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A necessidade de respeito aos precedentes

No documento Recursos de revista repetitivos (páginas 70-74)

2.6 O DEVER DE RESPEITO AOS PRECEDENTES NO ORDENAMENTO JURIDICO BRASILEIRO

2.6.1 A necessidade de respeito aos precedentes

Vive-se, atualmente, uma crise de segurança jurídica. Em verdade, estamos mergulhados em uma crise do civil law, promovida pela revelação de que os dogmas que alicerçavam o direito codificado não se enquadram na realidade, carecendo de soluções adequadas para resolver os diversos problemas218. O único responsável, porém, não é o Judiciário.

Não se pretende debruçar sobre a crise pela qual enfrenta o Direito em toda a sua extensão, tampouco analisar os dogmas do civil law ou detalhar as vantagens e desvantagens da adoção de uma teoria de precedentes, cuja investigação excede substancialmente o escopo deste trabalho.

Restringe-se ao breve exame da crise de segurança jurídica e do déficit de confiança do jurisdicionado em face do desrespeito da igualdade no momento da aplicação do Direito, ou seja, da prolação de decisões judiciais, o que contribui para a imprevisibilidade destes pronunciamentos. Pretende-se, com isso, demonstrar a necessidade de respeito aos precedentes.

Não se pode olvidar que o Legislativo e o Executivo contribuem de modo significativo para o agravamento da crise ao gerar a instabilidade do Direito e, via de consequência, a imprevisibilidade das decisões judiciais, cenário retratado por Francisco Rosito219 da seguinte forma:

O Legislativo é responsável pelo expressivo número de leis e de alterações legislativas e constitucionais que são implementadas, motivadas muitas vezes não pela transformação social ou pela necessidade de constante adequação do Direito a novas realidades, o que seria plenamente legítimo. Muitas dessas alterações legislativas, cumpre ressaltar, são implementadas em nítida violação a direitos e garantias fundamentais, gerando imensa massa de lides. Além disso, as incertezas são potencializadas pelo número de normas jurídicas existentes, que em grande parte são expressas em linguagem prolixa, complexa e equívoca, criando sérias dificuldades para conhecer e aplicar o direito. [...]. Ora, é natural que quanto mais normas existam, maiores são as possibilidades de antinomias e de contradições internas no ordenamento jurídico. Por seu turno, o Executivo atua em desacordo

218 Interessante é a observação de Judith Martins Costa: “Hoje vive-se, diversamente, no ‘mundo da insegurança’. Esta não reside apenas na circunstância da multiplicidade de textos legais que abalaram a estrutura codificada, mas, fundamentalmente, da impossibilidade de manter-se, no universo em que vivemos, a integridade lógica do sistema. Profundas fissuras fizeram ruir a tríplice ideologia que sustentava a relação sistema-código, vale dizer, a ideologia da sociedade, a ideologia da unidade legislativa e a ideologia da interpretação”. MARTINS-COSTA, Judith. A boa-fé no direito privado: sistema e tópica no processo obrigacional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999, p.276.

219 ROSITO, Francisco. Teoria dos Precedentes Judiciais: racionalidade da tutela jurisdicional, Curitiba: Juruá, 2012, p.54-55.

com os seus deveres constitucionais, abusa da sua prerrogativa de legislar provisoriamente [...] e resiste injustificadamente às orientações e decisões judiciais.

E o autor conclui que o maior alimentador dos acervos judiciários é o próprio Estado, que se qualifica como Estado-inimigo, em face da multiplicidade de normas existentes, elaboradas pelo Legislativo e Executivo, muitas vezes expressas em linguagem obscura e complexa220.

Em meio à inflação legislativa e aos equívocos e arbitrariedades cometidos pelo próprio Estado, o Judiciário é instado a solucionar os inúmeros conflitos existentes, devendo fornecer as respostas adequadas às situações a ele submetidas. Esta equação não pode ter outro resultado a não ser processos morosos, tutelas inadequadas à proteção do direito material e a imprevisibilidade das decisões judiciais, sem falar na incômoda divergência jurisprudencial que carimba de forma deletéria o sistema e provoca uma crise de confiança na Justiça.

