A inclusão da mídia no rol de atores das Relações Internacionais é algo extremamente raro dentre os autores clássicos ligados à área. Apesar de se encontrar discussões sobre o papel da propaganda política por certos meios de comunicação no intuito
283 BRETON, Philippe; PROULX, Serge. Sociologia da comunicação. Tradução de Ana Paula Castellani. São
Paulo: Loyola, 2002. p. 211.
284 Philippe Breton e Serge Proulx ao explicarem as complexas interações entre a política e a comunicação,
referem que existem diferentes modalidades de argumentação política utilizada para suscitar a adesão dos demais as ideias propostas por quem as suscita. Com isso, os autores apresentam quatro níveis de ação sendo eles:
argumentação cooperativa baseada no ideal de objetividade na transmissão da informação ou pelo menos
honestidade e fidelidade; argumentação orientada, que segundo os autores é a que mais se aproxima das práticas adotadas pela comunicação política tendo em vista que amplificam certos aspectos e minimizam outros, conforme o interesse do emissor; argumentação manipulada, onde a informação é intencionalmente deformada para se atingir um objetivo sendo que tal objetivo é o de “aprisionar a vontade do receptor e fazê-lo aderir por forço ou por sugestão; argumentação desviada; é aquela “conscientemente mentirosa e enganadora, onde a informação foi totalmente disfarçada e forçosamente falsificada, ocorrendo uma ludibriação do receptor induzindo-o a adotar comportamentos que lhes são desfavoráveis mas cujos efeitos negativos lhes são ocultados. Os autores referem que a fronteira “entre essas quatro categorias são muito sutil” e destacam que “o mundo político procura, assim, sua via entre um ideal de argumentação cooperativa inatingível no plano prático, mas justo no plano ético, e a renúncia à eficácia bastante real, mas inaceitável, das técnicas de propaganda e de manipulação da opinião” Ibidem, p. 212-213; 216.
285 “A mediatização dos acontecimentos internacionais e, hoje, das negociações internacionais, a consciência dos
impactos da mundialização da economia e das finanças sobre a vida cotidiana dos cidadãos, o desenvolvimento da comunicação interativa graças à Internet, a organização em rede das associações são poderosos vetores de informação e de mobilização que diversificam a comunicação e trazem a contradição para as políticas de informação ou de propaganda dos governos e dos grandes agentes econômicos. Os negociadores, a partir de agora, devem se justificar diante de uma opinião pública mundial que entendeu que os acordos internacionais poderiam ter um impacto direto sobre as condições de vida de todos e que, num mundo globalizado, não se podia tratar as questões isolando-as umas das outras. Ou os negociadores deverão ceder a esta nova força ou, se eles tomarem uma direção contrária, eles deverão se referir a interesses superiores da nação: uma situação em geral
de manipular a opinião pública, conforme visto anteriormente, ainda não há uma teorização a respeito do seu exato status dentro do quadro de atores. De qualquer forma, é inegável que comunicação nos dias de hoje toma importância fundamental para os cidadãos, tanto que Mauro Wolf, ao analisar o tema, observa que naqueles assuntos em que a experiência direta das pessoas é menor, haverá uma maior dependência da mídia na constituição de uma posição e de uma experiência acerca da temática e dos quadros interpretativo necessários para a sua compreensão.286
Por tais razões, investigar o papel e o poder da mídia, mais precisamente dos meios de comunicação de massa, passará a ser o foco principal do presente estudo a partir deste ponto. Cumpre destacar que estudá-la sob a ótica das Relações Internacionais não é tão simples, pois existem diversos campos teóricos envolvidos e muitas definições que precisam ser bem compreendidas. O uso da expressão mídia, por exemplo, “pode significar uma ampla gama de fenômenos, acontecimentos e transformações que envolvem a política, o jornalismo, a publicidade, o marketing, o entretenimento, nos diferentes meios”.287 Isso torna ainda mais difícil a sua análise a partir de um corte de simples conteúdo (exemplo: mídia e política).
