CAPÍTULO 4 – Apresentação, análise e discussão dos resultados
1. A importância do Projecto Educativo Local
No primeiro capítulo deste projecto de investigação, aquando do seu suporte teórico, tentámos definir o conceito de PEL, as suas características, os seus objectivos, as suas ambições, digamos, o seu papel. No terceiro capítulo, ao caracterizar o nosso objecto de estudo, o Projecto Educativo Local do “Município XXI”, descrevemos também o seu percurso, o porquê da sua elaboração, os seus objectivos e ambições. Durante as descrições, foi alvitrada a importância do projecto educativo local. Com as entrevistas realizadas e as inferências que resultaram das mesmas, vamos tentar interpretar e saber efectivamente se os entrevistados fazem ideia do que é um PEL e qual a sua importância ao serviço de um concelho que pertence à rede das Cidades Educadoras, e que se pretende reconhecer como “município educador”.
Para isso, vamos interpretar as inferências e tratar os dados dos cinco recortes recolhidos na sub-categoria - “J.1 Importância”, da categoria - “J- O Projecto Educativo Local”, e dos oito conseguidos na categoria - “M - Representação da noção de PEL” (vd. Anexo 4).
Antes disso, gostaríamos de relembrar Coll (1998: 71), que seguindo a definição do ayuntamiento de Barcelona, define o projecto educativo local como um conjunto de opções básicas, de princípios orientadores, de objectivos e linhas prioritárias de actuação que devem presidir e guiar a definição e a colocação em prática de políticas educativas no âmbito da cidade.
Podemos verificar, na análise das expressões recortadas, que apenas quatro dos oito entrevistados fundamentaram a importância do PEL. Dos quatro, três, a Vereadora, O Director do Departamento de Cultura, Educação, Bibliotecas e Museus, e o membro do CME, parecem estar familiarizados com a questão e perto da perspectiva de Coll. Pode mesmo constatar-se uma proximidade nas suas afirmações. O PEL é para eles importante para a orientação, congregação e concertação das actividades, das acções e ou das intervenções em prol dos objectivos definidos, de uma educação/formação ao longo da vida, de modo a consubstanciar uma “cidade educadora”. Observemos:
“Tem especialmente, dá-nos muito! O, como vamos planificar as actividades, dá-nos um […] é uma bússola! […] é realmente encaminhar as nossas acções para os objectivos que foram definidos para o projecto educativo local, municipal, e é com isso que nós temos estado a fazer, a desenvolver as actividades […]” (Recorte E1R26 da subcategoria J.1 – Anexo 4 – Vereadora)
“ […] Sabes que também é importante, porque a base conceptual deste projecto educativo, se for a ver o preâmbulo ou a justificação que lá está, é a cidade educadora. A cidade educadora é o motivo, foi o motivo para alem da questão de [...], não é o motivo, o motivo de facto é aquela questão de congregar as intervenções, mas o substrato da ideia vai ao princípio da carta das cidades educadoras. O projecto está construído para ir ao encontro dos princípios que lá estão e nós como subscritores da carta temos que fazer isso.” (Recorte E2R24 da subcategoria J.1 – Anexo 4 - Director Departamento)
“A importância! [...] Tem a ver com a importância da educação, da formação das pessoas e falo mesmo aqui pessoas, não só das crianças e dos jovens, das pessoas, dos idosos, também dos adultos, acho que a ver essa preocupação e haver essa concertação de acções, que é tudo muito mais importante, não é.” (Recorte E8R20 da subcategoria J.1 – Anexo 4 - Representante do CME)
O quarto entrevistado, que arriscou provar a sua importância, reconhecendo- o como um projecto colectivo em prol da cidade, foi o representante do Centro de Saúde:
“É um projecto realizado por diversos representantes das instituições locais, que vai ao encontro das necessidades da cidade. Penso eu!” (Recorte E5R16 da subcategoria J.1 – Anexo 4)
Todos os restantes não souberam referir a importância do PEL para um município que se identifica como educador, remetendo a resposta para a câmara ou refugiando-se em preocupações inerentes à entidade que representam.
Podemos depreender, em primeira-mão, que. efectivamente, quem esteve em melhores condições de saber justificar a importância da elaboração do PEL, provavelmente encontrou-se mais ligado ao seu percurso, ao desenvolvimento do seu processo de construção, à sua estratégia. Além disso, também pode haver mais sensibilização para esta problemática devido à sua formação profissional docente, apesar do representante do Agrupamento Escolar ser professor e remeter a resposta para a câmara, contrariando assim, esta segunda argumentação.
