanto a interatividade têm convergência comum na medida em que se efetivam nas trocas comunicativas simultâneas, superando assim a clássica distinção entre transmissor/receptor, posto que os processos de codificação/decodificação estarão envoltos em simultaneidade. A compreensão de que a ocorrência inicial dos estudos sobre a importância da interação ou sócio-interação nos processos de ensino e aprendizagem foram feitos por Vygotsky conduz ao entendimento de que a mesma é
mais ampla do que a interatividade, mesmo que a interatividade esteja relacionada ao mesmo propósito da interação pela utilização de tecnologias comunicativas.
Nesta perspetiva, defende-se que a existência de interação/interatividade é condição sine qua non para qualquer processo de ensino e aprendizagem, seja ela presencial ou a distância, seja pela mediação das tecnologias da informação e comunicação, seja através das relações pessoais. Assim, entende-se que o grau de aprendizagem mantém uma relação diretamente proporcional com o grau de interatividade/interação. Essa premissa nos conduz à crença de que, em EaD, quanto melhores forem os meios ou as tecnologias da comunicação e informação, melhores serão as condições de aprendizagem.
Destaca-se aqui a profunda relação existente entre as gerações de EaD e seu entrelaçamento com o grau de interatividade. Neste sentido, o entendimento sobre as características de cada geração de EaD serve de fundamento para a compreensão da importância da interatividade nos processos educativos pela modalidade EaD. Assim, existe um entrecruzamento entre as temáticas relacionadas às gerações de EaD e sua potencialidade interativa.
Outro fato que merece destaque é a mesclagem no e-learning entre as várias interfaces possíveis, a depender do grau de potencialização que se obtenha entre o ensinar e o aprender. Este processo é denominado também de blended learning e se caracteriza pelo hibridismo ou mistura dos vários formatos ou interfaces (TORI, 2008). Essa alternativa híbrida deve estar relacionada à multiplicidade de escolhas e não à inexistência ou limitação de interfaces.
Esta análise ajuda no entendimento de que as muitas alternativas pedagógicas oferecidas pela EaD ao longo do tempo reafirmam vantagens e desvantagens nos vários formatos ofertados. Mas ao afirmar isso, não se desconhece que as alternativas mais arcaicas apresentam desvantagens em relação às alternativas atuais, principalmente no que diz respeito à interatividade, ao poder comunicativo em tempo real, e, consequentemente à possibilidade da melhoria do processo de ensino e aprendizagem.
Dito isto, retomam-se as análises anteriores e reafirma-se que nas duas primeiras gerações de EaD ficou constatado que uma característica predominante das mesmas é a interatividade baixa entre o aluno e o professor em razão de que as
mídias ou a interface utilizada não tinham suporte ou recurso para possibilitar comunicação em tempo real, mesmo que em espaço geográfico diferente.
Ainda sobre uma análise comparativa entre a lógica arborescente (própria da primeira e da segunda gerações de EaD) e a lógica do hipertexto (própria da terceira geração de EaD), Silva (2010) apresenta duas figuras, as quais ilustram bem essa realidade.
Figura 2 – Metáforas da Árvore e do Hipertexto
Fonte: Silva (2010, p. 40-41)
Em acordo com Silva (2010, p. 40-41), a primeira figura apresenta a metáfora da árvore ou sistema arborescente, a qual caracteriza a hierarquia e o preestabelecimento das ligações que partem de um tronco comum e se ramificam em relações de dependência unidirecional ou de transmissão de massa, e o controle do conteúdo, no qual emissor e receptor são distintos e separados.
A segunda figura representa a metáfora do hipertexto caracterizado pela existência de vários centros e interligações nas quais o processo de emissão e recepção ocorre simultaneamente.