Dada esta complexidade, é necessário incorporar outras variáveis, ou seja, a mídia: no jornalismo, no marketing, na publicidade, na televisão, na Internet, sob a ótica da recepção etc. Por tal razão, são utilizadas como variáveis associadas à pesquisa da mídia, a sua relação com as novas tecnologias da informação, em especial, a Internet e o jornalismo on-line, enquanto arena de constituição e negociação das políticas internacionais288 envolvendo o aquecimento global, tendo como lócus dessa interação o ciberespaço.289
Assim, conforme já referido, o uso da palavra mídia encontra-se normalmente associada ao sentido de imprensa, jornalismo e meios de comunicação. Trata-se de uma palavra que é ser utilizada de forma mais recorrente nos estudos que relacionam comunicação e política e, portanto, passou a ser empregada nas análises que buscavam explicar o poder institucional e de representação dos meios de comunicação no mundo político
286 Cf. WOLF, Mauro. Teorie delle comunicazioni di massa. 22. ed. Milão: Bompiani, 2006.
287 GUAZINA, Liziane. O conceito de mídia na Comunicação e na Ciência Política: desafios interdisciplinares. Revista Debates, Porto Alegre, v. 1., n. 1, jul-dez, 2007, p. 55.
288 Cumpre frisar que em discussões políticas internacionais, são os sujeitos de direito internacional quem
assumem os compromissos jurídicos, pois são os entes que possuem capacidae para tal. Contudo, isso não retira a capacidade de atuação dos atores das relações internacionais em influenciar o processo de discussão e tomada de decisões, tal como será observado no terceiro capítulo.
289 “O ciberespaço é justamente uma alternativa para as mídias de massa clássicas. [...] encoraja uma troca
recíproca e comunitária enquanto as mídias clássicas praticam uma comunicação unidirecional na qual os receptores estão isolados uns dos outros”. LÉVY, Pierre. O que é virtual? São Paulo: Editora 34, 1996. p. 203.
contemporâneo. 290
A utilização da palavra mídia, dentro de um conceito amplo, mais atrelado ao conjunto de meios de comunicação de massa, encontra sua origem nas pesquisas norte- americanas sobre mass media. Essas pesquisas foram realizadas nos períodos pré e pós-guerra e envolviam estudos sobre eleições, propaganda e opinião pública que, posteriormente, deram origem a Communication Resarch conforme será analisado à frente.
No presente estudo propõe-se uma revisão no tradicional conceito de mídia de modo a não contemplar pura e simplesmente um conjunto de meios de comunicação de massa.
O conceito de mídia, mais adequado aos tempos presentes, precisa se despir de sentidos que estão mais atrelados ao passado que a via como mero instrumento, canal ou meio de comunicação, os quais são insuficientes para se compreender todas as complexidades que a mídia propicia enquanto indústria da informação e instituição no mundo político contemporâneo.
É preciso compreender, desde já, que “a mídia não é apenas portadora da informação, seu papel central na sociedade como formadora de opinião pública a tornou também central na construção da imagem que as pessoas fazem da política.”.291 Uma conceituação mais atualizada com as novas tecnologias da informação deve incluir a mídia não somente como uma ferramenta técnica, tal como a Internet ou como os demais veículos clássicos como a televisão e as mídias impressas. O papel da mídia na sociedade da informação292 não deve se limitar apenas à transmissão de conteúdos informativos, mas também se constitui num espaço de mediação daquelas questões que importam à sociedade.
Por outro lado, deve-se admitir que em muitos pontos a mídia ainda continua sendo um forte instrumento, até mesmo para o exercício do poder dos demais atores. Porém,
290 Cf. GUAZINA, Liziane. O conceito de mídia na Comunicação e na Ciência Política: desafios
interdisciplinares. Revista Debates, Porto Alegre, v. 1., n. 1, p. 49-64, jul-dez, 2007.
291 BARTH, Fernanda. Mídia, política e pesquisas de opinião pública. Revista Debates, Porto Alegre, v.1, n. 1,
jul.-dez., 2007. p. 26.
292 A UNESCO adota em suas políticas institucionais o termo "sociedade do conhecimento" por entender que o
conceito de sociedade da informação, tal como vem sendo utilizado, além de desatualização encontra-se equivocado. Em 3 de novembro de 2005 a Unesco fez um comunicado à imprensa, onde informou que não se pode confundir a sociedade da informação com sociedade do conhecimento. O motivo apresentado é de que a sociedade da informação está mais atrelada à ideia de inovação tecnológica, que por vezes apenas criam não mais do que uma "massa de dados" para aqueles que sequer possuem habilidades para tirar proveito. Por outro lado, a ideia de sociedade do conhecimento engloba outras dimensões, tais como social, cultural, econômica, política e institucional. Cf. UNESCO. Knowledge versus information societies: UNESCO report takes stock of the difference. <http://portal.unesco.org/en/ev.php-URL_ID=30586&URL_DO=DO_TOPIC& URL_SECTION
reduzir a sua atuação a simples instrumento, ignora a sua capacidade de atuação autônoma. Por tais razões, deve-se entender a mídia não somente como um conjunto de diversos meios de comunicação, mas também como um processo, um ator e uma arena de mediação e discussão do espaço público.
