3. AS RESISTÊNCIAS ABERTAS
3.2 A Justiça do Trabalho e o cotidiano na lavoura
Eu nunca ‘ponhei’ usina no pau. Eu acho que esse negócio de ‘ponhar’ no pau suja a gente. Porque, às vezes, você não acha serviço e você fala: “vou voltar para aquela usina”. Então, com certeza seu nome não tá sujo... Eu penso assim.
Zilda fez essa afirmação logo antes de contar que, na realidade, entrou com processo contra a usina São Carlos quando foi dispensada. Mas, faz questão de explicar que sua turma inteira entrou com a ação e que ela fez acordo, também porque não queria esperar pela decisão judicial por “(...) 10, 30, 40 anos, nem sei se eu estava viva!”. Em seguida, repete que nunca entrou com processo trabalhista contra nenhuma usina.
A utilização da Justiça do Trabalho como arena de disputa de direitos não é ponto pacífico entre as entrevistadas, além de ser carregado de ambiguidades. Há quem enxergue uma honradez em não entrar na justiça, como Argentina e, de certo modo, Zilda. Há Ana, cuja possibilidade de um acerto de contas melhor, após um acidente de trabalho, foi garantida por essa via, mas também não a considera um espaço seu. E há Nina, para quem a luta por direitos passa pelos tribunais, mas enfatiza que “somos nós que lutamos (...) a Justiça do Trabalho não luta por nós, nós é que temos que ir lá e correr atrás”157.
Talvez Zilda tenha conhecido, em alguma das turmas da usina São Martinho, o cearense Raimundo Vicente de Lima e o mineiro Francisco de Assis Pereira, que também moravam em Guariba. Os dois entraram com processo158 contra a Agro Pecuária Monte Sereno, em 1986. Eles foram admitidos em dezembro de 1982 para funções de corte e carpa de cana com jornada de trabalho das 7 às 17 horas e intervalo de duas horas para refeição e repouso. No entanto, similar ao que revelou Zilda, a jornada deles iniciava por volta das 5:30, quando pegavam a condução em direção à lavoura, junto com os companheiros de turma. Chegavam no local por volta das 6:00 e trabalhavam até as 18 horas, quando eram transportados de volta para Guariba, concluindo a diária às 18:30, com uma hora para refeição e descanso. Na época de safra, eles também trabalhavam aos domingos e feriados.
Outra questão levantada no processo foi o fato de os trabalhadores terem sido admitidos por meio de sucessivos contratos por tempo determinado, com apenas alguns dias de diferença entre o término de um e o inicio do seguinte159. Do mesmo modo, Zilda trabalhou para a mesma empregadora entre 2 de janeiro de 1981 e 30 de setembro de 1988, initerruptamente, por meio de 16 contratos de trabalho por tempo determinado consecutivos. O tempo máximo entre um contrato e outro foi de 23 dias, e o mínimo de um dia.
Como, no período trabalhado pelos três na empresa, os contratos possuem as mesmas datas de inicio e términos e as funções descritas nas CTPS foram idênticas, pude também comparar as
157 Entrevista concedida à autora. 158 P. 724/86, JCJ de Jaboticabal.
159 Essa questão apareceu na análise das CPTS de todas as entrevistadas. Apesar da recorrência envolvendo a Monte Sereno relatadas neste trabalho, é importante pontuar que também era prática de outros empregadores da região.
notáveis diferenças salariais verificadas, principalmente entre Zilda e os dois homens (Tabela 2). Além disso, há diferença nas formas de pagamento (por hora ou por produção), em uma mesma safra, entre trabalhadores exercendo a mesma função, como ocorre entre maio e outubro de 1985. Também se observa que, a menos de um mês da greve de 1984, os três renovaram os contratos de trabalho com praticamente a mesma remuneração do contrato anterior, em um período de alto índice inflacionário.
Tabela 3: Valores pagos em contratos de trabalho por tempo determinado para serviços na lavoura da Agro Pecuária Monte Sereno.
