2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
5.2 A LIBERDADE SINDICAL COMO DIREITO FUNDAMENTAL
Inicialmente, utilizar-se-á a definição adotada por Arion Sayão Romita no
que trata de Direito Fundamental:
[...] pode se definir direitos fundamentais como os que, em dado momento histórico, fundados no reconhecimento da dignidade da pessoa humana, asseguram a cada homem as garantias de liberdade, igualdade, solidariedade, cidadania e justiça. Este é o núcleo essencial da noção de direitos fundamentais, aquilo que identifica a fundamentalidade dos direitos. Poderiam ser acrescentadas as notas acidentas de exigência do respeito a essas garantias por parte dos demais homens, dos grupos e do Estado e bem assim a possibilidade de postular a efetiva proteção do Estado em caso de ofensa. 146
Quanto à liberdade sindical como direito fundamental, explica José
Francisco Siqueira Neto:
Conforme sensível constatação, a liberdade sindical se concilia com a tradição dos direitos fundamentais dos homens. A liberdade sindical é, na verdade, um dos direitos fundamentais do homem, integrante dos direitos sociais, componente essencial das sociedades democrático-pluralistas. 147
Corroborando os ensinamentos expostos, Gilberto Stürmer coloca:
Discute-se o Constitucionalismo de valores e os mecanismos de concreção da razoabilidade e da proporcionalidade, a efetividade das normas constitucionais, em geral, e dos direitos sociais, em especial. Ainda, no que diz respeito à construção e à dogmática dos direitos na Sociedade através do seu órgão máximo de representação e de cidadania: o sindicato. Nesse
145
SUSSEKIND, Arnaldo. Direito constitucional do trabalho. 3. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, p. 364.
146
ROMITA, Arion Sayão. Direitos fundamentais nas relações de trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 2009, p. 50.
147
NETO. José Francisco Siqueira. Liberdade sindical e representação dos trabalhadores nos
contexto, há de se inserir o direito à liberdade sindical (seja no plano individual, seja no plano coletivo), nos chamamos direitos de segunda dimensão, já examinados. 148
Túlio de Oliveira Massoni apresenta sinteticamente a evolução histórica
acerca da liberdade sindical como direito fundamental na história:
As principais declarações internacionais de direitos humanos incluem, em maior ou menor extensão, a liberdade sindical como um direito humano fundamental. A declaração da ONU de 1948, em seu parágrafo quarto do art. 23, declara que ‘todo o homem tem direito a organizar sindicatos a neles ingressar para a proteção de seus interesses’. O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966, em seu art. 22, contempla a liberdade sindical. O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais trata de maneira pormenorizada do tema em seu art. 8º e se reporta ao texto da Declaração das Nações Unidas de 1948. 149
A convenção n. 87 da OIT prevê em seus artigos várias garantias
fundamentais, vislumbra-se que esta convenção não foi ratificada pelo Brasil,
todavia, para iniciar-se o estudo, destaca-se novamente o art. 2º desta convenção.
150
Os trabalhadores e os empregadores, sem distinção de qualquer espécie, têm o direito de, sem autorização prévia, constituir organizações de sua escolha, assim como o de filiar-se a essas organizações, sob a única condição de se observarem os estatutos das mesmas. 151
Neste sentido, explica Gilberto Stürmer:
Sendo, portanto, o direito à liberdade um direito fundamental, tratando a Convenção 87 da liberdade sindical e, sendo, ainda, a referida convenção um documento internacional, efetivamente trata de direitos humanos. A já referida Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de dezembro de 1948 é, neste prisma, um documento internacional que trata de direitos humanos. O artigo XXIII, no parágrafo 4, dispõe que ‘todo homem tem direito a organizar sindicatos e a eles ingressar para proteção de seus interesses’. 152
148
STÜRMER, Gilberto. A liberdade sindical na Constituição da República Federativa do Brasil
de 1988 e sua relação com a Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho. Porto
Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2007, p. 53.
149
MASSONI, Túlio de Oliveira. Representatividade Sindical. São Paulo: LTr, 2007, p. 59.
150
MARTINS, Sergio Pinto. Fundamentos de direito do trabalho. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2004, p. 153.
151
Artigo 2º da Convenção n. 87de 17.06.1948 da Organização Internacional do Trabalho.
152
STÜRMER, Gilberto. A liberdade sindical na Constituição da República Federativa do Brasil
de 1988 e sua relação com a Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho. Porto
No Brasil, no artigo 5º da Constituição da República Federativa do Brasil
de 1988 estão assegurados os direitos fundamentais, verifica-se o inciso XVII:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
[...]
XVII - é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar; 153 (grifamos)
E em seu artigo 8º:
Art. 8º É livre a associação profissional ou sindical, observado o seguinte: I - a lei não poderá exigir autorização do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao Poder Público a interferência e a intervenção na organização sindical;
II - é vedada a criação de mais de uma organização sindical, em qualquer grau, representativa de categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, que será definida pelos trabalhadores ou empregadores interessados, não podendo ser inferior à área de um Município;
III - ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas; IV - a assembléia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei;
V - ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato;
VI - é obrigatória a participação dos sindicatos nas negociações coletivas de trabalho;
VII - o aposentado filiado tem direito a votar e ser votado nas organizações sindicais;
VIII - é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o final do mandato, salvo se cometer falta grave nos termos da lei.
