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4 A QUESTÃO DA LEGITIMIDADE DO PODER

4.2 A Justiça Distributiva

É necessário situar a problemática ora apresentada dentro de uma concepção de igualdade, uma vez que a realização dos direitos sociais por meio de políticas públicas e da intervenção contramajoritária do poder judiciário na defesa dos direitos fundamentais fundamenta-se na realização da justiça como igualdade distributiva59.

Diversas teorias da justiça permeiam o universo da filosofia política ao longo do tempo, sendo várias teorias idealizadas com a finalidade de buscar uma fórmula ideal para que seja alcançada a justiça distributiva, destacando-se nesse contexto algumas correntes filosóficas, dentre as quais o liberalismo político cujos grandes expoentes foram Rawls e Dworkin.

59 Para Brito Filho (2015) os direitos humanos decorrem da própria ideia de justiça, principalmente da

justiça distributiva, que é defendida na obra de Rawls quanto de Dworkin, sendo que “[...] Os direitos

humanos fundamentam-se não em um direito natural que todos os seres humanos têm, ou por conta de normas que os regulem, mas sim porque é justo que as pessoas tenham direitos mínimos, básicos, qualquer que seja o esquema de cooperação social que estejam inseridas desde que se sustentem na ideia de que todos devem ter, no mínimo, esse conjunto básico de direitos” (BRITO FILHO, 2015, p. 122-123).

No presente trabalho, a chamada igualdade de recursos formulada por Dworkin é a teoria que se mostra mais adequada para sustentar os argumentos apresentados, no sentido que “a justiça distributiva é o melhor modelo para, senão eliminar, ao menos atenuar, significativamente, as desigualdades entre os indivíduos” (BRITO FILHO, 2013, p. 58).

Dworkin refuta as teorias que defendem a igualdade de bem-estar, prevendo uma divisão igualitária dos recursos disponíveis como ponto de partida para a igualdade, com a devida correção das deficiências e talentos a fim de garantir a igualdade material. A teoria de Dworkin pressupõe o equilíbrio entre a igualdade e a liberdade, posto que a liberdade é um aspecto fundamental da igualdade distributiva60.

Na obra A Virtude Soberana, Dworkin expõe sua teoria da igualdade de recursos, defendendo a consideração igualitária como a virtude soberana da comunidade política, não existindo legitimidade em um governo que não demonstre igual consideração pelo destino de todos os cidadãos sobre os quais exerça seu domínio.

Nenhum governo é legítimo que não demonstre igualdade de consideração pelo destino de todos os cidadãos sobre os quais afirme o seu domínio e aos quais reivindique fidelidade. A consideração igualitária é a virtude soberana da comunidade política - sem ela o governo não passa de tirania

[…] (DWORKIN, 2011, p. 1).

Dworkin constrói sua teoria a partir da situação hipotética passada em uma ilha desértica cujos habitantes desejam realizar uma divisão justa dos recursos existentes, usando mecanismos contratualistas para afirmar seu ponto de vista.

A igualdade de recursos trata as pessoas como iguais quando distribui ou transfere recursos disponíveis de modo que nenhuma transferência adicional possa deixar mais iguais suas parcelas do total de recursos (DWORKIN, 2012).

60“A liberdade é necessária à igualdade, segundo essa concepção de igualdade, não na duvidosa e

frágil hipótese de que as pessoas realmente dão mais valor às liberdades importantes do que aos outros recursos, mas porque a liberdade, quer as pessoas lhe deem mais valor do que a todo o resto, é essencial a qualquer processo no qual a igualdade seja definida e garantida. Isso não transforma a liberdade em instrumento da igualdade distributiva mais do que esta em instrumento da liberdade: as duas ideias, pelo contrário, fundem-se em uma tese mais completa sobre quando a lei que governa a distribuição e o uso dos recursos trata a todos com igual consideração” (DWORKIN, 2012, p. 160- 161).

Ele parte da premissa que a igualdade de recursos é uma igualdade de quaisquer recursos que os indivíduos possuam privativamente61, sendo que a

igualdade será garantida na medida em que os recursos sejam distribuídos de forma igualitária, sem dependência de critérios subjetivos de bem-estar.

Uma vez que a igualdade se traduz nos recursos de que as pessoas dispõem para realizar suas escolhas, e não no bem-estar que elas poderiam alcançar com esses recursos, os governos devem prover a igualdade material para todos, uma vez que tem a obrigação política de tratar a vida de cada pessoa como tendo uma importância igual.

Para Dworkin a distribuição idêntica de riquezas não se traduziria em uma distribuição justa, devendo as pessoas ser responsáveis pelas escolhas que fazem em suas vidas.

Defende que uma divisão igualitária de recursos pressupõe alguma forma de mercado econômico como mecanismo de atribuição de preços a uma grande variedade de bens e serviços e que deve estar no núcleo de qualquer elaboração teórica atraente da igualdade de recursos.

Assim, o autor faz uma afirmação que irá nortear a relação entre igualdade e liberdade dentro da sua teoria de igualdade de recursos, entendendo como a melhor concepção de igualdade distributiva, a liberdade se torna um aspecto da igualdade, ao invés de um ideal político independente ou em conflito com a igualdade.

A liberdade é necessária à igualdade, porque a liberdade é essencial a qualquer processo no qual a igualdade seja definida e garantida. A igualdade e a liberdade se fundem dentro de uma tese mais completa quando a lei que governa a distribuição e o uso dos recursos trata a todos com igual consideração.

Para Dworkin a igualdade e a liberdade fazem parte do mesmo ideal político, defendendo a garantia aos indivíduos do exercício de suas liberdades fundamentais, bem como a obrigação de criação de condições materiais para todos (BRITO FILHO, 2013).

Dworkin defende que em uma comunidade igualitária se deve buscar uma meta participativa que se exterioriza por meio das características democráticas, não se restringindo apenas pelas consequências distributivas. Assim, a interpretação do

61 Brito Filho (2013, p. 50) entende que “Do ponto de vista prático, todavia, a teoria do autor faz mais

sentido quando a consideramos como uma teoria que pretende a distribuição dos recursos (bens e oportunidades) fundamentais”.

sufrágio universal, da liberdade de expressão e de outros aspectos da democracia podem ser entendidos como instrumentos que alavancam todos os objetivos da igualdade.