3.2. O conceito da identidade do toxicodependente
3.2.1. A mudança de identidade e de estilo de vida
Quando temos como objecto de estudo os percursos de reinserção social em toxicodependentes, interessa-nos de sobremaneira o conhecimento e a compreensão das estratégias presentes nas mudanças ocorridas em indivíduos que passaram por graves situações de dependência e exclusão social e delas recuperaram, no que se refere à identidade e ao estilo de vida.
Lipiansky et. al. (1990) abordam a questão das estratégias de produção/criação/mudança de identidades. Denominam-nas como processos levados avante (de forma consciente ou inconsciente) por um actor (individual ou colectivo), com o fim de atingir um ou vários objectivos (definidos de forma explícita ou inconsciente), procedimentos elaborados em função de uma determinada situação de interacção, ou seja, em função de diferentes determinações (sócio-históricas, culturais, psicológicas) que caracterizam determinada situação. De acordo com Lipiansky et al. (1990), ao longo de uma vida, cada pessoa tem a possibilidade de viver de acordo com diferentes identidades e estilos de vida.
Ao querer abordar a questão da mudança de identidade e de estilo de vida de pessoas dependentes de drogas que passaram por experiências de percursos da exclusão à reinserção
social, teremos de ter consciência da grande heterogeneidade existente nos referidos processos (Velho, 1986). Sobre a heterogeneidade referida, Velho (1986: 54) chama a atenção para a vivência individual da mesma e «...para a complexidade de redes de significados ao nível de biografia, suas contradições e conflitos», sendo este um importante aspecto a destacar na abordagem de investigação patente neste trabalho:
Mesmocontextualizando a noção de indivíduo, cabe registrar que é ao nível das biografias de indivíduos específicos que encontramos com mais vigor e dramaticidade a coexistência de orientações e códigos diferenciados. Isso porque nessas biografias assinalam-se trajetórias e papéis complexos, (...) constituintes de identidades individuais (Velho, 1986: 54).
Poderemos questionar se existem mecanismos de identidade específicos, com responsabilidade no desempenho em percursos de reinserção social de pessoas que passaram por situações de exclusão social derivadas à sua toxicodependência. Mas também nos interessará saber o que dá origem à iniciativa de um processo de mudança de identidade e estilo de vida.
Segundo Fischer (2001: 13) «…a mudança opera-se em face de fontes que são essencialmente determinadas pela influência», nomeadamente a que se refere às pressões normativas e à persuasão, todas elas vindas do contexto social envolvente da pessoa toxicodependente.
As pressões normativas impelem muitas vezes a que alguém em situação de exclusão social ou próxima dela, tome a decisão de se reinserir socialmente, aceitando e cumprindo com as regras implícitas ou explícitas do sistema de valores e que constituem um modelo de conduta.
A função ou papel uniformizador das normas sociais é assim concretizado e a aprovação social conseguida. Esta conformidade com o modelo de conduta da sociedade envolvente da pessoa que estava em processo de exclusão social, é considerada por Fischer (2001: 16) como «…uma das modalidades essenciais de expressão da influência social» e que se concretiza através de vários mecanismos ou formas de conformidade (idem: 17):
• pela interiorização (pela qual uma pessoa «…modifica as suas crenças, atitudes ou comportamentos, tomando em conta o sistema de valores que lhe é imposto»;
• pela identificação (pela qual uma pessoa «…procura assemelhar-se àqueles cujas atitudes lhe pareçam desejáveis»);
• pelo seguimento (pelo qual uma pessoa se submete, «…caracterizando-se por um consentimento público dos valores dominantes»), de forma a se evitarem sanções sociais, dando visibilidade a uma aparente e formal integração social, bem vista
socialmente. Logo que a pressão normativa se torna menos forte, o comportamento poderá alterar-se novamente.
No que se refere à persuasão, considerada por Fischer (2002: 19) como outra forma de influência social, passível de alterar uma identidade e estilo de vida, o mesmo refere que «na vida quotidiana, uma parte das nossas trocas consiste em convencer os outros a mudar os seus comportamentos ou opiniões». É, sem dúvida, e de acordo com o autor focado, um tipo de influência exercida em situação de interacção social e que na área da toxicodependência corresponde também, em muitos casos, ao enveredar pelos caminhos da recuperação e da reinserção social.
Outra estratégia passível de influenciar um toxicodependente a iniciar um processo de mudança (Fischer, 2002) poderá ser através da concretização de uma modificação de comportamento, em que a pessoa em causa pense sentir-se em total liberdade para assumir um compromisso, sendo no entanto manipulada para tal, por profissionais ou até familiares e amigos.
Na dialéctica relacional entre identidade e estilo de vida, as questões do Interaccionismo Simbólico são presença permanente, mas também infinitamente negociáveis e continuamente reinventadas na vida de cada pessoa, no seu contexto social (Chaney, 2003). O mesmo autor afirma que (idem: 57):
Los estilos de vida son, por tanto, formas pautadas de investir de valor social y simbólico a ciertos aspectos de la vida cotidiana; pero esto también significa que existen formas de jugar con la identidad.