Em busca de alternativas para solucionar os problemas que assombram o Judiciário, o respeito aos precedentes desponta como técnica que pode atenuar ou eliminar a crise da segurança, pois proporciona a estabilidade da ordem jurídica, além da previsibilidade das consequências jurídicas de determinadas condutas221. Os precedentes permitem garantir a uniformidade da interpretação judicial, reduzem o abismo entre o indivíduo e a multiplicidade de leis, muitas vezes dotadas de textos obscuros, complexos, ambíguos, confusos, vagos ou contraditórios.

No entanto, um dos graves problemas do ordenamento brasileiro é que a segurança jurídica, normalmente, é associada à estabilidade e à previsibilidade da lei. Como se bastasse assegurar a observância destes fatores apenas no âmbito legislativo, descurando da existência de estabilidade e da previsibilidade das decisões judiciais, que poderiam variar conforme o caso, sendo prescindível a fixação de um sistema de precedentes judiciais para uniformizar a jurisprudência.

Não se pode, contudo, exigir que o comportamento do indivíduo seja pautado exclusivamente na lei, visto que ela depende de interpretação que só pode ser conferida pelo Judiciário. Por outro lado, não se tem segurança jurídica se o magistrado ignora o princípio da igualdade e decide em desacordo com os seus próprios precedentes e com os dos tribunais superiores.

220 ROSITO, Francisco. Teoria dos Precedentes Judiciais: racionalidade da tutela jurisdicional, Curitiba: Juruá, 2012, p. 55 e DINAMARCO, Cândido Rangel. Decisões Vinculantes. In: Revista de Processo, ano 25, nº 100, São Paulo: Revista dos Tribunais, out./dez. 2000, p. 168.

221 MARINONI, Luiz Guilherme, Precedentes obrigatórios. 2 ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 120-121.

Como o jurisdicionado vai creditar confiança em um sistema que permite decisões contraditórias sobre um mesmo objeto apenas por mudança de composição do órgão fracionário ou distribuição para juízes diferentes? Como o cidadão pode calcular os efeitos da sua conduta diante da enxurrada de decisões nos mais variados sentidos acerca de uma mesma situação?

É por isso que o juiz, no momento de julgar, deve ter em conta que a sua decisão não vale apenas para o caso concreto, podendo ser utilizada em casos semelhantes, ou seja, deve aspirar eficácia que transcenda o caso. A ratio decidendi deve ter pretensão de generalidade e aspirar validade para outros casos em nome do postulado de justiça (igualdade de aplicação da norma).

O Direito é um só e a interpretação da norma precisa ter um mínimo de harmonia para permitir ao jurisdicionado pautar sua conduta de acordo com a licitude. É necessário que se busque a “univocidade na qualificação das situações jurídicas”222, garantindo a previsibilidade e calculabilidade dos efeitos gerados pelo comportamento de quem o adotou. Deve-se garantir ao cidadão que se ele agir desta ou daquela maneira vai obter do Estado determinada consequência “x” ou “y”, lhe permitindo fazer escolhas lícitas para alcançar o resultado almejado.

É nesse sentido que Luiz Guilherme Marinoni223 alude à necessidade de igualdade diante das decisões judiciais e não somente igualdade perante a lei ou ao processo (tratamento das partes, procedimentos especiais, contraditório, acesso à justiça)224. Assim, a interpretação judicial deve ser uniformizada por quem detém constitucionalmente esse poder (STJ, STF, TST e etc), possibilitando que o cidadão encontre a segurança jurídica que tutelará as suas

222 A expressão foi utilizada por Luiz Guilherme Marinoni. Precedentes obrigatórios. 2 ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2011, p. 122.

