Capítulo 2 – Turismo e internet
2.4 A internet, os blogs e o turismo
que ingressam na gestão de informações online e de relacionamento com o cliente por este meio. Apenas no ano de 2012, a Braspag²⁴ afirmou que o turismo na internet movimentou cerca de R$ 13 bilhões no Brasil, sendo o total movimentado próximo de R$ 239 bilhões, um crescimento aproximado de 20% em relação a 2011.
Procuramos neste tópico, dar uma visão geral da situação do mercado turístico brasileiro. Obviamente, há uma quantidade maior de questões a serem tratadas sobre este tema, assuntos que se estendem muito além dos discutidos aqui. Apesar disso, acreditamos ter levantado o básico necessário para a compreensão do momento do turismo brasileiro atual. No próximo tópico voltaremos nossa atenção para a internet, visto que essa é uma análise que necessita de um pouco mais de base para fins deste trabalho.
A internet gera uma mudança na relação espaço-temporal dos indivíduos. Da mesma forma que encurta distâncias, a rede permite que diversas atividades sejam realizadas em um mesmo intervalo de tempo. O processo de desterritorialização, gera manifestações concretas em diferentes momentos e locais determindados, sem contudo deixar esta entidade virtual presa a um lugar ou tempo em particular (LÉVY, 1999). Assim, enquanto assiste a um show de seu artista alemão preferido, alguém no Brasil pode estar lendo um e-mail enviado por um colega estadunidense. A introdução da internet modificou as estruturas sociais, suas bases não se encontram mais no território físico, mas nas possibilidades de conexão (PAULA, NOJIMA, 2008).
A universalização dos padrões da comunicação e da colaboração no digital pode nos levar, mais uma vez, ao questionamento da padronização. De forma diferente, mas bastante relacionada à questão das identidades nacionais em tempos de globalização, a padronização torna iguais os processos dentro da rede em qualquer lugar do mundo. Todavia, como dissemos anteriormente, a pós-modernidade promoveu a o esfacelamento da totalização. Não podemos esquecer que:
Uma nova ecologia das mídias vai se organizando ao redor das bordas do ciberespaço. Posso agora enunciar seu paradoxo central:
quanto mais universal (extenso, interconectado, interativo), menos totalizável. Cada conexão suplementar acrescenta ainda mais heterogeneidade, novas fontes de informação, novas linhas de fuga, a tal ponto que o sentido global encontra-se cada vez menos perceptível, cada vez mais difícil de circunscrever, de fechar, de dominar. Esse universal dá acesso a um gozo do mundial, à inteligência coletiva enquanto ato da espécie. Faz com que participemos mais intensamente da humanidade viva, mas sem que isso seja contraditório, ao contrário, com a multiplicação das singularidades e a ascensão da desordem (LÉVY, 1999:120)
Umas das características mais relevantes das relações na rede, é a interatividade, cada pessoa é ao mesmo tempo emissora e receptora de informação.
Há algumas discordâncias em relação ao conceito de interatividade da forma como intencionamos dizer aqui. Alguns autores, como Lévy (1999), levantam a questão de que qualquer meio de comunicação gera interatividade, pois há decodificação, interpretação e mobilização do sistema nervoso do destinatário da mensagem recebida, e, consequentemente, uma participação sempre diferente da de outros que possam receber o mesmo dado. Entretanto, o autor fornece uma segunda opção
que casa com o nosso ponto de vista. Ele também leva em consideração que a interatividade verdadeira ocorre quando há uma possibilidade de reapropriação e recombinação do conteúdo de uma mensagem, algo que a internet permite ao facilitar o contato direto e rápido entre produtores e “receptores-produtores”.
Há, portanto, a possibilidade de produção de conteúdo de muitos para muitos.
De certa forma, apesar das ainda existentes e representativas limitações de acesso por parte de grande parte da população e da dominação de certas classes dentro do terreno online, a internet permite uma maior democratização na produção de conteúdo. Típicas da cibercultura, as comunidades virtuais visam enriquecer a inteligência coletiva na produção de conteúdo. Não é mais apenas uma questão de interatividade, mas de participação:
A expressão cultura participativa contrasta com noções mais antigas sobre a passividade dos espectadores dos meios de comunicação.
Em vez de falar sobre produtores e consumidores de mídia como ocupantes de papéis separados, podemos agora considerá-los como participantes interagindo de acordo com um novo conjunto de regras, que nenhum de nós entende por completo (JENKINS, 2009:28).
Os blogs são um exemplo bastante claro disto. Eles são sistemas de publicação na web baseados nos princípios de microconteúdo e atualização frequente (RECUERO, 2003). Suas duas principais ferramentas, são o trackback e a parte de comentários. Isso porque a primeira permite ao blogueiro um melhor controle sobre quem também está comentando sobre o mesmo assunto baseado em seu link, e a segunda fornece a possibilidade de interação entre quem escreve e quem lê que, no caso, também pode escrever e acrescentar conteúdo à discussão.