Zilda Raimundo Francisco 16 de dezembro de 1982 a 31 de março de 1983 Cr$ 166,56 por hora normal de carpa de cana. Cr$ 208,20 por hora normal de carpa de cana. Cr$ 208,20 por hora normal de carpa de cana. 18 de abril de 1983 a 30 de novembro de 1983 Cr$ 400,00 por tonelada de cana cortada. Cr$ 400,00 por tonelada de cana cortada. Cr$ 400,00 por tonelada de cana cortada. 01 de dezembro de 1983 a 31 de março de 1984 Cr$ 419,54 por hora normal de carpa de cana. Cr$ 524,42 por hora normal de carpa de cana. Cr$ 406,25 por hora normal de carpa de cana; 23 de abril de 1984 a 14 de novembro de 1984 Cr$419,54 por hora normal de corte de cana. Cr$ 524,00 por hora normal de corte de cana. Cr$ 524,42 por hora normal de corte de cana. 19 de novembro de 1984 a 13 de abril de 1985 Cr$ 1.096,00 por hora normal de carpa de cana. Cr$ 1.371,00 por hora normal de carpa de cana. Cr$ 1.371,00 por hora normal de carpa de cana. 2 de maio de 1985 a 31 de outubro de 1985 Cr$ 5.200 por tonelada de cana cortada. Cr$1.942,00 por hora normal de corte de cana. Cr$1.942,00 por hora normal de corte de cana. 11 de novembro de 1985 a 15 de maio de 1986 Cr$ 3.842 por hora normal de carpa de cana. Cr$ 3.842 por hora normal de carpa de cana. Cr$ 3.842 por hora normal de carpa de cana. Fonte: CTPS160.
160 A CTPS de Zilda Bezerra foi reproduzida pela autora e as de Raimundo e Francisco foram encontradas no P. 724/86, JCJ de Jaboticabal.
Figura 9: Primeira página da CTPS de Zilda Bezerra, Raimundo Vicente de Lima e Francisco de Assis Pereira.
Fonte: Reprodução feita pela autora e P. 724/86, JCJ de Jaboticabal.
Raimundo e Francisco ao termino do contrato de entressafra, em maio de 1986, não foram recontratados para a safra, assim, demandaram, na ação, que o contrato fosse considerado por tempo indeterminado para cálculo de aviso prévio e indenização, além do pagamento de horas extras, domingos e feriados trabalhados em dobro, descanso semanal remunerado, horas de percurso e diferenças salariais, conforme dissídio da categoria. Em defesa escrita, a reclamada, por meio de seu advogado, refuta:
Considerando-se que os Reclamantes sempre foram contratados para trabalhar em safras canavieiras, através de contratos de prazo determinado e levando-se em consideração as peculiaridades próprias do contrato do safrista, inadmissível e inverídica a alegação de que os reclamantes trabalharam até o dia 15 de maio, quando foram “dispensados, sem qualquer motivo” pela Reclamada. Ora, tal afirmação não encontra qualquer respaldo jurídico (...) (P. 724/86, JCJ de Jaboticabal).
O texto também afirma que, ao fim de cada safra, todos os valores foram pagos corretamente aos trabalhadores. Sobre as horas de percurso, argumenta que não se aplica:
Ora: a Reclamada tem sua sede na Fazenda São José, localizada no município de Pradópolis, com ligação através de estradas asfaltadas, para todas as cidades da região e é servida, amplamente, por diversas linhas de ônibus, configurando transporte regular público (...) jamais trabalharam em lugar de difícil acesso ou não servido de transporte público regular (...) (P. 724/86, JCJ de Jaboticabal).
Em audiência, ocorrida em janeiro de 1987, o depoimento do encarregado do departamento pessoal da reclamada reafirma a jornada de trabalho contratual, mas confessa que os trabalhadores são transportados de Guariba para diferentes áreas de lavoura, diariamente, e que entre sede da usina e a fazenda mais distante existem cerca de 30 km. No entanto, diz que os reclamantes trabalhavam em áreas mais próximas. O segundo depoente da reclamada, um supervisor de turmas, também confirma a ocorrência de uma hora diária de deslocamento e diz que o usual é uma hora e meia para refeição. O depoente dos reclamantes, por sua vez, confirma inteiramente a versão da acusação.
A sentença é declarada na segunda audiência, em agosto do mesmo ano. Primeiramente, a juíza Maria de Fátima Moreira Gonçalves considera que “(...) inexistiram as interrupções típicas do contrato de safra. Basta analisar-se que em quase quatro anos de trabalho as ‘interrupções’ não alcançam dois meses (...). Haverá safra de 4 anos? Não”161. Condenou, assim, a empregadora a pagar as verbas indenizatórias e o aviso prévio.