A representante da IPSS também não respondeu, dirigindo a resposta para questões internas da sua instituição. Leva-nos a crer que a primeira ideia é a mais viável.
No próximo ponto do presente trabalho iremos sustentar esta nossa dedução.
Relativamente à representação do conceito de PEL pelos oito participantes, apenas à representante da IPSS não foi colocada a questão, pois ao longo da entrevista não revelou condições para a sua resposta, remetendo-a como já referimos atrás, para questões e preocupações internas da IPSS.
O Director Municipal encara o PEL como um quadro conceptual que define intervenções, estratégias, metodologias e objectivos para um período futuro com metas concretas e claras. É um referencial estratégico. A vereadora, próxima do Director Municipal, representa o conceito como um plano de intenções, constituído por acções e estratégias, que levem à concretização, de uma forma articulada,
das mesmas intenções e ou objectivos:
“Um projecto educativo local, municipal, é um projecto de intenções concretizáveis, […] portanto, nós temos que definir os objectivos, o que é que queremos para o concelho e depois arranjar as acções que vão, as estratégias, […] que vão conduzir àquilo que nós pensamos, a maneira mais fácil de atingir os objectivos a que nos propomos e é isso que temos feito, articulado, pronto!...” (Recorte E1R30 da categoria M – Anexo 4)
O representante do Agrupamento Escolar tem a mesma opinião que a vereadora, pois considera-o também um plano vasto de intenções, mas vai mais longe, desafiando o seu papel integrador, ao sugerir a incorporação de todos os projectos dos diversos agrupamentos nesse plano:
“Um projecto é sempre um plano, um plano de intenções, um plano de intenções será um caminho, um caminho a percorrer no futuro, portanto, e o ideal seria integrar todos os projectos, os projectos que cada agrupamento tem, que cada escola tem num projecto mais vasto, que seria o projecto, o projecto do município, educativo do município. É assim que eu entendo a coisa.” (Recorte E3R25 da categoria M – Anexo 4)
Sente-se a vontade, a noção de articular os projectos num projecto comum. O PEL nesta 1ª etapa não parece ter contemplado essa articulação. Vejamos a opinião do presidente da Comissão Administrativa Provisória do Agrupamento Escolar17:
“Pois, se calhar falta dar esse passo, que era o meu passo inicial, falta dar, se calhar esse passo. Mas, um dia chegaremos lá.” (Recorte E3R16 da subcategoria F.1 – Anexo 4)
O presidente da União das colectividades e associações do concelho, para além de não ter reconhecido a importância do PEL do “Município XXI”, por não o conhecer em pormenor, também interpretou o seu conceito, na óptica do presidente da Comissão Administrativa Provisória, acrescentando algo mais, para ele, o PEL é um elemento integrador de um trabalho colectivo que coordene não só a formação escolar, como também a formação dos cidadãos, da própria sociedade. O projecto educativo deve reflectir a realidade concreta da comunidade, a sua vida activa, sugerindo um diagnóstico para facilitar o
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conhecimento da realidade da mesma:
“Esse trabalho não deve ser cada um no seu favozinho, no seu cantinho, mas tem de haver realmente uma coordenação, porque um projecto educativo abrange não só a formação escolar, mas também a formação dos cidadãos para a própria sociedade.” ( Recorte E6R17 da categoria M – Anexo 4)
“o projecto educativo deveria ter a ver com a realidade concreta da própria comunidade, saber o que se produz, […] como é comercializado, […] qual é a realidade, daqueles que estão na vida activa […] e tudo isso passa pura e simplesmente ao lado, que cada um individuo na sua situação […] estranha!”
(Recorte E6R18 da categoria M – Anexo 4)
Estas considerações parecem acercar-se da óptica de Trilla Bernet (1999) quando este assume que existe uma similitude dos projectos próprios da cidade educadora. Eles são genuínos e nascem a partir da própria realidade, mas não renunciam a uma certa vocação de universalidade, identificando-se como um traço comum do PEL, a contextualização e transferibilidade.
Aproximam-se também de Canário (1999), segundo a autora, o PEL é um instrumento de realização de uma política educativa local que articula as ofertas educativas existentes, os serviços sociais com os serviços educativos, promove a gestão integrada dos recursos e insere a intervenção educativa numa perspectiva de desenvolvimento da comunidade.