Parágrafo único. As disposições deste artigo aplicam-se à organização de sindicatos rurais e de colônias de pescadores, atendidas as condições que a lei estabelecer. 154
Neste sentido, explica Arion Sayão Romita:
153
BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Presidência da República
Federativa do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 05 out. 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm>. Acesso em: 09 jun. 2010.
154
BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Presidência da República
Federativa do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 05 out. 1988. Disponível em:
Consagra a Constituição, de forma incompleta, o princípio de liberdade sindical. Sem dúvida, ela o acolhe nas versões de autonomia sindical e de liberdade individual (direito de não filiação), mas o repele em outros aspectos. A expressão liberdade sindical, possui várias acepções. Engloba na realidade, várias liberdades, ou um feixe de liberdades. Ela interessa: 1º - ao indivíduo; 2º - ao grupo profissional; 3º - ao estado. Estão em jogo liberdades do indivíduo em face do grupo e vice-versa e do grupo em face do Estado. [...] 155
Com efeito, denota-se que, conforme supra mencionado, a Constituição
da República Federativa do Brasil, através do seu artigo 8º, garante ao individuo a
possibilidade de filiar-se ao estabelecer que “é livre a associação profissional ou
sindica...”, conseqüentemente, em seu inciso V, estabelece com clareza que
“ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato”.
Pelos doutrinadores essa garantia constitucionalmente assegurada é o
que chamam de liberdade sindical, todavia, não exercida de forma plena através da
limitação imposta pelo art. 8º, II, também da Constituição da República Federativa do
Brasil.
Ainda assim, explica José Francisco Siqueira Neto em relação aos
tratados e pactos ratificados pelo Brasil à nossa Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988, que deveriam assegurar com maior efetividade a
liberdade sindical:
A Constituição Federal vigente no país, por intermédio do artigo 4º, inciso II, estabelece que a República Federativa do Brasil rege-se, nas suas relações internacionais, pelo princípio da prevalência dos direitos humanos. O §2 do artigo 5º confere plena vigência aos direitos e garantias decorrentes dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. 156
Incompreensivelmente o Brasil ratificou o Pacto Internacional dos Direitos
Econômicos, Sociais e Culturais, aprovado pela ONU em 1966, onde, em seu artigo
8º repetem, sinteticamente, as normas estabelecidas na Convenção n. 87 da OIT
quanto às garantias sindicais, ou seja, apesar de o Brasil não ratificar esta
Convenção que estabelece delineadamente a liberdade sindical, ainda assim
155
ROMITA, Arion Sayão. Direitos fundamentais nas relações de trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 2009, p. 351.
156
NETO. José Francisco Siqueira. Liberdade sindical e representação dos trabalhadores nos
ratificou o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais que
institui semelhantemente o que a Convenção n. 87 da OIT estabelece.
157Torna-se mais claro com a explicação de Arion Sayão Romita:
Realmente, ratificação é o ato pelo qual o Poder Executivo, autorizado pelo órgão competente segundo a legislação interna, declara que o tratado deve produzir no país seus devidos efeitos. O tratado, por força da ratificação, incorpora-se à legislação interna. O fato da ratificação equivale à adoção de normas jurídicas internas iguais às estipuladas pelo tratado. 158
Neste sentido, a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988,
em seu art. 5º, §2º estabelece “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição
não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos
tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte”.
159Arnaldo Süssekind coloca:
[...] Por uma questão de coerência e lógica jurídica, esse princípio não pode ser invocado para tornar ineficaz preceito expresso da própria Constituição. Se tal pudesse verificar-se, a revisão de diversos dispositivos constitucionais poderia efetivar-se mediante simples aprovação e ratificação de tratados bilaterais, regionais ou universais. 160
Com efeito, José Francisco Siqueira Neto assevera:
De acordo com percuciente análise, pode-se dizer que o Brasil reconhece a inaplicabilidade, para si, em matéria de direitos humanos, do princípio da ingerência em assuntos internos. A proteção dos direitos fundamentais do homem é, por conseguinte, considerada assunto de legítimo interesse internacional, pelo fato de dizer respeito a toda a humanidade. 161
Por fim, denota-se com clareza que o Brasil apesar da tentativa frustrada
de garantir a liberdade sindical, inclusive com a ratificação de pactos internacionais e
157
SUSSEKIND, Arnaldo. Direito constitucional do trabalho. 3. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, p. 364.
158
ROMITA, Arion Sayão. Direitos fundamentais nas relações de trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 2009, p. 352.
159
BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Presidência da República
Federativa do Brasil. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 05 out. 1988. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituiçao.htm>. Acesso em: 09 jun. 2010.
160
SUSSEKIND, Arnaldo. Direito constitucional do trabalho. 3. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, p. 366.
161
NETO. José Francisco Siqueira. Liberdade sindical e representação dos trabalhadores nos