Curiosamente, em outro processo movido pelo fiscal de turma Nestor Codeco contra a mesma empregadora, esta mesma demanda foi considerada improcedente pelo juiz Carlos Roberto do Amaral, em março de 1988. Mas, após recurso, parecer assinado pela procuradora conclui que “(...) não se trata de atividade transitória (...) presumindo-se a fraude e considerando-se por prazo indeterminado o contrato (...)”162, além de definir procedência parcial de outras demandas. É importante apontar essas nuances, uma vez que as instituições não devem ser encaradas de maneira monolítica.
Na ação de Raimundo e Francisco, no entanto, as demais reivindicações foram negadas. Sobre as diferenças salariais, a juíza argumenta que não foram anexados os referidos dissídios. A respeito das horas extras e sobrejornadas, ainda que confirmadas em parte pelas próprias testemunhas da reclamada, ela alega falta de provas e de precisão. Na questão das horas de percursos, do mesmo modo, afirma que “os autores não indicam o motivo de pedirem”, dado que a empregadora contestou a dificuldade de acesso. Não encontrei nenhum processo em que
161 P. 724/86, JCJ de Jaboticabal. 162 P. 894/87, JCJ de Jaboticabal.
as demandas por horas extras e horas de percurso fossem atendidas e, em geral, a justificativa gira em torno da falta de provas.
Aparentemente, os juízes consideram a procedência das reivindicações com provas documentais incontestáveis, procurando sempre mediar entre as demandas apresentadas e as contestações da defesa, mesmo quando elas são frágeis. No caso das horas de percurso, por exemplo, não se considera que a própria forma de organização e arregimentação do trabalho nas lavouras de cana é feita exclusivamente por meio das turmas de trabalhadores formadas nas pequenas cidades da região. A cada dia, coordenadas por um intermediador, as turmas são enviadas para um local diferente, no meio da fazenda, não para a sede, como afirma a defesa.
O processo se arrastou por mais de dois anos, até 29 setembro de 1988, quando, 20 dias após recurso negado à empregadora, as partes assinaram um acordo no qual a empresa pagou Cz$920.000,00 a Raimundo e Francisco.
A utilização de processos trabalhistas como fonte histórica vem se mostrado frutífera tanto do ponto de vista teórico, quanto empírico. Por um lado, essa produção questiona uma narrativa preocupada em apresentar a Legislação Trabalhista como mero instrumento de subordinação do movimento sindical ao Estado163 e se propõe a refletir sobre os significados mais profundos e nuançados do ETR, assim como as possibilidades e limites da Justiça do Trabalho164. Por outro, os processos também podem fornecer maiores informações sobre o cotidiano dos trabalhadores e os conflitos de classe165.
Para essa pesquisa, analisei 53 processos trabalhistas movidos por trabalhadores rurais. Dentre eles, 40 fazem parte do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto, que mantém a documentação de 1957 a 1988 da Junta de Conciliação local. Utilizo aqui processos abertos entre 1975 e 1979, sendo a ampla maioria de 1976 (36 ações)166, uma vez que, deste ano, foram
163 Reflexão que tem como importante marco o trabalho de Ângela de Castro Gomes (2005). 164 Destaco aqui as obras de Fernando Teixeira da Silva (2016) e Gabriel Pereira S. Teixeira (2017).
165 A exemplo da coletânea organizada por Ângela de Castro Gomes e Fernando Teixeira da Silva (2013) e os trabalhos de Thomas D. Rogers e Christine R. Dabat (2014, 2017).
166 É importante admitir o problema metodológico das fontes utilizadas. No entanto, a intenção inicial não era utilizar os processos de Ribeirão Preto, pois foram recolhidos em fase de prospecção de fontes, quando o objetivo era averiguar se ali estavam os processos de trabalhadores de Guariba, pertencentes, em realidade, à JCJ de
abertas todas as caixas que indicavam haver processos de trabalhadores rurais, de acordo com o nome da reclamada, contido na lista do arquivo. Destas caixas, também foram reproduzidos outros processos movidos por trabalhadores rurais, contra empreiteiras e pessoas físicas. Os demais processos são de 1975 (2), 1977 (1) e 1979 (1).
Outros 13 processos provenientes da JCJ de Jaboticabal – fundada em 1979 – foram analisados: 1979 (1); 1981 (1); 1982 (1); 1983(1); 1984 (4), 1985(1); 1986(1); 1987(3)167. Dentre eles,
quatro foram movidos por habitantes de Guariba. Além disso, analisei a lista de processos abertos entre 1979 e 1985 que foram incinerados.
