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1.7 O SER ESPIRITUAL E A LIBERDADE

1.7.3 A liberdade do espírito

capaz de contemplar o eterno, o absoluto, vai se formando, na medida em que atualiza seu conhecimento e o aprofunda; logo, a razão, parte mais elevada do espírito, ao contemplar, pode sair da situação de inferioridade (mal) para as formas mais elevadas, eternas e divinas.

Poder-se-ia objetar a Jonas que conhecimento do que é bom, do que é certo, a humanidade já o possui. Temos grandes conhecimentos. Sabemos o que se deve realizar pelo conhecimento, mas, mesmo assim, não se realiza. Aqui entra então o livre-arbítrio, mas especialmente a capacidade humana de conseguir exercer sua racionalidade elevando-se para o que é o mais alto, o mais absoluto. No dizer de Jonas: “A existência da interioridade no mundo, como dizíamos, e com ela também a evidência antrópica da razão, liberdade e transcendência, são dados cósmicos”

(1998, p. 233).

A vida surgiu dotada de interioridade, interesse e vontade finalista desde a matéria universal, a essência desta não pode ser de todo estranha a estas características, e se não a sua essência, então [...]

tampouco a sua origem: à matéria, que se constituiu como estalo originário já lhe devia ser inerente a possibilidade da subjetividade;

uma dimensão de interioridade em estado latente, que esperava a oportunidade cósmica exterior para fazer-se manifesta (JONAS, 1998, p. 234).

Torna-se patente perceber que todas essas questões nos levam além de uma filosofia da natureza. Mas isso não nos impele a ter que supor uma inteligência vidente no princípio de toda a vida e de todos os seres ou mesmo alguma “tarefa”

que caberia ao ser humano realizar. “Resumindo, o testemunho da vida, incalculavelmente importante para a ontologia, segue sendo uma voz da imanência que fala a partir de si mesma” (JONAS, 1998, p. 235).

Mesmo assim, cabe a pergunta: se o espírito pode surgir de um ser não-espiritual? Não se está interrogando pela primeira causa dos seres?

Não se pode negar que o espírito possa surgir do não-espiritual e que de fato o faz, como podemos ver em certa maneira diariamente com nossos próprios olhos na ortogênese humana (e como postulamos na filogênese): no embrião se forma o cérebro, o futuro portador físico do espírito, sob a direção exclusivamente físico-química do genoma; uma disposição puramente material em germe, que contém sem saber a informação para o processo de desenvolvimento e que faz seu trabalho igualmente sem saber.

Neste processo não há espírito algum (JONAS, 1998, p. 235).

Como, então, nasce o espírito?

Só o futuro portador potencial do espírito é criado no espírito mesmo.

Este surge só e unicamente da comunicação no princípio totalmente receptiva e logo na medida crescente recíproca do recém-nascido com sujeitos espirituais já existentes, isto é, os adultos que o rodeiam, e se comunicam com ele. Sem um entorno de linguagem que se dirige a ele, o jovem animal humano, ainda que sobreviva fisicamente, não se converteria em um ser humano. [...] O espírito é algo que se deve aprender de outro espírito existente. Só no trato com este surge o novo espírito, que se serve do cérebro geneticamente preparado como instrumento, e só por meio do progressivo uso deste termina também o crescimento deste instrumento físico mesmo, que, sem ser usado, fica atrofiado ou, melhor dito, nem sequer amadureceria para poder ser usado. Desse modo, com o nascimento, com o sair ao mundo, começa uma nova ontogênese de informação espiritual que se sobrepõe à ontogênese física do feto (JONAS, 1998, p. 235-236, nota 24).

Defrontamos-nos com uma transmissão externa, que vem através de uma carga material. Mas deve ficar claro que o espírito é mais do que a matéria e a vida.

A matéria carrega em si o espírito adormecido e a causa criadora deste espírito não pode ser um espírito sem ânimo, sem existência. Esta situação diferencia-se, e muito, da vida e da subjetividade que podem se iniciar em estado dormente e inconsciente e naturalmente vão se desenvolvendo. Isto nos leva

à auto-experiência do espírito e especialmente ao estender-se do pensamento ao transcendente. Leva-nos ao postulado de algo espiritual, transcendente e supratemporal na origem das coisas, que deve ser a causa primeira (JONAS, 1998, p. 237).

Mas também não sabemos se há somente uma causa ou várias causas para o surgimento do espírito. Religiosamente se admite a dignidade humana como sendo o que lhe dá superioridade, pois foi ‘criado à imagem e semelhança de Deus’.

Mas esse orgulho se destrói a si mesmo, à medida que a traição feita a essa imagem é maior do que a fidelidade que se tem com Deus. Essa questão do antropomorfismo só pode ser trabalho e estudo da teologia e não da filosofia.

A matéria é dotada de espírito, porque, no momento propício para o aparecimento deste, ela admitiu que aparecesse. Pois algo só pode ser real, porque é possível. Uma ciência natural, porém, embora possa admitir que ocorra a encarnação do espírito, ela não pode explicar como isto ocorre.

Devemos partir da criação (ou do surgimento) de uma matéria originária ainda carente de espírito, porém dotada com possibilidade de espírito. E esta possibilidade, como dissemos, deve ser mais que o mero dar lugar, mas que a compatibilidade vazia, que requer uma intervenção ulterior e continuada de uma causa exterior que proporcionaria o espírito. [...] A primeira causa criadora do espírito deve ser ela mesmo espírito, porém que se abstém posteriormente de intervenções no decorrer da história do mundo. [...] não se pode incorporar um logos desta índole como informação na matéria originária, porque o caos careceria de toda estabilidade e articulações necessárias para poder ser portador de semelhante informação. O que mais podemos conceder como dote originário à matéria, enquanto uma possibilidade ativa do espírito é um eros cosmogônico orientado até o espírito, porém sem prevê-lo. Todo o demais devia deixar à mercê da dinâmica interna dessa matéria (JONAS, 1998, p. 243-244).