Pela análise da documentação regulatória do MEC, fica evidenciada a opção pela utilização de interfaces mais atualizadas, o que se coaduna com o pensamento dos estudiosos da área. Assim, de acordo com MEC (2002, p. 18), a
interação se “[...] constitui componente fundamental no processo de construção do conhecimento.” Nesse sentido, o grau de interação entre alunos e professores é de extrema importância, pois “[...] a interação professor-aluno deve ser privilegiada e garantida, a relação entre colegas de cursos, principalmente em um curso a distância, é uma prática muito valiosa.” (MEC, 2002, p. 18)
Observa-se que as alternativas midiáticas de terceira geração caracterizam-se pelo uso de avançados recursos tecnológicos digitais para a transmissão de textos interativos e aulas expositivas com animação, como a Educação a Distância Mediada por Computador (EDMC). Mais recentemente, alguns autores denominam essa última geração de EaD de educação on-line, a qual surge dando sequência à evolução genealógica da EaD. Segundo Silva (2006), a educação on-line é cada vez mais frequente com a popularização da internet, apesar de que, infelizmente, ainda haja atualmente uma predominância na EaD dos suportes tradicionais de gerações anteriores. O diferencial passa a ser a internet e uma conexão em tempo real entre estudante e professor.
Segundo De Luca (2006, p. 477), “[...] os cursos por correspondência do Instituto Universal Brasileiro e o Telecurso 1º e 2º Graus da Fundação Roberto Marinho foram sinônimos de educação a distância no Brasil”, hoje considerados modelos retrógrados de EaD, concordando ainda o autor com a afirmativa de que com aquelas características a EaD poderia ser inserida na condição de ensino de segunda categoria direcionada a estudantes não exigentes.
Em acordo com a UNESCO (1998, p. 56-57), ao falar sobre o Programa de gestão acadêmica das novas tecnologias da informação e comunicação,
De ahí que sea imprescindible lograr uma comprensión cabal de como puedelaregión utilizar, generar y adaptar lãs nuevas tecnologías para mejorar la calidad, la pertinência y el acceso a la educación superior y no correr el riesgo de um desfase mayor entre sectores sociales y entre países, en función de la capacidade de manejo de este nuevo instrumental.
Objetivos generales
1.1 Producir políticas y estratégias pertinentes para fundamentar el desarrollo de los países sobre la base, entre otros factores, del conocimiento y del uso de las nuevas tecnologias de la información y lãs comunicaciones (NTIC).
1.2 Lograr que los países de la región realicen las inversiones necesarias para sostener uma adecuada infraestructura de telecomunicaciones y teleinformática que permita conexiones ágiles y de bajo costo a las redes
globales para IES, favorecendo el acceso a INTERNET y el fomento de INTRANETS .73
Destaca-se no entendimento do documento da UNESCO a recomendação para que a educação superior usasse internet e intranet como recursos na medida em que os mesmos possibilitariam maior interação em qualquer processo relacionado às atividades das IES.
Sobre a utilização de interfaces digitais com conexão à rede, Silva (2006, p.12-13) afirma que o modelo “um-todos”, aquele unidirecional com baixa interatividade e próprio da primeira e segunda gerações de EaD, apresenta algumas características possíveis de serem identificadas e relacionadas com um modelo já ultrapassado. Dentre as características, pode-se citar a monopolização da fala do professor, porque a baixa ou inexistente interatividade coloca a turma como telespectadora das aulas e literalmente os alunos assistem às aulas no sentido mais negativo da palavra, em razão de a mídia utilizada não possibilitar interação e diálogo.
Neste sentido, expectador e expectativa, mesmo que sejam palavras com a mesma raiz, assumem sentidos diferentes na modalidade EaD, posto que a expectativa de uma boa formação pode ser frustrada quando o estudante vira expectador. Assim, quando o aluno vira expectador, a aula caracterizadamente é remetida para o tradicionalismo pedagógico, o que está na contradição do pensamento de Freire (1980), ao defender uma concepção dialógica de educação, tendo como centro deste processo o diálogo, o qual faz a mediação para libertação crítica e a conscientização.