Na lista de processos incinerados da JCJ de Jaboticabal, o percentual168 de mulheres como reclamantes “principais” 169 de processos é consideravelmente baixo. Em 1979, elas foram 18,11%, em 1983, 14,82% e em 1985, 19,23%. Em todos os anos, a proporção de mulheres nos processos cujo nome do empregador indica atividade não-rural é maior do que aquelas com empregadores rurais170. No entanto, a lista indica um considerável aumento da proporção de mulheres rurais como reclamantes, uma vez que eram apenas 8,87% do total de reclamações rurais em 1979171 e, em 1985, foram 17,04%172. Neste período, há também a sugestão de um salto de processos com reclamadas rurais, passando de 16,42%173 em 1979 para 33,46% em 1985174, de modo que o número absoluto de mulheres sobe de maneira mais significativa.
Jaboticabal. Devido ao caráter extremamente residual dos processos encontrados em Jaboticabal, optei por utilizar também os documentos recolhidos em Ribeirão Preto.
167 Ainda que fujam da periodização proposta, optei por utilizar os processos de 1986 e 1987 tanto devido à escassez de ações encontradas na JCJ de Jaboticabal, quanto pelo fato de seu conteúdo se referir também ao período pesquisado.
168 Foi analisada a lista dos anos de 1979, 1983 e 1985.
169 Em geral, as ações coletivas possuem apenas um reclamante citado nominalmente na lista e na capa do processo. 170 Foram considerados aqui nomes como “fazenda”, “sítio”, “chácara”, “empreiteira rural”, “agropecuária”, “usina”, “açucareira”, etc.
171 Neste ano, entre os 820 processos, em 337 não é possível indicar o ramo de atividades do reclamado, dos quais 268 são homens, 57 mulheres e 12 são apensos.
172 Neste ano, entre os 1503 processos, em 506 não é possível indicar o ramo de atividades do reclamado, dos quais 405 são homens, 83 mulheres e 18 são apensos.
173 Neste ano, 42,43% dos processos indicam reclamada não-rural e em outros 41,09% não é possível identificar o ramo de atividades.
174 Neste ano, 32,86% dos processos indicam reclamada não-rural e em outros 33,66% não é possível identificar o ramo de atividades. Ou seja, considerando apenas as empregadoras com ramo identificável, os rurais são alvo de pouco mais da metade das reclamações de 1985.
Entre os processos analisados, o percentual de mulheres é consideravelmente maior, levando em conta que a média entre os anos, a partir da lista, seria de 14% de mulheres entre os reclamantes rurais. Nos processos da JCJ de Ribeirão Preto analisados, elas são 29,6% entre os adultos e 35,3% do total, se considerarmos também os menores de idade. Os processos de Jaboticabal contêm valores similares e, ainda que a amostragem seja pequena para qualquer pretensão estatística, é indicativo de uma diferença relevante entre o percentual de mulheres entre os reclamantes nas listagens e o total de reclamantes dos processos.
Em artigo, Vera Ferrante (1982) analisa brevemente boletins estatísticos da JCJ de Araraquara e, observando o total de reclamantes, constata que, entre 1968 e 1977, as mulheres representaram entre 1,4% (1969) e 31,8% (1973) dos reclamantes em ações trabalhistas, com oscilações notáveis – para mais ou para menos – a cada ano. Segundo a autora, as mulheres participam geralmente de ações coletivas contra locadoras de mão de obra e, “(...) na maioria das vezes, não é a mulher que desencadeia a ação” (FERRANTE, 1982, p.110).
Ela também apresenta dados de sindicalização de trabalhadores rurais em Cravinhos entre 1962 e 1978, nos quais o índice de mulheres não ultrapassa os 6,22%, em 1978 (p. 108). Ainda que tenha notado um aumento gradual dessa participação feminina, a autora afirma categoricamente que isso não seria acompanhado de outras manifestações de ação coletiva e consciente.
De modo geral, Ferrante interpreta tais dados na chave do conformismo. Citando entrevistas com trabalhadoras, analisa que elas “(...) incorporam a visão do patrão, veiculada pela ideologia dominante, de que, em termos de organização e de expressão de suas reivindicações, a mulher é ninguém” (FERRANTE, 1982, p. 112), na medida em que afirmam não reivindicarem seus direitos por medo de retaliação ao marido – quando este trabalha na mesma empresa – ou da própria demissão.
De fato, em muitos casos, as mulheres não aparecem como reclamante “principal”, em ações movidas por uma família ou por diversos trabalhadores contra o mesmo empregador, o que
ajuda a explicar o desnível entre o percentual contido na lista e o baseado na análise dos processos. Isso não significa, contudo, que elas não possam ter cumprido um papel relevante na articulação e na elaboração dessas ações, nos bastidores.
