A Linguística e o memeplexo: práticas de produção e distribuição

No documento Jaime de Souza Júnior (páginas 42-49)

Esquema 2 – Princípios constitutivos do processo de propagação de fenômenos

1 MEMÉTICA, MÍDIAS E LINGUÍSTICA

1.3 A Linguística e o memeplexo: práticas de produção e distribuição

27 De acordo com nossa pesquisa bibliográfica, o termo também aparece registrado em Monteiro (2011). No entanto, a autora não aparenta separar as formas de propagação desses fenômenos ocorridas em meios da imprensa tradicional (menções direcionadas por jornais, programas de Tv, etc.) daquelas ocorridas de modo colaborativo na Web, como Souza Júnior (2013b) propôra.

28 Ao apontar, por exemplo, que Memes Miméticos sejam governados majoritariamente pelo critério da “fidelidade” a taxonomia de Recuero (2006) não indica, por sua vez, qual seria a função dos outros dois critérios apontados por Dawkins (1979) em sua postulação original, ou seja: como, por exemplo, compreender a fidelidade e a longevidade dos Memes Epidêmicos? Dawkins postulara 3 critérios para o reconhecimento de um meme internalista. Os “memes” que Recuero sugere só apresentam 1 critério que os classifique, ou os saliente. Esse aspecto impede que, do ponto de vista da Memética, a proposta em questão dê conta de explicar a propagação daquilo que chamamos de fenômenos meméticos, uma vez que estes reúnem, ao mesmo tempo, diversos critérios que Recuero (2006) coloca em partes separadas.

A partir desta seção, em primeiro lugar, objetivamos apresentar ao leitor os pontos de associação entre o Paradigma Externalista da Memética (DENNETT, 1995; BLACKMORE, 1999; 2002; TYLER, 2013b) e o Paradigma Funcionalista da Linguagem (HALLIDAY, 1987), como veremos. Com base em Dennett (1995, p. 347), a pergunta preliminar aqui é:

como um complexo de memes é transmitido, se levarmos em consideração seus aspectos linguísticos, localizando-nos a partir das redes sociais?; e como esse processo pode ser entendido a partir da existência dos paradigmas – da Memética e da Linguística – em questão?

1.3.1 Memeplexo e fenômenos meméticos: aspectos linguísticos-midiáticos

É comum os termos memes, meme da Internet e fenômenos meméticos da Internet serem tratados na Web, e por estudiosos desta, como se fossem elementos semelhantes.

Todavia, “meme” (Dawkins, 1979), “meme da Internet” (BLACKMORE, 2002; TYLER, 2011b) e “fenômeno memético da Internet” (SOUZA JÚNIOR, 2013b) são terminologias que, do ponto de vista do tratamento científico do presente trabalho, não designam a mesma coisa.

O que entendemos é que o termo “meme” (DAWKINS, 1979) dá origem à sua expansão conceitual e também composicional denominada memeplexo linguístico-midiático.

Argumentamos, portanto, que esses termos suscitam fundamentações e interpretações epistemologicas diversas, tendo em vista o problema da unidade, o problema ontológico e o problema do fenótipo já apontados em 1.1.1. A seguir, explicitaremos nossa sugestão de entendimento do conceito de memeplexo, focando-nos na sua composição linguístico-midiática.

Em primeiro lugar, consideramos que, na Web, e, especificamente no âmbito das redes sociais, do ponto de vista conceitual e composicional, não temos exatamente um único

“meme” (DAWKINS, 1979), mas sim, um memeplexo, isto é, um “complexo co-adaptado de memes” (BLACKMORE, 2002). Esse complexo de memes da Internet29 seria o que chamaremos de um memeplexo linguístico-midiático30.

Nessa concepção, e a partir da perspectiva informacionalista de Tyler (2013b), sugerimos que as “informações” (alocadas em uma unidade de propagação) integrem um

29 Usado no plural para fazer referência às duas partes do complexo que o compõe: a parte linguística e a midiática, de acordo com esta pesquisa.

