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2.2 SISTEMA BRASILEIRO DE PROTEÇÃO DOS DIREITOS AUTORAIS: UM LONGO CAMINHO

2.2.2 A proteção autoral brasileira infraconstitucional

2.2.2.2 A Lei n.º 5.988, de 14 de dezembro de 1973

Após algumas tentativas infrutíferas de criar um Código Nacional de Direitos de Autor e Direitos Conexos o Ministro da Justiça, Mem de Sá, designou o Desembargador Milton Sebastião Barbosa para criá-lo. Da nomeação resultou na confecção de um Anteprojeto com 351 artigos. Posteriormente foi nomeada uma Comissão Revisora do Projeto, pelo então Ministro da Justiça Luiz Antônio da Gama e Silva, composta pelo Ministro do STF Cândido da Mota Filho, Desembargador Milton Sebastião Barbosa e o Dr. Antônio Chaves. Entre várias discussões e nenhum acordo, foram apresentados dois novos projetos. Um, do Ministro do STF, considerado mais conservador, pois mantinha os critérios tradicionais previstos na antiga legislação cível. Outro, mais inovador, apresentado pelos outros membros da comissão. Ante a indecisão, o Dr. José Carlos Moreira Alves é encarregado da elaboração de um novo projeto, que acabou por se tornar um simples projeto de lei, e que foi transformado na Lei n.º 5.988/73.

Quase totalmente revogada pela LDA atual, a Lei n.º 5.988/73 foi o segundo diploma jurídico específico a regular os direitos autorais. Atualmente somente estão em vigor os par. 1º e 2º do art. 17, que trata do registro de obras intelectuais.

Esta legislação foi considerada inovadora em relação ao previsto na seara civil. Segundo Caldas Barros:

A preocupação com o primor legislativo já se percebe no quarto artigo da lei, em que se relacionam conceitos de 12 termos e expressões atualmente importantes em sede de direitos autorais, desde a publicação, editor, contrafação até transmissão,

fonograma, produtor cinematográfico, produtor fonográfico, artista, videofonograma etc. o mesmo se dá em relação aos tipos de obras intelectuais […].63

Allan Souza, com apoio nos ensinamentos de Bittar, afirma que:

A legislação, fortemente influenciada pela lei francesa de 1957, considerada universalmente como a de mais alto grau de proteção conferida aos titulares, promoveu diversos avanços, superando os obstáculos jurídicos e preenchendo as lacunas de nosso ordenamento, no que se refere à matéria. A versão promulgada constitui-se de 134 artigos, divididos em 9 títulos, e entres os aspectos positivos […] pode-se destacar: (a) a sistematização, concentração e atualização da matéria, inclusive os direitos conexos; (b) o estabelecimento, reconhecimento e diferenciação dos dois planos de direitos, o moral e o patrimonial, conferindo-lhes regulamentação própria; […] Como aspectos negativos podemos apontar a inclusão do Direito de Arena concedido à entidade vinculadora e não ao atleta […].64

Em virtude do art. 673 do antigo diploma civil, que trazia a previsão do registro como requisito para o reconhecimento do direito de paternidade da obra, a novel legislação trouxe, em seu art. 17, a possibilidade de registro da obra como forma de dar uma maior publicidade ao autor, posto que segundo os arts. 12 e 13, bastava a simples identificação do autor na sua obra para caracterizar a respectiva autoria.

Traz também, em seu art. 116, a criação do CNDA, como sendo o órgão de fiscalização, consulta e assistência, no que diz respeito a direitos de autor e direitos que lhes são conexos. Sua organização somente veio a ocorrer em 1975, com o Decreto n.º 76.275.

O CNDA foi extinto pela Lei n.º 8.028, de 1990, assinada pelo então presidente Fernando Collor de Mello, ao reestruturar a organização da União, por intermédio de seus Ministérios e Secretarias.

Uma das mais importantes inovações do CNDA foi a implementação de um Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD). Allan Souza leciona que:

Mesmo extrapolando os seus atributos legais, o CNDA em 1976 instituiu normas determinando a extinção das sociedades arrecadadoras e a concentração da cobrança e distribuição dos direitos em um escritório central para o ano de 1977. Após questionamentos jurídicos, determinou-se o prazo para submissão dos estatutos elaborados pela associações arrecadadoras […] para conformação do ECAD. 65 A instituição do ECAD é considerada, assim, de fundamental importância para o desenvolvimento dos direitos de autor em nosso país, mas saliente-se que sua atuação restringe-se ao campo musical, não englobando, por exemplo, a cobrança de direitos de autor nas obras literárias, cuja fiscalização é feita normalmente pelos próprios autores.

63 BARROS. Idem, p. 495. 64 SOUZA. Idem, p. 47 65 SOUZA. Idem, p. 49.

Contrariamente ao seu desenvolvimento a Lei n.º 5.988/73, em seu art. 93, instituiu a cobrança de direitos autorais sobre as obras caídas de domínio público, num claro retrocesso jurídico, posto que passa a reconhecê-las como patrimônio estatal, em confronto direto aos preceitos da União de Berna, do qual nosso país é signatário.

É patente a obrigação do Estado em proteger as obras caídas em domínio público, até mesmo com o fito de permitir que elas continuem com tal natureza. Mas daí a instituir um regime de tarifação pela sua utilização consiste num temeroso retrocesso, que novamente privilegia o campo patrimonial da proteção jurídica autoral, e pior, nem mesmo atribuindo tais direitos ao autor original da criação.

Um dos principais motivos para a existência do domínio público é a possibilidade de utilização das obras, após seu uso pelo próprio autor, como mecanismo de promoção da cultura e desenvolvimentos sociais. Adoção da cobrança lançava por terra todos os avanços alcançados após décadas de discussões. Assim é que, em virtude das veementes críticas sofridas e dos intensos debates acerca da validade de tal imposição legal, surge a Lei n.º 7.123/83, extinguindo o domínio público remunerado.

Além da falta de divulgação da legislação de 1973, de sua não harmonia com a regulamentação internacional e da ambiguidade implementada no plano interno, o próprio autor do anteprojeto, Antonio Chaves, citado, por Allan Souza, credita o mais grave problema em tal legislação no fato de “que a mesma não conseguiu definir um critério para a distribuição dos direitos patrimoniais, ponto básico, nuclear, fundamental […] a razão da própria lei” 66.

Novamente encontramos nesta passagem um momento histórico que comprova quanta importância foi dada, no decorrer de nossa história, ao aspecto econômico do direito da propriedade intelectual, em especial nos direitos autorais.