Já o modelo “todos-todos” propicia a determinado grupo uma interatividade simultânea, na qual todos os alunos podem interagir concomitantemente. Assim, a utilização do modelo “todos-todos” – que é
73“É essencial que haja uma compreensão plena de como a região pode utilizar, gerar e adaptar as
novas tecnologias para melhorar a qualidade, a relevância e o acesso à educação superior e não correr o risco de uma defasagem maior entre setores sociais e entre países em função da capacidade de utilização deste instrumental novo.
Objetivos gerais.
1.1 Produzir políticas e estratégias pertinentes para fundamentar o desenvolvimento dos países fundamentados, dentre outros fatores, do conhecimento e do uso das novas tecnologias de informação e comunicação (NTIC).
1.2 Garantir que os países da região façam os investimentos necessários para sustentar uma infraestrutura adequada de telecomunicações e teleinformática que permita conexões ágeis e de baixo custo às redes globais para as IES, favorecendo o acesso à internet e promovam a intranet.” (Tradução livre).
basicamente uma característica da educação on-line, implica ganho de “Presença de efetivo diálogo entre todos que propicia a troca de informações e de opiniões, participação, autoria criativa e colaborativa, bem como [...] flexibilidade espaço- temporal e de interatividade” (SILVA, 2006, p. 12-13).
Segundo Silva (2006, p. 12), atualmente, um dos principais critérios que indica qualidade é interatividade proporcionada pela conexão do computador à rede, a qual permita múltiplas ocorrências no modelo “todos-todos” e não no modelo “um- todos”, com o uso de diversas interfaces que compõem juntamente o ambiente virtual de aprendizagem. Nesse ambiente, ocorrerão interatividade e aprendizagem nas interfaces caracterizadas por videoconferências, fóruns, chats, textos coletivos, blogs, portfólios e midiatecas.
Constata-se que um dos melhores fundamentos de uma aula é o poder de troca entre aluno e professor e alunos e alunos. Da mesma forma e em raciocínio invertido, o pior fundamento na relação pedagógica é o cerceamento das potencialidades comunicativas entre os envolvidos neste processo. Este cerceamento transforma protagonistas e agentes em atores ou reprodutores de falas, raciocínios alheios.
A tabela elaborada por Araújo (2008, p. 113) analisa os elementos que podem interferir na qualidade da EaD.
Tabela 4 – Características que interferem na qualidade da EaD. Características mais desejáveis Características menos desejáveis
Tempos flexíveis Tempos homogêneos
Comunicação em tempo real (on-line- on-line)
Comunicação em tempo diferente (off- line)
Avaliações presenciais Avaliações a distância e de múltipla escolha
Curso para poucos alunos Curso para muitos alunos
Muita interação Pouca interação
Centrado no aluno (aprendizagem) Centrado no professor (ensino) Cursos com múltiplas tecnologias Cursos unitecnológicos
Uso de videoconferência74 Uso de teleconferência75
74 “A videoconferência tem mais de um centro produtor. Podem ser vistos os alunos de uma ou várias
salas. A videoconferência entre duas salas chama-se ponto a ponto. A videoconferência com várias salas se denomina multiponto” (MORAN, 2006, p. 42).
Fonte: Araújo (2008, p. 113)
Na Tabela 4 observa-se que de um lado estão as características desejáveis, as quais representam o que de mais atualizado existe hoje em matéria de mídia para a EaD, que imprimem uma qualidade significativa no processo de ensino e aprendizagem em razão do alto grau de interatividade entre os agentes do processo de ensino e aprendizagem. De outro lado estão as características menos desejáveis, as quais representam mídias mais retrógradas na EaD e que, consequentemente, devem interferir negativamente no processo de ensino e aprendizagem em razão da baixa ou inexistente interatividade.
3.3 A evolução da EaD e sua utilização como estratégia de expansão do ensino