30 “Memeplexo” e “complexo de memes” serão termos sinônimos, a partir deste ponto.

entendimento no qual a linguagem, a partir de uma série de práticas que origina, sistematize a propagação de ondas de informação. Essas ondas são impulsionadas por uma série de práticas midiáticas, que se originam a partir das mídias digitais (provenientes da associação entre hardware e software). Autores como Fontanella (2009) sugerem outra possibilidade de abordagem31 nesse tocante.

Ao observar o processo de evolução de ondas de informação na Web, torna-se necessário que abordemos, em primeiro lugar, o que entendemos ser a dimensão interna de propagação de um complexo de memes.

Em face desse entendimento, diríamos que, no âmbito das redes sociais, em primeiro lugar, no processo de propagação do memeplexo são transmitidos e percebidos os usos/mecanismos de produção e distribuição de linguagem: a apropriação com base na dialogia32 (BAKHTIN, 1997), por exemplo, de expressões fixas, imagens e vídeos meméticos.

Tais usos ou mecanismos de linguagem seriam permeados pela recontextualização e/ou ressignificação, no sentido de Fairclough (2001), ocorrendo nas diversas dimensões linguísticas (seja de forma verbal e/ou multimodal). Dessa maneira, esses referidos tipos de usos e mecanismos é que são transmitidos em formas de práticas, as quais não atuariam separadas das práticas de produção e distribuição por mídia – veremos estas últimas ainda nesta seção.

Ainda no que se refere às práticas de produção e distribuição de linguagem, estas seriam compostas por dois aspectos essenciais ou faces. Essas referidas faces, como se convenciona em estudos linguísticos, teriam duas divisões, ou seja, uma face externa e outra interna. A face da forma/estrutura (ou face externa das práticas de produção e distribuição de linguagem) é aquela que nos mostraria de que maneira (neste estudo, em termos de estruturação verbal e/ou multimodal) as práticas são veiculadas ou dispostas na Web, tornando-se visualizáveis por meio de suas unidades de propagação. A face dos propósitos (ou face interna das práticas de produção e distribuição de linguagem) é indicada, por exemplo, a partir de unidades de informação semântico-discursivas tais como o Julgamento, a Apreciação33, etc. Tal face é aquela responsável pelas opções de “design” das práticas de

31 O autor sugere uma orientação de abordar a memesfera a partir dos “artefatos, práticas e arranjos sociais envolvidos”

(LIEVROUW e LIVINGSTONE, 2007 apud FONTANELLA, 2009). A diferença entre a nossa abordagem e a de Fontanella (2009) reside no fato de o autor (2009) considerar a existência dos referidos artefatos (para nós as unidades de propagação) como algo localizado fora do domínio das práticas e relacionado majoritariamente a um advento tecnológico favorável. O autor não parece encarar a existência de tais artefatos como resultado de práticas de produção e distribuição por mídia transmitidas por, e atreladas a demandas de práticas de produção e distribuição de linguagem.

32 O papel detalhado da dialogia, no processo em questão, pode ser conferido em Souza Júnior (2013b).

33 Julgamento e Apreciação são categorias semântico-discursivas existentes a partir de Martin e White (2005). Elas serão detalhadas no Capítulo 4. Dada a natureza semântico-discursiva dessas categorias, as “informações” ou propósitos que tais

linguagem, enquanto metade integrante da dimensão linguística do memeplexo em questão.

De uma perspectiva funcionalista (HALLIDAY, 1987), tal propósito é aquilo a que a face da forma se encontra atrelada/subordinada.

Do ponto de vista das analogias meméticas, as informações representadas pelas faces do propósito e a da forma/estrutura, alocadas e carregadas no interior das práticas de produção e distribuição de linguagem enquanto parte integrante do referido memeplexo, seriam análogas às “informações genéticas” (DNA) dessas práticas e, consequentemente, das unidades de propagação a que tais práticas dão origem. Uma vez propagadas nas redes sociais, as práticas de linguagem e suas faces colaboram para a transmissão de memes de natureza midiática.