Apesar de eventuais críticas ao conceito ora adotado, entende-se que é a melhor forma de se referir à mídia de uma maneira adequada à proposta do presente estudo, vindo ao encontro dos contornos conceituais de ator das relações internacionais, devidamente analisados no tópico 1.1.
Além de estabelecer essa conceituação, torna-se necessário refletir sobre o papel da mídia dentro desse processo de mediação e formação da imagem coletiva sobre certos fatos e acontecimentos que são transmitidos a uma grande massa de receptores dessa informação, em especial, por meio da utilização do ciberespaço.
Para tanto, quando se analisam os estudos existentes na área da comunicação, nota-se que diversos autores ressaltam que a relação entre os meios de comunicação e a forma como a mensagem é recebida precisa ser vista com cautela. Isso porque para certas teorias da comunicação, que serão analisadas no próximo capítulo, “o usuário não é um receptáculo passivo”, afinal, “ele interpreta a mensagem segundo sua experiência, seu meio, suas necessidades e seus desejos”.293 Portanto, não pode ser considerado como “uma vítima da mídia, mas um usuário”.294
Deve-se acrescentar, ainda, que a partir das novas tecnologias, como a Internet, muitos destinatários dessas informações também passam a se incluir como comunicadores295 no que Manuel Castells recentemente denominou de mass self-communication ou intercomunicação individual.296
293 BERTRAND, Claude-Jean. A deontologia das mídias. Tradução de Maria Leonor Loureiro. Bauru: EDUSC,
1999. p. 52
294 Ibidem.
295 Aqui cabe frisar que a internet possibilita uma interatividade não presente nos demais meios de comunicação
e, portanto, é considerada como um espaço em que todos podem expressar suas opinião, contudo, isso, por si só, não é garantia de que essas opiniões serão recepcionadas por outras pessoas.
296 “Tecnicamente, essa Mass Self Communication está presente na internet e também no desenvolvimento dos
telefones celulares. [...] A Mass Self Communication constitui certamente uma nova forma de comunicação em massa – porém, produzida, recebida e experienciada individualmente. Ela foi recuperada pelos movimentos sociais de todo o mundo, mas eles não são os únicos a utilizar essa nova ferramenta de mobilização e organização. A mídia tradicional tenta acompanhar esse movimento e, fazendo uso de seu poder comercial e midiático passou a se envolver com o maior número possível de blogs. Falta pouco para que, através da Mass
Self Communication, os movimentos sociais e os indivíduos em rebelião crítica comecem a agir sobre a grande
mídia, a controlar as informações, a desmenti-las e até mesmo a produzi-las. [...] O desenvolvimento das redes de Mass Self Communication oferecem à sociedade maior capacidade de controle e intervenção, além de maior
Dessa forma, apesar de Claude-Jean Bertrand sustentar que a principal influência da mídia, faz-se por omissão, ou seja, “o que ela não diz tem mais influência do que o que ela diz”,297 com os novos recursos de busca de informação, ao menos para uma parcela da população mundial com acesso à Internet, essa omissão pode ser questionada e conduzir a uma comunicação por meios alternativos dentro da própria rede algo que diversos autores chamam de mídia alternativa ou mídia ativista.298
Um exemplo, dentre tantos, dessa omissão dos tradicionais meios de comunicação de massa e que se encontra divulgada perante essa mídia alternativa, pode ser vista na cobertura da ajuda humanitária às vítimas do terremoto, ocorrido no dia 12 de janeiro de 2010 no Haiti.299
Segundo o site Correio da Cidadania300, as redes de televisão, principalmente as norte-americanas, omitiram a ajuda prestada por Cuba e centraram a atenção apenas nos esforços dos Estados Unidos. Somente duas agências de notícias (Fox News e Christian Science Monitor) informaram sobre a ajuda prestada por Cuba e, ainda assim, no caso da rede de TV Fox News, a mesma apresentou informações equivocadas ao afirmar que “os cubanos
organização política àqueles que não fazem parte do sistema tradicional.” CASTELLS, Manuel. A era da intercomunicação. Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: <http://diplo.uol.com.br/2006-08,a1379> Acesso em: 21 jan.2010. Um raciocínio semelhante é desenvolvido por Pierre Lévy quando emprega a palavra “automedia” para se referir ao fenômeno em que todos os indivíduos “se tornarão o seu próprio meio de comunicação”. LÉVY, Pierre. Ciberdemocracia. Tradução de Alexandre Emílio. Lisboa: Piaget, 2002. p. 53.
