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A liberdade como valor primordial e o Estado Mínimo

No documento LIVRO DIDÁTICO - Ciencia Politica (páginas 162-165)

O Estado Constitucional e

12.2 O Estado Constitucional de Direito e sua gênese com o Estado Liberal

12.2.2 A liberdade como valor primordial e o Estado Mínimo

Sob a égide do individualismo inspirado na Ilustração do século das Luzes e rejeitando o Estado de Polícia de privilégios estamentais do Estado Absoluto, o Estado Liberal fixou um modelo de estatalidade mínima garantidora apenas da igualdade formal, ou seja, todos são iguais perante a lei.

Estamento - O conceito de estamento e de casta foi desenvolvido por Max Weber. São os estratos sociais de sociedades sem mobilidade social e que tem um tipo de divisão social fundada em honras, status e prestígios. Nestas socie- dades, o pertencimento a um específico estrato social determina o tipo de pri- vilégio a se ter em relação a outro indivíduo que faz parte de outro estamento. Utilizando-se da sociedade indiana como exemplo, Max Weber, considera as castas como um caso extremado dos estamentos.

Plasmada nesta ideia de Estado Mínimo, a ideologia liberal se atrelou ape- nas ao catálogo de direitos de participação política e aos círculos de liberdades do indivíduo, aí incluída a livre iniciativa e a propriedade. São os chamados di- reitos políticos e civis.

Não se pode falar ainda em direitos sociais e trabalhistas. Aliás, o traba- lho humano era percebido como simples mercadoria e o desemprego como mera fatalidade estrutural do capitalismo. Como bem afirmou Paulo Afonso Linhares, o radicalismo da burguesia fez sacrificar os outros direitos da liber- dade no altar da chamada livre iniciativa. Neste sentido, o próprio trabalho hu- mano passou a ser tido como mercadoria e, como tal, objeto de exploração por parte dos detentores do capital.

Tais direitos protetores das relações produtivas e ligados à previdên¬cia e assistência sociais, ao transporte, à moradia, ao lazer etc. somente irão emergir a partir do fim da Primeira Guerra Mundial com os adventos da Constituição de Weimar e do Tratado de Versalhes, em 1919, embora já influenciados por um forte ideário construído no século XIX (ideias socialistas, comunistas, anar- quistas etc.).

Constituição de Weimar foi oficialmente a Constituição do Império Alemão entre 1919 e 1945. A Constituição declarou a Alemanha como uma república democrática parlamentar. Ela tecnicamente permaneceu em vigor durante toda a existência do Terceiro Reich de 1933-1945. É citado como um documento emblemático na área dos direitos sociais.

O Tratado de Versalhes (1919) foi o tratado de paz assinado pelas potências europeias encerrando a Primeira Guerra Mundial de forma oficial. O principal ponto do tratado determinava que a Alemanha aceitasse a responsabilidade de ter dado causa à Guerra, e, por via de consequência, providenciasse a reparação a algumas das nações que contra ela lutaram.

Nessa linha de raciocínio, Bolzan de Morais mostra a história da passagem da “estatalidade mínima” para a “estatalidade positiva” necessária para aten- der aos movimentos operários na questão Social, demonstrando que são os di- reitos relativos às relações de produção e seus reflexos (previdên-cia e assistên- cia sociais, transporte, salubridade pública, moradia etc.) que vão impulsionar a passa¬gem do chamado Estado Mínimo para o Estado Social de caráter inter- vencionista - que passa a assumir tarefas até então próprias ao espaço privado através de seu ator principal: o indivíduo.

Por conseguinte, o modelo do Estado Liberal deve ser associado ao Estado Mínimo e às liberdades individuais, na medida em que não se preocupa com a busca da igualdade material e nem com a proteção dos hipossuficientes. Na verdade, ele não reconhece os direitos sociais como verdadeiros direitos fundamentais.

Em consequência, o chamado núcleo essencial do Estado Liberal é o rol de direitos civis e políticos, considerados componentes da primeira dimensão (para alguns, gerações) dos direitos fundamentais. Em síntese, o paradigma Liberal só reconhece como direitos públicos subjetivos as liberdades individu- ais e os direitos políticos (direito de votar, ser votado e de participar da vida política do Estado).

Com efeito, a tutela dos direitos individuais não exige a ação positiva do Estado, daí a designação de Estado Burguês de Direito (expressão utilizada por Carl Schmitt) para caracterizar o constitucionalismo liberal, marco de um

Estado Mínimo, no qual prevalece a vontade da autonomia privada.

Somente com o advento do chamado Welfare State (Estado do Bem-estar so- cial) é que surgirá a necessidade de programar políticas públicas voltadas para a busca da igualdade material e da garantia da dignidade da pessoa humana. Lenio Luiz Streck salienta o deslocamento que ocorre na passagem do Estado Liberal, cujo centro de decisão apontava para o Legislativo (o que não é proibi- do é permitido, direitos negativos) para o Estado Social, cuja primazia ficava com o Executivo, em face da necessidade de realizar políticas públicas e susten- tar a intervenção do Estado na economia. Todavia, no Estado Democrático de Direito, o foco de tensão se volta para o Judiciário.

Portanto, de tudo se vê que o Estado Liberal burguês, implantado revolucio- nariamente para atender aos anseios da classe econômica em ascensão, teve sua base de sustentação no binômio “estatalidade mínima – supremacia da au- tonomia privada”.

Em nome das liberdades individuais, limita-se o poder estatal, seja na es- fera interna pela separação de poderes, seja no plano extremo pela concepção de estatalidade mínima. Enfim, o Estado Liberal de Direito nasceu atrelado aos valores e interesses da burguesia, que, fazendo uso deste tipo de Estado Constitucional logrou, obter a conquista do poder político e do poder econômi- co, que já detinha desde a fase pré-revolucionária.

Em um esforço sintético, podemos resumir o Estado Liberal com as seguin- tes considerações:

a) no âmbito da evolução social do Estado, o Estado Liberal simboliza o grande momento de transformação, no qual ocorre a passagem do Estado Absoluto para o Estado Constitucional (Estado de Direito);

b) é o colapso do absolutismo que cria as condições de possibilidade de implantação do Estado de Direito, calcado na separação de poderes e na ga- rantia dos direitos civis e políticos, sob a égide de uma Constituição, rígida e escrita, com supremacia sobre todos;

c) o Estado Liberal gesta a primeira geração de direitos, caracterizada pe- los direitos civis e políticos, ou seja, um catálogo de direitos negativos, que bus- ca a igualdade formal de todos perante a lei, sem preocupação com a proteção dos hipossuficientes;

d) sob o prisma do Estado Liberal, vigora a prevalência das liberdades in- dividuais sobre as razões de Estado, daí o binômio caracterizador do liberalis- mo “Estado Mínimo-Supremacia da autonomia privada”;

e) sob a ótica do Estado Liberal, o modelo individualista-liberal-burguês consagra o princípio da igualdade formal perante a lei, ou seja, o tratamento igual de desiguais.

Diante de todas essas características, o Estado Liberal entra em crise, le- vando o Estado Constitucional a um novo paradigma. Essa é a nossa próxima temática.

12.3 O Estado Social: o Welfare State e a

No documento LIVRO DIDÁTICO - Ciencia Politica (páginas 162-165)