2. OS AFETOS NA PESQUISA COMUNICACIONAL
2.3 A narrativa e a representação do eu/outro
Pensar os afetos teórica e metodologicamente não exclui a necessidade de classificarmos alguns outros conceitos que usamos durante essa dissertação. Nosso objeto de pesquisa são as relações dos sujeitos que se conheceram pelo Grindr, mas só conseguiremos pensar sobre elas
53 No original: agency can be strange, twisted, caught up in things, passive, or exhausted. Not the way we like to think about it.
58 por meio do que consideramos observável no fenômeno. Em nosso caso, isso se dá pela figura das narrativas que serão criadas pelos sujeitos durante nossa conversa.
Com isso em mente, passamos a refletir sobre essas narrativas, de modo a esclarecer como as entendemos e o que isso contribui para a pesquisa em si. Consideramos que, em alguma medida, os sujeitos farão relatos de si perante às questões que apresentarmos a eles. Dizer sobre como era a rotina de cada um deles antes de se conhecerem pela plataforma, contar sobre o momento do primeiro encontro presencial e traçar uma história sobre como eles desenvolveram a relação aciona diversas características do eu, que precisamos considerar para refletir sobre essas narrativas.
Por meio dessa reflexão, elegemos o pensamento de Butler (2015) como porta de entrada. A discussão que a pesquisadora faz em “Relatar a si mesmo: crítica da violência ética” também nos ajuda a refletir sobre a representação dos sujeitos, que faremos a partir de Goffman (2002). Para além de entender a narrativa como a figura do que é observável em nosso fenômeno, Butler contribui para a discussão sobre a reflexão política e ética indicada por Moriceau e Mendonça (2016) em sua abordagem metodológica afetiva.
Dizemos isso porque “não existe nenhum ‘eu’ que possa se separar totalmente das condições sociais de seu surgimento, nenhum ‘eu’ que não esteja implicado em um conjunto de normas morais condicionadoras” (BUTLER, 2015, p. 18). A partir dessa definição, fica impossível ignorar tudo o que está para além do sujeito, mas que também o constitui enquanto ser individual. A questão é que mesmo que a narrativa diga somente de um eu, há conexões com o mundo que não são desfeitas, porque o sujeito é moldado por elas e também ajuda a moldá-las. Vemos novamente a reflexividade dos afetos, presentes agora quando pensamos na materialidade da construção de si.
Não há como afastar o social, o histórico e o político da narrativa construída pelo sujeito porque a temporalidade do mundo vem antes dele e por isso há que se considerar as relações com as normas que fazem parte de sua vida (BUTLER, 2015, p. 18).
Além de levar em consideração essa característica de que há normas que são anteriores à narrativa do sujeito, é importante pensar também que aquilo que é narrado só acontece a partir do momento em que há uma interpelação entre um eu e um outro, ainda que esse processo de alteridade aconteça consigo mesmo.
Além disso, “os termos usados para darmos um relato de nós mesmos, para nos fazer inteligíveis para nós e para os outros, não são criados por nós” (BUTLER, 2015, p. 33). Quando
59 conjugamos essa compreensão com o que Barthes fala sobre nenhuma história de amor ser original, começamos a perceber certas proximidades possíveis entre os dois pensadores.
Para refletir sobre uma questão ética da violência por meio dos relatos de si, Butler discorre acerca da construção da narrativa pelo sujeito e Barthes constrói os fragmentos do discurso amoroso com figuras elegidas pela enfatuação que uns sujeitos sentem por outros, ainda que isso não seja correspondido.
Tudo o que o ensaísta narra sobre o amor parte do princípio que aquilo é observável porque, de alguma maneira, se repete ou perpassa pela vivência dos seres que amam. Por isso, nada se faz original em sua forma ou conteúdo, mas acreditamos que há uma potencialidade na vivência de cada sujeito pelo modo como ele se deixa afetar. As narrativas que surgem diante de nossa interpelação como pesquisador utilizam-se de termos da linguagem que são anteriores a elas. Esse movimento, em nosso caso, é feito para que se narre sobre o amor, que em certa medida faz parte da condição humana por seus vários significados (ABBAGNANO, 2007).