Avalio que esse conjunto de informações apenas elucida o fato que, de forma geral, os homens eram reconhecidos como interlocutores mais legítimos de um grupo de trabalhadores em uma ação pública175. Além disso, denota situação mais vulnerável das mulheres nos locais de
trabalho, o que pode conferir menor margem reivindicatória, sobretudo diante da ameaça de perda da maior fonte de renda da família, o salário do homem. Nesse sentido, ações coletivas as deixam também menos expostas a possíveis retaliações por parte do empregador.
É preciso, desse modo, levar mais em consideração as ações cotidianas, nos bastidores, para uma dimensão mais precisa das formas de atuação dessas mulheres. Mesmo se tratando de uma tarefa árdua, já que elas estão incontestavelmente menos presentes na documentação, alguns detalhes podem sugerir pistas. Não me parece casual, por exemplo, que, na lista de processos incinerados de Jaboticabal, não raro há uma sucessão de dois ou mais processos consecutivos, contra o mesmo empregador, com reclamantes mulheres, sejam elas rurais ou não. Ainda que não seja possível investigar se há, de fato, relação entre elas e nem mesmo o conteúdo das reclamações, a relativa recorrência do fenômeno sugere a possibilidade de uma articulação.
Ferrante (1982) também cita um processo excepcional – em meio às recorrentes reivindicações pelo não pagamento de aviso prévio, 13o e irregularidades no pagamento de férias – em que dez mulheres pedem equiparação salarial. Ela credita a ação à existência de uma liderança sindical bem definida em Cravinhos. No entanto, cabe indagar se o incomum processo não foi possível justamente por se tratar de uma atitude coletiva e articulada entre um número grande de mulheres.
Nas ações analisadas aqui, a demanda por equiparação salarial aparece em três (todas de Ribeirão Preto). Dois176 processos foram conciliados na primeira audiência, de modo que não
175 Nesse ponto, vale acrescentar que, entre os processos analisados que constam mulheres entre os reclamantes, em dois não aparecem nem sua assinatura, nem sua impressão digital, apenas a do homem, de modo que seu consentimento formal não fora considerado fundamental pelo próprio órgão oficial.
é possível saber como se portaria o juiz, a defesa e os depoentes sobre a questão. O terceiro177, ainda que tenha sido arquivado por desistência, contém alguns elementos para análise.
Nele, uma família composta por Francisco Pereira da Silva, Maria Pereira Lima e três filhos menores de idade, entra na justiça para solicitar verbas rescisórias – férias, 13o salário e aviso prévio – da Fazenda Santa Isaura, no distrito de Guatapará, em Ribeirão Preto, após serem demitidos. Além disso, Maria pede equiparação salarial com o Francisco.
Na simplificada ficha de abertura do processo feita pelo Sindicato do Trabalhadores Rurais de Ribeirão Preto, o advogado chega a pontuar que a demanda por equiparação ao salário do marido é “(...) seu desejo (...) face as condições de trabalho”. O marido recebia Cr$500,00, Maria Cr$300,00, e cada filho Cr$280,00. A defesa, assinada pelo advogado da reclamada, contesta:
Quanto à equiparação salarial requerida pela Rte. Maria Ferreira Lima é indevida, posto que, seu trabalho era de menor rendimento do que o realizado pelo marido, tendo em vista que o trabalho no campo exige muito da força física e, além do mais, ela trabalhava esporadicamente, pois tinha que se ater as ocupações do lar.
Sem apresentar informações sobre a produtividade e assiduidade de cada trabalhador, a defesa apenas parte do pressuposto de que nenhuma mulher seria capaz de realizar trabalho físico semelhante ao de nenhum homem, ignorando a notória variabilidade de constituição física em ambos os sexos. Amparando-se em argumentos de ordem biológica, também enuncia o papel social conferido a Maria: as ocupações do lar, que justificariam, inclusive, o pagamento de um salário abaixo do mínimo vigente no período, de Cr$415,20.
Ainda que o endereço dos reclamantes conste como o da própria fazenda, a defesa afirma que as alegações são “inverídicas, infundadas e imaginosas”, na medida em que reclamantes seriam apenas diaristas e que teriam, por vontade própria, rescindido o contrato. Além disso, enfatiza que o único que recebia ordens da reclamada era o patriarca, para distribuição de serviços, denotando em sua argumentação que a responsabilidade da empregadora seria apenas perante