223 MARINONI, Luiz Guilherme. Ibidem, vide tópico 2.2 “Precedente e igualdade”, p. 140-166.

224 Fredie Didier Jr., Paula Sarno Braga e Rafael Alexandria de Oliveira sustentam que o termo “lei” deve ser interpretado como “norma jurídica”, de modo que todos devem ser tratados como iguais diante da norma jurídica, independentemente da sua natureza e do seu produtor. DIDIER JR., Fredie; BRAGA, Paula Sarno; OLIVEIRA, Rafael Alexandria de. Curso de Direito Processual Civil. 8. ed. vol. 2. Salvador: Jus Podivm, 2013, p.445. Neste sentido, Luiz Norton Baptista de Mattos assinala que: "o princípio da isonomia não se direciona apenas ao legislador. O seu resguardo não demanda apenas que a lei outorgue iguais vantagens, ônus e obrigações àqueles que estão em situação idêntica segundo o critério de discriminação eleito pela norma jurídica. A lei, enquanto preceito genérico, impessoal e abstrato, não atinge imediatamente a esfera jurídica de quem quer que seja. São os atos concretos de sua aplicação que efetivamente condicionam as vidas das pessoas. Logo, a limitação do princípio à função legislativa implica torná-lo garantia formal, vazia, inconsequente e inútil. Não adianta assegurar que os indivíduos estão sujeitos à mesma lei, se cada um deles receber uma interpretação distinta daquele texto, a implicar, na prática, consequências, efeitos jurídicos diversos para fatos semelhantes". MATTOS, Luiz Norton Baptista de. O projeto do Novo CPC e o incidente de resolução de demandas repetitivas.

In: MENDES, Aluisio Gonçalves de Castro; MARINONI, Luiz Guilherme; WAMBIER, Teresa Arruda Alvim (coords.). Direito Jurisprudencial, vol. II, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 776.

ações, prevendo as consequências e a reação de terceiros ou do Estado se adotar dado comportamento.

A segurança jurídica não se obtém, portanto, apenas com o pleno conhecimento da lei, situação utópica, tampouco se esgota na capacidade de o cidadão conhecer a legislação de modo relativo (principais normas, mais conhecidas, populares ou específicas). Centra-se na previsibilidade das decisões, no conhecimento da jurisprudência acerca daquela matéria ou questão225.

Daí porque a jurisprudência não pode ser lotérica226, variando de acordo com a sorte do litigante de ter o seu processo distribuído para este ou aquele juiz ou para a turma “a”, “b” ou “c”, que ainda despreza o entendimento dos órgãos que lhes são superiores. Esse procedimento atenta contra a lógica e a funcionalidade do sistema criado hierarquicamente, a quem se outorgou a guarda da Constituição e a uniformização da interpretação da lei para órgãos específicos, constantemente desrespeitados em nome da independência do órgão jurisdicional227.

Os que desconhecem o sistema de precedentes advogam que a sua adoção retiraria a importância do magistrado na ordem jurídica, engessaria o direito e o tornaria injusto, ultrapassado ou inseguro228, quando o efeito é justamente o oposto. O juiz assume sua

225 Cumpre registrar os ensinamentos de Antônio Adonias A. Bastos sobre a necessidade de previsibilidade das decisões judiciais e calculabilidade das consequências geradas pelo comportamento do cidadão: “A inexistência de uma prognose sobre o conteúdo das respostas jurisdicionais impede que os membros da comunidade tenham uma percepção clara sobre a conduta que devem adotar, chegando mesmo a fazer com que deixem de praticar determinados atos ou de celebrar certos negócios, ante o risco a que podem se submeter em decorrência da instabilidade. A previsibilidade das respostas jurisdicionais contribui para o acesso à ordem jurídica justa. De um lado, ela propicia uma calculabilidade das consequências dos atos praticados pelos integrantes do grupo social, evitando o ajuizamento de demandas, pois as partes já conhecem o provável teor da decisão que viria a ser proferida. De outro lado, se, ainda assim, surgir conflito e se ele vier a ser apresentado ao Judiciário, haverá uma confiança no que diz respeito à solução que deverá ser adotada”. BASTOS, Antônio Adonias A. A estabilidade

das decisões judiciais como elemento contributivo para o acesso à justiça e para o desenvolvimento econômico.