297 BERTRAND, Claude-Jean. A deontologia das mídias. Tradução de Maria Leonor Loureiro. Bauru: EDUSC,
1999. p. 52
298 Cf. MORAES, Dênis de. O ativismo digital. Disponível em: <http://www.bocc.ubi.pt/pag/moraes-denis-
ativismo-digital.html> Acesso em: 2 jan.2010.
299 É importante frisar, todavia, que essa omissão não ocorreu de forma generalizada. Outras redes de TV com
destaque no cenário internacional, conforme será visto no próximo capítulo, acabaram noticiando essa omissão pela mídia norte-americana. Um exemplo de divulgação da ajuda dada por Cuba e, principalmente, de denúncia quanto a omissão em informar corretamente, foi dada pela rede de TV árabe Al-Jazzera. Na versão online em inglês da rede Al-Jazzera é possível identificar essa crítica à omissão das redes norte-americanas, sendo que vai mais além e destaca que a omissão é quanto a intensidade da ajuda dada por todos os demais países latino- americanos, tendo em vista que a contribuição dada pelo Brasil e pela Venezuela foram menosprezados. Cf. Cuba's aid ignored by the media? Disponível em: <http://english.aljazeera.net/focus/2010/01/ 201013195514870782.html> Acesso em: 3 fev.2010.
300 “O Correio da Cidadania é editado por uma sociedade sem fins lucrativos, a Sociedade para o Progresso da
Comunicação Democrática, fundada em 1996, com o objetivo de colaborar com a construção da mídia democrática e independente. Há 11 anos, o Correio da Cidadania oferece visão crítica de acontecimentos políticos, econômicos e sociais, fazendo contraponto à uniformidade editorial da grande imprensa. Ao contrário das empresas jornalísticas, o Correio da Cidadania não vive do dinheiro dos anunciantes e seus interesses econômicos. A versão eletrônica do Correio, como se vê, é gratuita. E não se pretende cobrar por este acesso. Pelo contrário, entendemos que ele é fundamental para que cada vez mais um número maior de pessoas tenha acesso ao conteúdo do Correio da Cidadania.” CORREIO da Cidadania. Disponível em:
estavam ausentes da lista de países caribenhos vizinhos que prestaram ajuda”. 301
Conforme relata David Lindorff,302 a mídia norte-americana e, consequementemente, todos os demais veículos de comunicação do mundo que se utilizam desses meios como fonte, “omitiram a informação de que Cuba já contava com quase 400 médicos, paramédicos, além de pessoal da área sanitária enviado ao Haiti”.303 Além disso, omitiram que “esses profissionais foram os primeiros a responder ao desastre, levantando um hospital justamente ao lado do principal hospital de Porto Príncipe, derrubado no terremoto, assim como o hospital de campanha em outra parte bastante abalada da cidade”. 304
Esse tipo de situação demonstra que os meios de comunicação têm “[...] um efeito considerável, fornecendo informação, escolhendo que acontecimentos e que pessoas são importantes“.305 O problema, contudo, é quando essa informação nem sempre é repassada de uma forma verdadeira ou imparcial.
