• Nenhum resultado encontrado

2.1 PERSPECTIVA BÍBLICA

2.1.1 A morte no Antigo Testamento

No Antigo Testamento, a experiência da morte aparece de maneira profundamente ambígua. Por um lado, ela é vivenciada como término natural da vida; por outro, é sentida como provação e como maldição.

No relato em Gn 2-3, lê-se a queda do ser humano no paraíso e a irrupção da morte como consequência da queda, ou seja, do pecado cometido contra Deus, tornando o ser huma- no mortal. A narrativa do Gênesis apresenta, assim, a morte como castigo pelo pecado come- tido por Adão e Eva (Gn 2,17). O relato consta na narrativa javista, podendo ser encontrado no livro da Sabedoria (Gn 2,24). Segundo esse ensinamento, ao desobedecer, Adão escolheu viver sob o reinado da morte. “Com o suor do teu rosto comerás teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és do pó e ao pó tornarás.” (Gn 3,19). Deus, proibindo o ser humano de provar do fruto do conhecimento do bem e do mal, disse que, se desobedeces- se, conheceria a morte, pois esse juízo caberia somente a Deus. O israelita fala desde sua ex- periência: a morte começa quando Iahweh abandona o homem.128

Na visão da morte natural, entretanto, essa poderia ser a consumação do relacionamen- to da vida, ou seja, não haveria necessidade de ela ser uma ameaça, não precisaria vir prema- turamente, inoportuna ou em má hora. Não teria que ser rompimento, mas poderia ser o fim justo. Assim, para o israelita, a vida terrestre é o dom de Deus por excelência. “Abraão expi- rou: morreu numa velhice feliz.” (Gn 25,8). A morte dos patriarcas comprova essa possibili- dade de uma morte com concisão e beleza insuperáveis na frase de Jó 5,26: “Em robusta ve- lhice entrarás para a sepultura, como se recolhe o feixe de trigo ao seu tempo.” Segundo a lógica da Antropologia hebraica, a morte atinge não somente a carne (bâsâr), mas também a alma (nèfesh). Assim, o homem retorna ao pó (Cf. Gn 3,19; Sl 90,3; Jó 34,15; Ecl 12, 1-7).129

“Ó homem! Seus dias são como a relva: ele floresce como a flor do campo; roça-lhe um vento e já desaparece, e ninguém mais reconhece seu lugar.” (Sl 103, 15-16).

128 Cf. HOFFMANN, P. Morte. Dicionário de Teologia. Conceitos fundamentais da Teologia atual. 2. ed. São

Paulo: Loyola, 1987, p. 363-374, v. 3.

129 Cf. GEFRRE, C. Morte. In: LACOSTE, J-Y. Dicionário crítico de Teologia. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2004,

Outra percepção da morte no Antigo Testamento é como provação ou maldição, en- tendida como a morte súbita ou no meio dos dias. Essa morte lança suas sombras sobre a vida humana quando se percebe que ela acontece fora de hora, inoportunamente.130 A partir disso, compreende-se que, no Antigo Testamento, predomina a ideia de morte como evento que ali- ena a relação do ser humano e Deus, constituindo a verdadeira desgraça da morte. Os Salmos relatam essa ameaça da morte má, em que a doença, a miséria e a solidão aparecem. “Que ganhas com meu sangue, com minha descida à cova? Acaso te louva o pó, anuncia tua verda- de?” (Sl 30,10). Um enigma para Israel é que também o justo sofre, ou seja, é ameaçado pela maldição e desgraça, cujo questionamento apresenta-se intenso no relato do livro de Jó (Cf.

Jó 3, 4, 5, 6, 7,9, 12, 13, 16, 19, 2-3, 27, 29, 30 e 31). A morte, assim, aparece sem piedade e

com muita brutalidade.131 “Tal é o destino daqueles que esquecem a Deus, assim desvanece a

esperança do ímpio.” (Jó 7, 13).

No Antigo Testamento, em Eclesiastes, a morte é evocada nestes termos:

No dia em que os guardas da casa tremem e os homens fortes se curvam, em que as mulheres, uma a uma, param de moer e cai a escuridão sobre as que olham as jane- las; quando se fecha a porta da rua [...], e o tempero perde o sabor, é porque o ho- mem já está a caminho de sua morada eterna, e os que choram sua morte começam a rondar pela rua. [...]; antes que o pó volte à terra de onde veio e o sopro volte a Deus que o concedeu. (Ecl, 12, 3-7).132

Iahweh é o Senhor da vida e da morte (Cf. Dt 32,39). Por isso, a concepção de morte está relacionada com a vida, ou seja, Deus, o Criador, presenteou o ser humano com a vida, uma dádiva e não uma propriedade do vivente. Mas as forças da morte estão sempre em ação na criação, e séculos serão necessários para que a tradição bíblica comece a formular a ideia de uma vitória definitiva sobre a morte.

No Antigo Testamento, o lugar da morte é denominado Sheol, ou seja, a morada dos mortos, chamada terra estéril e deserta. Segundo a concepção antiga de mundo, o Sheol se encontra na parte mais profunda da terra, onde é o lugar dos mortos. Por isso os salmos falam da fossa (Cf. Sl 40,3; 55,24; 143,7) e da correspondência à profundidade da terra: “Quanto aos que me querem destruir, irão para as profundezas da terra.” (Sl 63,10). Ali a morte assume sua distância e separação do mundo dos vivos, a perda da possibilidade de desenvolver-se como

130 Cf. MCKENZIE, J. L. Morte. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1983, p. 633. 131 Cf. NERI, U. Escatologia bíblica: Catechesi di Monteveglio, p. 19.

ser humano. Na concepção hebraica, o defunto continua a existir como ele mesmo era antes da morte, mas no Sheol, sem luz (Cf. Jó 10,21), num lugar de silêncio (Cf. Sl 94,17). O reino dos mortos caracteriza-se pela distância de Deus. O morto não toma parte do culto divino (Cf. Sl 6;6; 30,10; 88,11; 115,17; Is 38,11.18).

No Antigo Testamento, a morte ideal é aquela natural, ou seja, na plenitude da velhice, com as faculdades ainda intactas (Cf. Gn 25,8; Jó 21, 23s; 29, 18-20), pois só assim a pessoa iria em paz para o Sheol. O ser humano veterotestamentário, quando morre, não volta para Deus, ou seja, é o fim do relacionamento com ele, confirmado pela frase do Salmo: “Os mor- tos não louvam o Senhor” (Sl 115,17), ou seja, é a não relacionalidade com Deus.133 Contudo,

a morte é aceita como enviada de Iahweh (Cf. 2 Sm 12, 15-24; Sl 39,14; Ecl 3,2; 9), pois é, antes de tudo, um apelo para viver bem a vida: “Ensina-nos a contar nossos dias, para que venhamos a ter um coração sábio.” (Sl 90,12).