Ainda nessa cena de interpelação, aquele que faz esse movimento também é afetado. “Se os pensamentos e desejos dos outros entram na minha mente, então eu sou, ainda que de forma inconsciente, cercada pelo outro” (BUTLER, 2015, p. 100). Isso não diz que há o apagamento de um sujeito em detrimento do outro, mas sim que é necessário lidar com aquelas ações que são desenvolvidas pela narrativa. A compreensão do que se conta também pode escapar do sujeito que narra, porque a própria narrativa age sobre ele e não somente sobre o outro. Dessa forma, os sentidos não seguem somente uma direção e, para sua maior compreensão, é preciso se deixar afetar pela narrativa.
Existe um grau de confiança que devemos respeitar enquanto pesquisadores. Para que se faça um relato de si, é necessário abrir mão um pouco de si enquanto sujeito, porque somente na desposessão conseguimos narrar sobre nós (BUTER, 2015, p. 52). Dessa forma, instaura-se ainda mais uma questão política e ética em todas as partes envolvidas no processo. Iremos analisar essas narrativas e devemos ter em mente que por mais que elas comecem a fazer parte de nós, não são nossa propriedade, mas ao mesmo tempo também não pertencem somente ao sujeito que narra.
Ainda que existam normas anteriores às narrativas, estas nos dizem sobre a unicidade do sujeito que é exposta. Em uma relação de mútua afetação, o que nos torna únicos também fica à mostra e o entendimento disso faz com que nessa troca estejamos ligados um ao outro devido a singularidade de cada um de nós (BUTLER, 2015, p. 46). As narrativas nos mostram
60 que, ao fim, somos responsáveis uns pelos outros e devemos agir eticamente durante o processo de relação comunicacional.
Ademais, mesmo que existam forças para além da narrativa que o sujeito não controla, tenta-se considerar uma representação desse eu perante o outro, como pensado por Goffman. Há coisas que elegemos ao contar e até aquilo que não faz parte da nossa narrativa compõe tanto ela quanto nós mesmos. Ainda assim, existe uma relação de representação desenvolvida durante uma interação. É importante demarcar os papéis presentes nas conversas porque eles são desempenhados devido às suas presenças (GOFFMAN, 2002, p. 9).
A situação que se instaura em nosso caso, pesquisador em busca de ouvir as narrativas de sujeitos que se conheceram pelo Grindr, é definida tanto pelo objetivo geral da pesquisa como também por quem são os envolvidos nela. Quando elegemos esses papéis, todas as partes têm a capacidade de compreender que tipo de resposta, de comportamento, de representação se espera delas (GOFFMAN, 2002, p. 11). Como pesquisador que deseja obter uma resposta a seus questionamentos, há que se ficar atento à muitas questões que envolvem não somente os papéis que estão em jogo, mas também tudo o que contribui para que aquela situação comunicacional seja instaurada.
Como nosso objetivo é ouvir as narrativas dos sujeitos, não iremos interrompê-los enquanto eles nos contam suas histórias e isso nos coloca inicialmente em uma posição privilegiada de observador. É por isso que nos é tão cara a noção de cenário desenvolvida por Goffman e como podemos utilizá-la para criar um ambiente em que essa assimetria da superioridade entre as partes não fique tão evidente.
O cenário é “a mobília, a decoração, a disposição física e outros elementos do pano de fundo que vão constituir o cenário e os suportes do palco para o desenrolar da ação humana executada diante, dentro ou acima dele” (GOFFMAN, 2002, p. 29). Nossa ideia inicial é que o cenário das entrevistas deixe os entrevistados mais confortáveis. A sugestão é que se faça na casa de uma pessoa do casal, porque assim acreditamos que a ideia da superioridade do observador pode ser modificada. Os sujeitos ainda podem se sentir em desvantagem por fazerem relatos de si para um desconhecido, mas ao menos estarão em controle do cenário.
