3 O CAMPO TEÓRICO DA ANÁLISE DE DISCURSO
3.5 A (ir)repetibilidade, interdiscursividade e memória
A imagem do corpo feminino é resultado de uma construção sóciocultural-histórica. Dessa forma, podemos mobilizar o conceito de memória discursiva, pois os discursos sobre o corpo possuem um domínio de memória pré-construída e materializada, talvez por sua repetibilidade, como é o caso do discurso sobre a beleza e sobre a perfeição corporal, embora, apesar de recorrentes e repetíveis, não pertençam à mesma enunciação, já que as CP podem vir a ser outras. Logo, também na repetição podem existir diferenças. A memória discursiva é formada por muitas “partes” que são unidas pelo interdiscurso, capaz de determinar esse efeito de encadeamento e articulação que leva a que os discursos pareçam “inteiros” e possuidores de sentido.
As revistas femininas, como um instrumento da mídia, produzem um discurso homogêneo, pois há sempre um investimento no mesmo, isto é, não existem saídas do mesmo espaço dizível. Embora haja deslizamento e deslocamento, não ocorrem rupturas, mas a reiteração do mesmo, produzindo-se a ilusão do diferente e do variado, ou seja, a variedade do mesmo em série, as múltiplas formas de o mesmo se apresentar. Como exemplo, podemos citar o discurso sobre beleza presente nessas revistas: praticamente todas as edições de Nova do nosso corpus de análise trazem maneiras de manter o corpo em forma, num discurso repetitivo, porém em cada edição apresentado de outra forma, que pareça ser novidade para a leitora. Assim, o mesmo se torna outro e a regularidade apresentada nessas edições torna-se irrepetível porque aparece “mascarada” sob o rótulo do novo. Portanto, o discurso da mídia não sai do mesmo; somente produz a variedade, não a mudança. Como exemplo, podemos citar os diferentes métodos de tratamento apresentados em várias edições de Nova, mostrados como capazes de manter o corpo em forma e acabar com as gorduras indesejadas. É, pois, o mesmo dito, porém de “cara nova”.
Para recuperar outros dizeres sobre o corpo que não os presentes no corpus aqui analisado é preciso acionar o interdiscurso, que pressupõe que os dizeres materializados em uma memória discursiva signifiquem também a partir de outros dizeres passados ou atuais. Conforme Orlandi (2001, p. 33), “todo dizer, na realidade, se encontra na confluência dos dois eixos: o da memória (constituição) e o da atualidade (formulação). E é desse jogo que tiram seus sentidos”. É com base no discurso da mídia, que põe em evidência a perfeição corporal, que o sujeito se prende a uma armadilha estética, em razão da circulação de sentidos materializados por uma memória discursiva já existente e circulando no interdiscurso sobre o corpo feminino.
Nas palavras de Certeau (apud MARIANI, 1998, p. 34), “memória no sentido antigo do tempo, que designe a pluralidade dos tempos e não se limita, portanto, ao passado”. Portanto, memória discursiva não é a mesma coisa de memória psicológica; é uma memória que torna possível a circulação de memórias anteriores numa FD, isto é, já enunciadas, permitindo a rejeição ou a transformação de enunciados pertencentes a FDs contíguas. Aí entra o que chamamos de “interdiscurso”, que se trata de formulações já ditas e esquecidas, mas que, num determinado momento, voltam para constituir um novo sentido numa nova enunciação. Para Courtine e Marandin,
[...] o interdiscurso consiste em um processo de reconfiguração incessante dentro do qual uma FD é conduzida, em função das posições ideológicas que esta FD representa em uma conjuntura determinada, a incorporar os elementos pré- construídos ao exterior dela mesma, ao produzir a redefinição ou o retornamento, a suscitar igualmente o retorno de seus próprios elementos, em organizar a repetição, mas também a provocar eventualmente o apagamento, o esquecimento ou mesmo a denegação.23 (1981).
No interdiscurso, local dos “vestígios discursivos” (MARIANI, 1998, p. 43), memória e esquecimento andam juntos, pois alguns elementos que constituem esses vestígios no entrecruzar de FDs podem “vir à tona”, caracterizando novos sentidos e ou cristalizando outros. Os sentidos momentaneamente esquecidos no interdiscurso permanecem como resíduos discursivos para, em outro tempo, poderem retornar em outras FDs, configurando, dessa forma, novas possibilidades de sentidos.
23 Tradução de Carme Regina Schons e revisão de Glória Cristina Cunha para uma apostila onde não consta paginação.
Não podemos ter a ilusão de completude quando se trata de memória discursiva, porque é constituída por faltas e lacunas; caso fosse linear e homogênea, repetiríamos, de modo infindável, sempre os mesmos sentidos. De acordo com Mariani (1998, p. 41), “trabalhar com a memória discursiva é estar observando retomadas”, visto que a memória discursiva é constituída por muitos sentidos, que, aparentemente, podem parecer literais e unívocos, mas, quando “emergem” do interdiscurso, podem aparecer com outras direções de sentido. Portanto, não devemos tratar a memória discursiva pelo viés da manutenção de um passado, pois corremos o risco de ter uma concepção imobilista dos sentidos.
Mittmann (2008, p. 119),com base em Pêcheux (1990, p.289), afirma que “a memória é um conjunto complexo, pré-existente e exterior, um corpo interdiscursivo de traços sócio- históricos em que se encontra a própria condição para produzir e interpretar”. A memória discursiva relaciona-se com a memória histórica no sentido de vir a restabelecer os implícitos, os elementos pré-construídos, os discursos transversos... Assim, a memória serve como suporte para um novo discurso sustentando-o, pois possui caráter de já-ali e encontra-se à espera desse novo discurso. Porém, exista certa mobilidade, já que, segundo Pêcheux (apud Mittmann, 2008, p. 120), a regularização é sempre suscetível de ruir sob um novo acontecimento discursivo que vem para perturbar a memória.
A estabilidade ocorre no momento em que a memória absorve um novo acontecimento, ocasionando um processo conflituoso, pois ocorre perturbação nos implícitos já existentes na memória. No entanto, é nesse movimento da memória a cada chegada de um novo acontecimento que, segundo Mittmann (2008, p. 121), os movimentos dos sentidos são sustentados pela memória.
A respeito da presença de conflitos na memória Pêcheux (apud MITTMANN, 2008, p. 121) afirma:
[a memória] não poderia ser concebida como uma esfera plana, cujas bordas seriam transcendentais históricos e cujo conteúdo seria um sentido homogêneo, acumulado ao modo de um reservatório: é necessariamente um espaço móvel de divisões, de disjunções, de deslocamentos, de retomadas, de conflitos de regularização... Um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra-discursos. (PÊCHEUX, 1999, p. 56).
Portanto, embora na “superfície” da memória exista o efeito de estabilidade, em sua “profundidade”existem conflitos e movimentos. Mittmann (2008, p. 122) reforça que “a
estabilização realizada pela memória se dá pelo efeito de já sabido, a partir de um movimento de dentro para fora, que envolve a abertura à recepção e a acomodação”. O acontecimento da memória é possível porque ao mesmo tempo o esquecimento também se faz presente, isto é, é preciso esquecer algo para que em seu lugar alguma coisa seja dita. O que fica “de fora”, o não-dito, o esquecido, conduz a que aquilo que for dito tenha sentido.
No próximo capítulo deste trabalho, no qual trazemos as análises de nosso corpus, deixaremos mais evidentes as questões que tratam da (ir)repetibilidade de um mesmo discurso e sob quais aspectos. Analisaremos agora o corpus, a metodologia utilizada e, em seguida, passaremos para as análises.