De qualquer forma, apesar de situações pontuais como essa que abalam a credibilidade da prática midiática, a mídia ainda possui um poder muito grande e é considerada com uma fonte de influência. Conforme destaca Bertrand, apesar de a mídia não ter o poder de “ditar às pessoas o que pensar”, pode decidir “no que elas vão pensar”. 306 Nelson Traquina307 aplica esse raciocínio ao jornalismo, referindo que “[...] o jornalismo e os jornalistas podem influenciar não só sobre o que se pensar mas também como pensar”.308 O autor explica essa informação referindo que “estudos realizados nas últimas três décadas do século XX apontam que a influência varia sobre as pessoas e sobre os assuntos”. 309 Com isso, sustenta o autor, que “a influência é maior sobre as pessoas que estão mais expostas ao jornalismo e procuram informação”, da mesma forma, que “a influência é maior sobre os assuntos sobre os quais as pessoas não têm experiência direta que podem mobilizar”.310
301 LINDORFF, David. O apagão informativo sobre a ajuda cubana no Haiti. Correio da Cidadania. Disponível
em: <http://www.correiocidadania.com.br/content/view/4293/9/> Acesso em: 5 fev.2010.
302 David Lindorff é jornalista, ex-filiado do Partido Democrata e mora na Filadélfia. 303 Ibidem.
304 Ibidem.
305 BERTRAND, Claude-Jean. A deontologia das mídias. Tradução de Maria Leonor Loureiro. Bauru: EDUSC,
1999. p. 53.
306 Ibidem.
307 Nelson Traquina é mestre em Política Internacional, formado em Jornalismo pelo Institut Français de Presse,
Doutor em Sociologia e professor catedrático do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade Nova Lisboa, em Portugal.
308 TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: porque as notícias são como são. Florianópolis: Insular, 2004.
p. 203-204.
309 Ibidem. 310 Ibidem.
Em face disso, é possível perceber que os meios de comunicação participam de quase todas as atividades diárias, sendo característica da sociedade atual, também denominada tecnocêntrica. Marcondes Filho caracteriza essa nova sociedade, demonstrando que vem substituir a sociedade antropocêntrica da Era Moderna. “A marca desta era é que as coisas não valem pelo que elas são, elas só valem se forem comunicadas, divulgadas pelo sistema de comunicação, se mediadas por esse processo”.311
É dentro desse contexto que o surgimento e evolução da televisão foram determinantes para a adoção do caráter massivo da informação. É claro que os outros meios de comunicação permaneceram com um espaço de atuação próprio, mas tudo passou a ser determinado segundo a estética da TV e, mais recentemente, pela estética do virtual e interativo propiciado pela Internet. Há cada vez mais, um rompimento com a estética verificada a partir da criação dos tipos móveis no jornal impresso, para então se transformar em algo curto, simplificado e fácil. Manuel Castells afirma que tal sucesso da televisão e a expansão de sua estética para os outros meios devem-se à facilidade de sua comunicação, já que ela “é um meio fundamentalmente novo caracterizado pela sedução, estimulação sensorial da realidade e fácil comunicabilidade, na linha do modelo do menor esforço psicológico”.312
Como consequência desse tipo de espetacularização dos fatos, é evidente que os meios de comunicação conseguem influenciar os rumos políticos de um país. Nelson Traquina chega a referir que o “jornalismo e os jornalistas têm poder, consoante a sua posição na hierarquia profissional” e, principalmente, “[...] devido ao acesso habitual às fontes oficiais, sustenta o poder instituído e o ‘status quo’”.313 Assim, “os fatos, transformados em notícia, são descritos como eventos autônomos, completos em si mesmos. Os telespectadores, embalados pelo ‘estado hipnótico’ diante da tela de televisão, acreditam que aquilo que vêem é o mundo em estado “natural”, e “o” próprio mundo”.314
Leandro Marshall, no mesmo sentido dos demais autores citados anteriormente, também refere que “a mídia contemporânea tem o poder de determinar o que é e o que não é realidade no mundo de hoje”.315 O faz, na verdade, baseado em um clássico francês da década de 1960, A sociedade do espetáculo, de Guy Debord. Buscando perturbar a sociedade
311 MARCONDES FILHO, Ciro. Sociedade tecnológica. São Paulo: Scipione, 1994. p. 94
312 CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. Tradução de Roneide Venancio Majer. São Paulo: Paz e Terra,
1999. p. 358.
313 TRAQUINA, Nelson. Teorias do jornalismo: porque as notícias são como são. Florianópolis: Insular, 2004.
p. 206
314 ARBEX JUNIOR, José. Showrnalismo: a notícia como espetáculo. São Paulo: Casa Amarela, 2001. p. 103 315
francesa, o autor expôs, por meio de uma linguagem direta e provocativa, a sua impressão a