Agora, referindo-nos ao ponto de vista da dimensão midiática do memeplexo em questão, juntamente com a unidade de informação semântico-discursiva das práticas de linguagem são transmitidas informações midiáticas através da junção de um hardware atrelado a softwares. Tais informações são reconhecidas nesta pesquisa como unidades de elaboração tecnológico-(multi)midiática. Essas informações midiáticas são percebidas em forma de usos ou mecanismos midiáticos, via um processo de “multimidialidade34” (SALAVERRÍA, 2003; PALACIOS, 2002) colaborativo e coletivo de transmissão (exclusivamente online – pela Internet –, inicialmente). Tal processo nos faz perceber o surgimento de usos/mecanismos de produção por mídia que privilegiam a produção e propagação, por exemplo, de vídeos, fotos, textos ou gifs a partir de formatos midiáticos ou programas/aplicativos específicos (por exemplo, WordArt35, Photoshop36, Picasa37, Moviemaker38, Momentcam39 , Andorid40, ou o uso de hashtags (#) junto ao texto para atrelar interesse/destaque à mensagem41, etc.). Tais formatos detêm (ou precisam deter) as configurações essenciais para que aquilo que se produz possa “rodar” nas redes sociais (ou na Web como um todo).

categorias expressam não são vistos como sendo unicamente linguísticos (para comunicar), e sim, linguístico-discursivos (para comunicar e, também, revelar posicionamentos).

34 Grosso modo, o processo de produção de textos ou mensagens integrando-se diversos formatos de reprodução, isto é:

vídeo, áudio, imagem, texto. Para maiores detalhes, ver Salaverría (2003) e Palácios (2002).

35 http://en.wikipedia.org/wiki/Microsoft_Office_shared_tools#WordArt

41 Essa é uma prática comum nas redes sociais, e se originou no Twitter.com, onde mensagens compartilhadas por meio de hashtags, se assim procederem muitas pessoas, podem fazer essa informação ganhar visibilidade e alcançar outros destinatários locais ou globais pelo ranking dos Trendtopics (tópicos mais interativos/comentados do Twitter).

As práticas de produção e distribuição por mídia submetem-se/atendem aos propósitos direcionados pelas práticas de linguagem, uma vez que, como argumentamos, é a linguagem que sistematiza e carrega seus propósitos já no interior de suas próprias práticas. Por exemplo, figuras, gifs ou vídeos serão usados, de forma híbrida (multimodal e multimidiaticamente), para comunicar uma mensagem que traz com esta um propósito e, potencialmente, ampliar o

“alcance” (RECUERO, 2006) de ambos os tipos de práticas. Tais práticas serão alocadas pelos internautas no interior das unidades de propagação (i.e. imagens, expressões, tirinhas, vídeos, perfis meméticos, etc.) que estes indivíduos vierem a originar.

O esquema 1, abaixo, ilustra como tais práticas, enquanto partes integrantes do memeplexo linguístico-midiático, são carregadas e estruturam unidades de propagação que dão origem a um fenômeno memético da Internet:

Esquema 1: A composição de unidades de propagação e os componentes de suas faces. Fonte: Elaborado pelo autor.

Nesse processo de criação e transmissão das unidades de propagação, é possível entender que as pessoas, ao postarem tais unidades na Web, tenderam a misturar suas práticas de produção e distribuição linguístico-midiáticas possivelmente com o objetivo de ampliar o alcance de suas “vozes” (suas mensagens comunicadas e seus posicionamentos revelados), dando origem, nesse processo, a diversos eventos digitais (ou fenômenos meméticos da Internet).

Tais fenômenos respondem pela dimensão externa de propagação do memeplexo linguístico-midiático. Eles são grandes ondas de propalação de unidades de propagação. Essas unidades, após transmitirem suas “informações” (TYLER, 2013b), enquanto práticas de natureza linguístico-midiática, aglomeram-se nas redes sociais (podendo ultrapassar os limites destas) e acabam por dar evidência a um determinado fenômeno.