A representante do Centro de Saúde declara que é um projecto construído colectivamente em prol das necessidades da cidade, dos locais, e da comunidade que representam (E5R19). Esta representação do conceito parece aproximar-se de Trilla Bernet (1999) ao nível de outro traço comum, a globalidade, isto é, quanto aos sectores da população a que se dirige e aos territórios sobre os quais quer incidir.
Para a vice-presidente da Associação de Pais, o PEL é um projecto onde estão delineadas as metas e uma fonte de informação para todos os munícipes relativamente ao acesso da educação das crianças, esperando-se que sirva para a melhoria dos conhecimentos e da própria diminuição do abandono escolar:
“Do meu ponto de vista um projecto educativo é alguma coisa, é algum projecto em que estão (…) delineadas (…) as metas que as pessoas pretendem, (…) que em todos os munícipes vão ter conhecimento de como naquele município os miúdos podem ter acesso à educação, essencialmente acaba por ser isso. Agora! Se isso se vai reverter em qualidade de conhecimentos, de benefícios, de diminuição do abandono escolar, dessas coisas todas, não, não temos ainda esses resultados.” (Recorte E7R17 da categoria M – Anexo 4)
A noção surge, no nosso entender, um pouco vinculada às preocupações naturais da família, neste caso da Associação de Pais, relativamente ao grupo etário dos seus educandos, à sua educação formal e seus resultados, não obstante de entender o PEL como um projecto onde estão delineadas metas e uma fonte de informação a todos os munícipes.
A representante do Conselho Municipal de Educação enfatizou a educação em sentido amplo, vendo o conceito como um projecto onde estão delineadas um conjunto de acções para uma educação/formação para sempre, ao longo da vida:
“Um PEL é um conjunto de acções, é também um futuro que se pensa construir, porque um projecto é isso, é um futuro que se pensa construir sobre a educação e a educação na sua dimensão alargada que é a educação, da formação das crianças, dos jovens, dos idosos, nas várias vertentes e um conjunto de acções e serviços que se põem ao dispor das pessoas que aqui habitam.”(Recorte E8R26 da categoria M – Anexo 4)
Cuidamos que um dos reptos que se coloca hoje à Educação é, justamente, o de a compreender de modo abrangente, como uma responsabilidade compartilhada por todos, como um processo que é protagonizado por crianças e jovens, mas também por adultos e idosos. É nesta perspectiva que entendemos e atribuímos pertinência à ideia de aprendizagem ao longo da vida. “Life Long Learning” é um “slogan” muito conhecido e um lema que tem estado no cerne das orientações em matéria de política educativa, designadamente da política educativa da União Europeia, depois de na década de 70, do século passado, já terem surgido preocupações expressas com o movimento da “educação permanente”18.
18 É comum aceitar-se que a ideia de aprendizagem ao longo da vida nasceu nos debates que emergem nos
anos 1970 associados a diversos relatórios internacionais (criados na UNESCO - “An Introduction to Life Long Learning” de Paul Legrand (1970) e “Learning to Be: the world of education today and tomorrow” de
Sustentando-nos em Coll (1999), o PEL entende a educação em sentido amplo: para além da escolar, deve-se articular os diferentes tipos de práticas educativas presentes na cidade, escolares/formais, não escolares/não formais e informais orientadas para a formação dos cidadãos. Segundo o autor, o seu processo de elaboração deve promover a participação e implicação das pessoas, grupos e associações com peso e capacidade para criar opinião sobre temas educativos e revestir-se de uma natureza participativa que apele à sociedade, à cidadania, à participação de todos.
Seguidamente, vamos tentar perceber o processo de construção do PEL do “Município XXI”, que após uma impressão inicial, da análise realizada ao seu “corpo documental”, é definido como uma ferramenta que permite ao município, com a colaboração dos diferentes actores e cidadãos que nele queiram participar, dividir responsabilidades e definir princípios, metodologias e prioridades para a sua intervenção educadora. É nossa intenção observarmos se conseguiu beber a perspectiva de Gómez-Granell, Vila et al., (1999), se foi caracterizado, entre outras coisas, pela existência de uma cidadania participativa, consciente destes desafios e capaz de conviver em harmonia sobre a base de um projecto comum.