Assim sendo, pode-se concluir que o espírito de Deus renunciou a seu poder em favor da autonomia cósmica e suas oportunidades. Por isso o espírito se auto-aliena de um modo mais profundo do que se possa imaginar racionalmente. “O espírito se entregou a si mesmo e a seu destino, plenamente, ao estado em deriva, expandindo-se até fora” (JONAS, 1998, p. 248). O ser criado não pode também criar sua antítese, a morte. Ela é decorrente da própria expansão do espírito que, desejando experimentar a multiplicidade de suas possibilidades, se tornou fruto da própria divindade espiritual.

Um universo imenso, sem a intromissão de um poder divino, pode experimentar suas diversas possibilidades, para que, em algum momento e em algum lugar, surgisse o próprio espírito como sendo intenção do próprio criador.

“Tinha que criar um universo imenso e deixar dentro dele seu livre curso ao finito”

(JONAS, 1998, p. 249).

O espírito só pode surgir da vida orgânica e existir sustentado por esta, [...] que o sentir da alma animal seria de todo imanente à matéria e que só o pensar do espírito transcendente se explicaria a partir de um espírito entendido como sua causa primeira e criadora.

Portanto, o fundamento criador originário, se queria o espírito, também tinha que querer a vida, como diz o famoso predicado de Deus que os Judeus recitam tantas vezes em oração: ele que queria a vida. [...] assim, podemos falar até certo ponto da santidade da vida, ainda que nela possam ocorrer atrocidades (JONAS, 1998, p.

249).

Como seres humanos, somos os únicos dotados de espírito, tal como o conhecemos na terra, porque portadores de conhecimento pensante e capazes de

atuar com livre-arbítrio, um atuar que se direciona com a luz do conhecimento. É ele o ser querido do espírito neste fluir do devir e, por outra, a renúncia desse mesmo espírito originário, para que pudéssemos agir, atuar como espíritos finitos. Por isso o destino espiritual está sob nossa responsabilidade. Somos nós que temos condições de fazer a criação triunfar ou não.

Tudo depende do ser. Temos que vê-lo e escutá-lo. O que vemos é o que abarca os testemunhos da vida e do espírito; testemunho contra a teoria de uma natureza alheia a valores e metas. O que escutamos é a chamada do bem que temos visto, sua pretensão inerente à existência. Nosso poder vai escutar nos convertendo em destinatários da chamada de seu preceito de reconhecer o ser e, portanto, em sujeitos de um dever frente a ele. [...] O dever, que sempre existiu, se intensifica e concretiza com o crescimento do poder humano por meio da técnica, que se converte em perigo para toda a morada da vida aqui na terra (JONAS, 1998, p. 250).

Fica claro que não é Deus que pode nos ajudar, mas somos nós que podemos e devemos ajudar a Deus.

Quero ajudar-te, Deus, para que não me abandones, porém de antemão não posso dar garantias de nada. Só uma coisa me resulta cada vez mais clara: que tu não podes ajudar-nos, senão que nós devemos ajudar-te a ti, e dessa maneira finalmente nos ajudar a nós mesmos. É o único que importa: salvar em nós um traço de ti, Deus...

Sim, meu Deus, não parece que possas mudar muito as circunstâncias... Não te peço nenhuma justificação; serás tu que mais tarde nos pedirá justificações. Com cada batida do coração, compreendo mais claramente que não podes ajudar-nos, senão que devemos ajudar-te a ti e defender tua morada dentro de nós até o último momento (JONAS, 1998, p. 251).

Toda essa reflexão de Jonas sobre Deus e o surgimento do espírito não pode ser tomada como dogma. O que faz Jonas são interpelações à própria razão, de que as ciências naturais exigem respostas, mas estas só podem ser fornecidas por uma metafísica. A metafísica tem condições de refletir situações não-demonstráveis, mas que precisam ser elucidadas pela própria razão.

Mesmo que admitíssemos ou até mesmo que existissem vidas em outros planetas ou lugares, devemos ter presente que nossa responsabilidade em nada diminuiria e nem mesmo ela poderia fazer algo por nós. Somos os únicos responsáveis por este planeta e pelo que fazemos com ele. Por isso nesta questão podemos dizer que estamos sozinhos.

Ocupemo-nos de nossa terra. Não importa o que possa haver aí fora, porque nosso destino se decide aqui e com ele a porção da aventura da criação que está vinculada a este planeta, à porção que tem levado nossas mãos e a que podemos cuidar ou atraiçoar. Cuidemos dela como se realmente fôssemos únicos no cosmos (JONAS, 1998, p. 258).

Com o avanço da técnica e do conhecimento, especialmente na área da biologia molecular, da programação genética, urge a necessidade de uma reflexão moral, com base numa metafísica do ser humano. Isso porque nessa reflexão genética não há uma imagem válida de ser humano, como também os usos das técnicas que lhes estão disponíveis são carentes de um uso responsável (cf.

JONAS, 1997, p. 30).

O grande desafio que se apresenta agora é pensar no humanamente desejável, no que escolher, na imagem do homem que será uma maior necessidade do que se possa imaginar. A técnica está submetida ou deve estar submetida à ética, porque resulta do poder humano. E tudo o que resulta da ação humana deve estar sob o olhar da ética. Em geral, toda capacidade é boa e só torna-se má, à medida que é abusada em sua capacidade de uso. De quanto mais poder pode dispor o ser humano, maior é o chamado de sua responsabilidade e maior é sua responsabilidade diante o que faz e usa.