Segundo Lopes e Franqueira (1999), na teoria e na prática, não existe consenso sobre o significado a dar ao conceito de “estilo de vida”. «Alguns autores utilizam-no de forma superficial, para se referirem a padrões de consumo e a padrões de vida relevantes para a saúde»
(Lopes e Franqueira, 1999: 50). Sobre este conceito os autores citados (1999: 50) afirmam que
estilo de vida são padrões de comportamento que um indivíduo escolhe em função das suas circunstâncias sócio-económicas, e da facilidade de escolha.
Os objectivos de qualquer tratamento de toxicodependentes será proporcionar oportunidades, para que as pessoas desenvolvam competências para escolherem um estilo de vida livre de drogas e saudável. Lopes e Franqueira (1999) afirmam que a escolha referida tem como objectivo o incentivo de comportamentos considerados positivos tais como a abstinência
alcoólica e de substâncias psicotrópicas, questões de higiene pessoal e ambiental, actividades de exercício físico, a renúncia a comportamentos de agressividade, e o reforço e crescimento de todo o tipo de relações interpessoais e familiares.
A manutenção de um estilo de vida e de uma nova identidade considerados saudáveis e livres de drogas, «...depende das influências externas e da interiorização da aprendizagem feita ao longo do programa terapêutico...» (Lopes e Franqueira, 1999: 55), efectuado por determinada pessoa, em processo de recuperação de dependência de drogas.
A entrada, a permanência e a saída da toxicodependência constituem exemplos típicos de mudanças ocorridas na vida de um indivíduo, num percurso confuso e recheado de contrariedades e contradições. Sobre o que mais interesse tem para o presente trabalho – a retomada para uma vida livre de drogas, após a saída de um percurso de exclusão e marginalidade - Pais afirma o seguinte:
A retomada é um voltar a tomar caminhos que se abandonaram: retomada de estudos inacabados;
retomada de uma relação amorosa que entrara em crise; regresso a casa dos pais, depois de um período de experimentação de autonomização da vida; reincidência no consumo de drogas depois de uma tentativa falhada de desintoxicação, (...); retomada de velhas convivências; retomada de ganchos ou biscates quando a falta de dinheiro aperta... (2003: 10).
Na presente pesquisa importará reconhecer que
…desde há alguns anos, desenvolve-se nas ciências humanas uma corrente interaccionista que enfatiza os processos e que, no caso da nossa problemática, tende a conceber as identidades como estratégias identitárias, justamente para sublinhar o seu carácter relacional e dinâmico (Lipiansky et. al., 1990).18
De acordo com Lipiansky et. al. (1990), Sartre tentou compreender e caracterizar a identidade das pessoas a partir da experiência concreta da realidade social, em permanente e subordinante interacção e relação com os outros seres humanos.
De acordo com Velho (1986) será importante na antropologia contemporânea a ideia de que o homem vive, socialmente, no seio de uma rede de “significações” (Geertz, 1978, cit. in Velho, 1986: 49). De acordo com o referido, a concepção de indivíduo é «...construída histórica
18 «...depuis quelques années se développe dans les sciences humaines, un courant interactionniste qui met l’accent sur les processus et qui, dans le cas de notre problemátique, tend à concevoir les identités comme stratégies identitaires, justement pour souligner leur caractère relationnel et dynamique» (Lipiansky et. al., 1990 : 20).
e socialmente, delimitada e circunscrita, portanto, a sociedades específicas» (Velho, 1986: 49).
Com isto, pretende o autor referido afirmar que a construção da identidade social dos indivíduos, enquanto membros da sociedade tem por base as crenças e os valores a ela associados, o que quer dizer de uma forma mais genérica, a cultura. E são precisamente as crenças e os valores inerentes a um indivíduo, que poderão também ser uma fonte potencial de inspiração para a mudança nos percursos de reinserção social.
Sobre a mudança de identidade há algo que importa referir e prende-se com as várias geometrias que a própria identidade pode tomar. Sobre este facto, Kaufmann afirma que a identidade não tem existência fixa num indivíduo, tendo antes de tudo uma forma móvel «…de encerramento holístico» (Kaufmann, 2003: 252). Poderá ser construída numa zona fronteiriça ao nível individual, mas também o poderá ser numa outra fronteira, seja ela étnica, nacional, sexual, familiar, entre outras. Será simplesmente necessário que uma pessoa conceda privilégio a uma pertença a um grupo e que com ele se identifique total, parcialmente ou provisoriamente, mas com alguma duração no tempo, de modo a que o mecanismo holístico referido possa colocar-se em marcha.
De um estilo de vida pautado por numerosos e perigosos rituais de consumo, aliados a uma grande dependência física e psicológica enquanto identidade de toxicodependente, e passar para uma vida onde a mudança é a clave de sol de uma nova música, composta ou recomposta, que pressupõe uma identidade nova, é um grande e difícil desafio a ser concretizado num percurso de reinserção social de alguém que sai da dependência do mundo das drogas.
II–ENQUADRAMENTOTEÓRICO-METODOLÓGICO