No bojo de surgimento desses eventos ou fenômenos, essa referida onda de informações se apresenta indicando uma série de conexões surgidas a partir dessa propalação de unidades, oriundas das relações que os internautas criam nesse processo de evolução. Após ganharem visibilidade, tais fenômenos terminam reconhecidos por um nome individual, tais como, por exemplo: “Que deselegante”, “Para a nossa alegria”, “#Tenso”, “Todoschora”,

“Luiza que está no Canadá”, “Tá Serto”, “Só que não (ou SQN)”, “Nana em Desastres”, etc.

Nesse bojo, aparecem, também, as recentes mobilizações instantâneas – flash mobs42 – tais como o “Occupy Wall Street” ou “Arab Spring”, no contexto global. No contexto brasileiro, mencionamos as recentes manifestações de julho de 2013, nos ambientes digitais reconhecidas pelas designações “#nãovaitercopa” e “#vemprarua”, além dos movimentos digitais43 conhecidos como “flood attack44”, like attack45 e os “rolezinhos”.46 Todos esses movimentos são submetidos a algum tipo de “memetização” (i.e. conjunto de expedientes de propagação, empregado pelos internautas, por meio dos quais um memeplexo linguístico-midiático evolui) através das redes sociais (ou para além destas).

Até este ponto do estudo, a partir de postulações de base memética (DENNETT, 1995;

BLACKMORE, 1999; 2002; TYLER, 2013b), analisamos a fundamentação da proposta de

42 http://pt.wikipedia.org/wiki/Flash_mob

43 Vale alertar que entendemos os fenômenos meméticos e os movimentos digitais (flash mobs /flood attack/like attack e rolezinhos) como eventos digitais distintos quanto aos propósitos gerais que buscam atingir, mas semelhantes quanto aos mecanismos ou procedimentos de memetização dos quais seus proponentes fazem uso para que esses movimentos sejam propagados. Neste trabalho, por ora, procuramos nos dedicar a explicar exclusivamente como fenômenos meméticos são propagados.

44 https://www.facebook.com/events/200454506810298/200698206785928/?notif_t=plan_mall_activity

45 http://likeattack.de/ (Informações em Alemão). Grosso modo, esses eventos consistem em propagar mensagens de amor/paz em ambientes digitais públicos onde normalmente são propagadas mensagens de ódio (antissemitas ou racistas, por exemplo).

46 http://exame.abril.com.br/brasil/noticias/rolezinhos-sao-forma-de-protesto-ou-so-pura-arruaca

Recuero (2006), com o objetivo de ampliá-la, trazendo, nesta seção, a discussão a respeito da diferenciação entre os termos meme e meme da Internet. Indicamos por que estes não devem ser entendidos como elementos sinônimos, como são tratados pela maioria dos internautas e imprensa em geral, bem como em diversos trabalhos da área de Comunicação. Indicamos, também, porque o termo memeplexo linguístico-midiático reflete e substitui com mais exatidão científica os termos “meme” e “meme da Internet”, em face daquilo que se transmite e se propaga no bojo dos fenômenos de memes que surgem na Web.

Apresentamos, no quadro 3, a seguir, a explicitação da discussão acerca dos entendimentos e composição ‘do conceito de meme da Internet apresentados por Recuero (2006) e nossa sugestão de entendimento e atualização da referida nomenclatura, enquanto um memeplexo linguístico-midiático, e seus aspectos oriundos do estágio de análise composicional, tendo em vista os dois tratamentos epistemológicos dados ao tema em questão:

Quadro 3: Aspectos composicionais: meme (Recuero, 2006) x memeplexo linguístico-midiático. Fonte:

Elaborado pelo autor.

2 A DIMENSÃO EXTERNA DE PROPAGAÇÃO: FENÔMENOS MEMÉTICOS DA

No documento Jaime de Souza Júnior (páginas 42-49)