Essa espécie de comunidade virtual segue as regras instituídas, na qual é imprescindível a troca de conhecimentos, a reciprocidade. A recompensa neste caso, que pode ser apenas simbólica ou não, já que um blog pode se tornar uma forma de geração de renda, é a reputação de competência em relação a determinados assuntos (LÉVY, 1999).
As relações online, apesar de não incluírem a presença física, não são percebidas como frias por seus participantes, que sentem conhecer a personalidade de cada uma das outras pessoas presentes de acordo com suas opiniões manifestadas e seus textos com fortes marcos de oralidade (LÉVY,1999). É importante frisar que uma relação não substitui a outra, elas são, na verdade,
complementares. No caso do turismo, por exemplo, escrever sobre determinada cidade e discutir com outros internautas sobre seus monumentos e atividades turísticas não substitui a viagem, seu deslocamento e a experiência propriamente dita de se deparar com o “outro” em um território distinto do seu próprio.
Muitas comunidades virtuais possuem um certo ar confessional, uma necessidade do testemunho, e representam uma nova forma de expressar uma opinião publicamente. O “eu” que fala e se mostra na web costuma ser tríplice: é ao mesmo tempo autor, narrador e personagem (SIBILIA, 2008). Se tomamos os blogs de viagem para análise, notamos que as narrativas presentes neles não apenas representam uma história, mas apresentam aquilo que se viveu. Por meio de relatos e cruzamento de narrativas, se tece e realiza a vida deste “eu” (idem).
Falar sobre viagens é algo altamente subjetivo. Por mais que, muitas vezes, sejam relatados apenas os locais turísticos mais interessantes por meio de um roteiro, a pessoa que o montou o fez de acordo com suas impressões dos lugares visitados. Mesmo que o olhar do turista seja treinado para mirar o que mais interessa aos que organizam o mercado turístico do local, ele o faz de forma pessoal e se baseia em referências não-turísticas que o sujeito possui, afinal, mesmo estando na mesma localidade, as pessoas vivem em mundos diferentes (URRY, 2001).
O poder de influência destas comunidades tem sido destaque de pesquisas sobre o setor de turismo na internet. Segundo a ComScore²⁶, empresa estadunidense, líder de mensuração de dados no mundo virtual, 16.5 milhões de usuários brasileiros consultaram sites relacionados ao turismo em julho de 2012, sendo São Paulo o estado líder de buscas. Assim como os blogs, os sites entram nessa contagem e mostram o poder de influência crescente da rede nas decisões de compra relacionadas ao turismo.
Uma descoberta não tão atual e que também diz respeito a influência, é a força da recomendação. Muito se fala sobre o boca-a-boca e a recomendação de ___________________________
²⁶ Pesquisa da empresa estadunidense, líder de mensuração de dados no mundo virtual sobre
pesquisas sobre sites de turismo. Disponível em:
<http://www.comscore.com/por/Insights/Press_Releases/2012/8/Record_Number_of_Brazilians_Turn _to_the_Web_for_Planning_and_Booking_Travel >. Acesso em: 15/01/13.
amigos e conhecidos. No caso de um blogueiro, pode ser que ele não seja um amigo e nem mesmo um conhecido do sujeito, porém, a reputação de competência dele na comunidade turística pode levar a um aumento no nível de confiança em relação às informações que passa. Tendo a internet como meio de socialização, os turistas podem interagir e tomar decisões de consumo que influenciem não apenas as suas viagens, mas todo um mercado turístico que vai desde o blogueiro, também turista em algum momento, aos governos e secretarias de turismo das cidades, regiões e países.
Nossos objetos de estudo, portanto, entram nessa mistura da internet. O Nós no Mundo como um blog de viagens que busca informar e discutir com outros blogueiros e internautas assuntos turísticos, e se insere nessas comunidades online.
E o Vem Viver Brasília, o site com a narrativa oficial da cidade e que mostra aos turistas as atrações de destaque e tem o intuito de vender a ele uma determinada imagem da cidade de forma mais próxima e dinâmica. Por isso, nossa escolha por utilizar a internet como ambiente de pesquisa não foi por acaso. Sua relação com o turismo realmente modifica os velhos moldes de se conseguir informações sobre novos destinos e, como dissemos, suas bases se encontram nas possibilidades de conexão (PAULA, NOJIMA, 2008).
No próximo capítulo, veremos algumas características de Brasília para contextualizar os dados adquiridos até aqui com a cidade que escolhemos analisar.
Assim, poderemos compreender não só os motivos pelos quais optamos pela internet, como fizemos neste tópico, mas, também, a razão pela qual a capital nos apresentou um terreno rico de estudos.