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A linguagem de Clarice Lispector

No documento EMILIANA FERNANDES BONALUMI (páginas 37-40)

2.4. A ESCRITA CLARICIANA

2.4.2. A linguagem de Clarice Lispector

Neste subitem, observaremos a linguagem clariciana com base em Nunes (1989), em Moisés (1989), nos tradutores selecionados na presente pesquisa (Giovanni Pontiero, Gregory Rabassa e Alexis Levitin), no crítico literário Earl Fitz e na acadêmica Mona Baker.

Em O Drama da Linguagem, Benedito Nunes observa que:

os contos da autora seguem o mesmo eixo mimético dos romances, assente na consciência individual como limiar originário do relacionamento entre o sujeito narrador e a realidade. Mas também no domínio do conto certas diferenciações específicas quanto à história propriamente dita e ao esquema do discurso narrativo, resultam, como no romance, do ponto de vista assumido pelo sujeito narrador em relação ao personagem (NUNES, 1989, p. 83-84).

Verifica-se que Lispector utiliza, em uma proporção maior, a primeira pessoa do singular, tanto nos contos quanto nos romances, salvo Laços de Família, que apresenta somente um conto em primeira pessoa do singular. A respeito do discurso narrativo clariciano em seus romances, Moisés comenta que:

de fato, Clarice Lispector utiliza a terceira pessoa do singular e plural, e a primeira pessoa do singular, inclusive apelando para as técnicas de apreensão do fluxo da consciência (...) A romancista emprega a terceira pessoa quando pode estar de fora, descrevendo cenas, lances, objetos, ou ainda os pensamentos das personagens. E a primeira pessoa quando as personagens falam ou pensam diretamente, sem a interferência do narrador, a tal ponto que inclusive a terceira pessoa parece reportar-se a um pseudo-narrador, ou narrador-implícito, e não à ficcionista, ou, então, que o romance fosse sendo escrito por si próprio e a mudança de pessoas não tivesse nada com o narrador, mas com as faces da história: uma face descritiva ou narrativa, em terceira pessoa, outras faces, conforme as personagens, na primeira pessoa.

Como se, afinal o gesto se descrevesse a si próprio, o episódio se narrasse, e assim sucessivamente; ou como se o objeto e o episódio

“falassem” na terceira pessoa, enquanto as personagens falassem na primeira: meios próprios de expressão, em que a ficcionista entra

como um maestro habilidoso que concertasse os sons numa harmonia perfeita sem executar nenhum deles, e não aparecesse a ninguém da platéia, reduzida voluntariamente à função de reger e calar (MOISÉS, 1989, p. 182-183).

Clarice, dotada de uma impressionante “maestria”, “escreve como ninguém”, mas ao mesmo tempo, como comentamos anteriormente, possui uma grande

“humildade”, em relação à sua escrita. Diz escrever as palavras como veêm a sua cabeça, sem importar-se muito com a lógica ou forma.

Acerca dos seus três tradutores selecionados para a presente pesquisa, apresentaremos alguns comentários feitos por eles em relação à obra clariciana. Com referência ao “estilo” da autora, Giovanni Pontiero, tradutor de Laços de Família, faz o seguinte comentário:

mestra do fragmentário e “incompleto”, seu ritmo sincopado, sintaxe e pontuação não ortodoxas têm que ser respeitados na língua alvo. Nas narrativas de Lispector, intuições sutis e respostas ambivalentes substituem abordagens convencionais do enredo e das personagens32 (PONTIERO, 1997, p. 50). Estivestes de Noite, em palestra intitulada “Translating Clarice Lispector”, proferida no 12º Encontro de Tradutores e Intérpretes da Associação Alumni, em São Paulo, realizada em 13 de outubro de 2003, considera que a autora “utiliza uma linguagem

32 The mistress of the fragmentary and the “incomplete”, her syncopated rhythms and unorthodox syntax and punctuation have to be respected in the target language. In Lispector’s narratives, subtle intuitions and ambivalent responses replace any conventional approach to plot and characterization…

33 The style in all of these works is interior and hermetic. In most cases the action is seen from the point of view of the characters involved, and the description is also likely to be made through their eyes.

simplista, de repetição, na qual as sentenças geralmente costumam valer-se de uma estrutura fixa, sujeito + verbo + objeto, usando um “estilo” próprio para crianças”. Em relação ao sentido emocional dos contos, Levitin comenta que “é criado por meio do

‘estilo’ e voz de Lispector, mais do que pelo conteúdo” que, segundo o tradutor, “é considerado sem importância”, se comparado ao “estilo” e voz da autora.

Em entrevista concedida ao jornal The New York Times, em 11 de março de 2005, o crítico literário Earl Fitz tece seus comentários a respeito de Lispector e sua obra:

Ela queria ser tratada como uma escritora apesar de fingir que não era uma profissional. (...) Ela disse coisas diferentes para diferentes pessoas sobre em que cidade vivia e quando nasceu. Ela usava muitas máscaras, e quando ela retirava uma você pensava que ela estava revelando algo, mas ela estava apenas revelando outra máscara. (...) Seus personagens carecem de um certo tipo de coerência e mesmo quando apresentam coerência, isto não leva à felicidade34.

Sugere-se que a respeito das características que Fitz nos aponta em relação às enquanto não encontrarem, de acordo com Fitz, não atingirão a felicidade completa.

Por sua vez, a acadêmica Mona Baker, da Universidade de Manchester, na Inglaterra, em seu artigo intitulado “A Corpus-based View of Similarity and Difference in Translation”, de 2004, refere-se a Lispector como “a autora brasileira muito diferente

34 Informações extraídas do site http://www.booklink.com.br/rachelgutierrez/Deu_no_jornal.html em 03/07/2005, traduzidas por George El Khouri Andolfato.

Clarice Lispector”35, quando trata das traduções disponibilizadas no TEC das obras de José Saramago e Clarice Lispector, comentando a respeito das diferenças encontradas, uma vez que são respectivamente autores de literatura portuguesa e brasileira, sugerindo que seja um padrão interessante a ser pesquisado mais detalhadamente.

Clarice foi uma escritora que deixou suas marcas, tanto no Brasil quanto no exterior. Diversas obras foram escritas a respeito de sua vida e obra, atestando sua notoriedade e importância até os dias de hoje.

2.4.3. Algumas similaridades e diferenças encontradas em obras

No documento EMILIANA FERNANDES BONALUMI (páginas 37-40)

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