Julga-se muitas vezes que o controle do cenário é uma vantagem durante a interação. Em sentido estrito, este controle permite à equipe introduzir dispositivos estratégicos para determinar a informação que o público é capaz de adquirir. (...) Certamente é preciso pagar um preço pelo privilégio de realizar uma representação na própria casa; a pessoa tem a oportunidade de transmitir informações a seu próprio respeito por meios cênicos, mas nenhuma oportunidade de esconder as espécies de fatos transmitidos pelo cenário. (GOFFMAN, 2002, p. 90-92)
61 Sempre há uma relação de perdas e ganhos, então por mais que se ganhe por ter controle do cenário, também se perde ao potencializar que ele revele coisas que talvez os envolvidos não desejassem mostrar. Na passagem citada do sociólogo, ele utiliza o termo equipe, que significa quando duas ou mais pessoas estão em conjunto em uma mesma situação e devem cooperar entre si.
Nossas conversas serão feitas com cinco casais. Inicialmente, a apreensão do objeto empírico se fez primeiro com um sujeito do casal, depois com o outro e, ao fim, com os dois juntos, somando quinze narrativas. Após a Qualificação da pesquisa, as ordens se inverteram. De todo modo, no momento em que os sujeitos estão juntos poderemos perceber o caráter de equipe que se instaura durante o que é narrado.
Acreditamos que isso não significa que os sujeitos não podem descordar um do outro, mas tentaremos perceber em que medida a ideia de eles serem uma equipe se faz presente. Para nós, a demonstração da relação pode ganhar mais força durante esse momento, já que os dois corpos estão juntos, dividem o mesmo espaço e são interpelados pela mesma indagação de uma só vez.
A questão da representação não exclui nossa compreensão de que aquelas narrativas dizem sobre a história dos sujeitos. Ela está mais ligada ao modo como acreditamos que o outro irá nos perceber e isso instaura diversas maneiras de dar para a plateia, no caso o pesquisador e também a câmera que filma o instante, aquilo que cremos que ela espera de nós. Para ir um pouco nessa contramão e não dar muitas pistas sobre uma suposta resposta correta, nossas questões são abertas de modo a permitir que os envolvidos se sintam livres para contar e esconder aquilo que desejarem. Os papéis acionados e representados são uma maneira de conhecer o outro e a nós mesmos (GOFFMAN, 2002, p. 27).
A todo o momento devemos ter em mente que por mais que haja estratégias para que a realidade acionada por nossos papéis seja oferecida como verdadeira, assim como todas as realidades o fazem, a representação é sempre frágil. Goffman (2007) diz que até mesmo os contratempos minúsculos podem quebrá-la.
Com esse entendimento, percebemos que é realmente impossível esquecermos que os afetos estão presentes e agem em nosso entorno. Se a realidade da representação é facilmente perturbada, sempre há a chance de que sejamos afetados por algo inesperado que, até que aconteça, não conseguimos nem mesmo considerar, já que as possibilidades são infinitas. Por mais que coloquemos a realidade criada como um lugar do qual não queremos ou não devemos
62 sair, a todo o momento somos compelidos a lembrar que aquilo pode fugir do nosso falso controle.
É impossível se desfazer de nossas representações e em uma pesquisa que lida com as narrativas dos sujeitos esse é um óbice que precisa ser tensionado de modo a entendermos como devemos apreendê-lo. É por causa disso que consideramos nossa apreensão do objeto empírico como uma conversa, já que ela segue métodos mais flexíveis do que aqueles que são empregados em entrevistas. Acreditamos que dessa maneira podemos apreender melhor as nuances das narrativas, bem como estarmos mais propensos a lidar de forma aberta com os afetos que podem surgir durante as interações.