In: Revista de Processo, vol. 227, p. 295, Jan / 2014, versão eletrônica, p.6.

226 CAMBI, Eduardo. Jurisprudência Lotérica. In: Revista dos Tribunais, ano 90, vol. 786. São Paulo: Revista dos Tribunais, abr.2001, p. 108-130

227 O voto do Ministro Humberto Gomes de Barros traduz bem este aspecto: “[...] Em verdade, o Poder Judiciário mantém sagrado compromisso com a justiça e a segurança. Se deixarmos que nossa jurisprudência varie ao sabor das convicções pessoais, estaremos prestando um desserviço a nossas instituições. Se nós – os integrantes da Corte – não observarmos as decisões que ajudamos a formar, estaremos dando sinal, para que os demais órgão judiciários façam o mesmo. Estou certo de que, em acontecendo isso, perde sentido a existência de nossa Corte. Melhor seria extingui-la”. STJ, Corte Especial. Julgamento em 01.02.2002. Ag Rg nos EREsp 228.432/RS, rel. Min. Humberto Gomes de Barros. DJ 18.03.2002.

228 Conferir SOUZA, Marcelo Alves Dias de. Do Precedente Judicial à Súmula Vinculante. Curitiba: Juruá, 2011, p.281-320, Marcelo Alves Dias de Souza, inclusive intitula o primeiro tópico do seu último capítulo como “13.1 Uma primeira palavra aos puritanos: a ignorância e o preconceito". Op. cit. p.281. NOGUEIRA, Gustavo Santana. Stare Decisis et Non Quieta Movere: a vinculação aos precedentes no direito comparado e brasileiro. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011, p.31-101; MARINONI, Luiz Guilherme. Precedentes Obrigatórios. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011, p.120-212; ROSITO, Francisco. Teoria dos Precedentes Judiciais: racionalidade da tutela jurisdicional, Curitiba: Juruá, 2012, p. 130-173

verdadeira função na engrenagem jurídica, o direito se aprimora, torna-se estável e previsível, autorizando o cidadão a depositar sua confiança no Judiciário. Um sistema que preza pela segurança jurídica das decisões judiciais, norteadas pelo princípio da igualdade, possibilita a harmonia e a coerência do ordenamento e a efetiva realização das normas fundamentais decorrentes da Constituição, reconhecendo o papel que o juiz assume na criação da norma jurídica.

O magistrado deve ter consciência da sua função jurisdicional e do seu papel no sistema de distribuição de justiça. Ele fala em nome do Estado, emitindo pronunciamentos que não podem ser personalizados neste ou naquele juiz, mas devem ser atribuídos ao Poder Judiciário.

Seguindo esta diretriz, o Estado-juiz tem a obrigação de tratar a todos com igualdade, conforme determina a Constituição Federal. Logo, se o órgão competente constitucionalmente para dar a palavra final fixou a interpretação do Estado-juiz sobre dada questão jurídica, construindo a norma do Judiciário, não há justificativa para o desrespeito ao precedente firmado.

Frise-se, a norma não é de determinado órgão judicial e não reflete a opinião do

homem-juiz, mas do Estado-juiz, que deve respeito aos princípios constitucionais e ao ordenamento. O sistema brasileiro é estruturado, como dito, hierarquicamente, e a Constituição optou pela definição do órgão competente para uniformizar a interpretação da lei e, assim, criar a norma jurídica geral que irá conduzir a solução do caso concreto pelos magistrados.

Em face deste panorama, não há como se negar a necessidade de respeito aos precedentes no Brasil e nem justificar a rebeldia dos juízes que não o aplicam, pois o dever de respeito decorre do próprio sistema, não sendo uma simples importação dos institutos do

common law.

No documento Recursos de revista repetitivos (páginas 70-74)

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