Capítulo II: Ficção Científica, Cibercultura e Pós-humanidade
3.2. Natasha Vita-More
3.2.2. A Obra Primo Posthuman 2005
O website artístico dedicado ao projeto conceitual Primo Posthuman 2005 57 já está on-line desde o ano 2000, sendo uma evolução de outro trabalho conceitual da artista Natasha Vita- More para a web intitulado Aestehetics of Memetic Evolution58. Neste projeto de arte telemática interativa de 1997, a artista já discutia a possibilidade de expansão ilimitada da vida com o avanço da tecnologia. Em uma das telas do trabalho, Vita-More questiona o navegador sobre o desejo de permanecer vivo com expressões e dados contundentes como um quadro cinético que fica repetindo a frase “3 pessoas morreram agora”, retratando o dado estatístico, segundo o qual no tempo em que a expressão se repete na tela 3 pessoas perdem a vida no planeta Terra. Abaixo desta frase que se repete em loop ela escreve: “Quantas pessoas poderiam ter vivido, mas não viveram. Quantas pessoas poderiam estar em suspensão criogênica, mas não estão”.
A atual versão do site Primo Posthuman 2005, inclui o subtítulo Future Body - The New [human] Genre Transhuman. A obra nada mais é do que um projeto conceitual para um corpo pós-humano, estando conectado aos ideais de seu Manifesto da Arte Extropiana. Segundo Vita, é um “protótipo conceitual para o corpo do futuro”. A concepção da obra surgiu em 2000 e desde seu princípio, o conceito tem passado por reformulações, no sentido de torná-lo mais detalhado e atualizado com os avanços da tecnologia e ciência, utilizando uma visão prospectiva do avanço tecnológico como arcabouço para a idealização de seu projeto radical para o corpo do futuro. O website de Primo Posthuman não é propriamente uma obra
57Primo Posthuman 2005 site – Url: http://www.natasha.cc/primo.htm , acessado em 05/01/2006.
58 O website de Aestehetics of Memetic Evolution, pode ser visto on-line no endereço:
interativa, ou lança mão de algum recurso tecnológico novo, ele simplesmente divulga os conceitos desenvolvidos para o corpo pós-humano imaginado por Natasha Vita-More, ou seja, não existe nem ao menos um protótipo ou algo similar, a obra de arte, neste caso, é simplesmente o conceito que lança mão da rede Internet para ser difundido.
O site funciona como uma espécie de guia de compra para os interessados em adquirir um Primo Posthuman, onde podemos ler expressões do tipo: “Primo pós-humano 2005- a nova versão - Mais conforto, melhor performance, menor preço”. A artista adota uma postura mercadológica, apelando para o desejo consumista do possível comprador, apresentando seu corpo pós-humano como se fosse um novo modelo de veículo, destacando suas inovações diante do modelo anterior - nosso corpo biológico-orgânico de base carbônica:
O design radical do corpo PRIMO é mais poderoso, com melhor suspensão e mais flexível – esse corpo oferece uma performance melhor, mais duradoura e um estilo moderno. O seu interior expansível vem com um avançado meta- cérebro e sentidos ampliados. Nosso sistema de comunicação espinhal criado por nanoengenharia funciona através de uma extensa rede de IA (inteligência artificial) com muitas características opcionais (VITA-MORE, 2003).
As vantagens do corpo pós-humano continuam a ser enumeradas em todo o site, incluindo curiosidades sobre o seu design moderno e sofisticado que “é um cruzamento de Frank Lloyd Wright, Le Corbusier & Valentine”, culminando em um quadro comparativo enumerando as vantagens do corpo Primo pós-humano em relação ao seu antecessor orgânico59:
Século XX - Corpo Século XXI – Primo Pós-Humano
Tempo limitado de vida Duração ilimitada
Genes herdados Genes substituíveis
Envelhecimento Upgrades
Erros do acaso Dispositivo de correção de erros Senso de humanidade Envolvido com a transhumanidade Capacidade de inteligência de 100
trilhões de sinapses Capacidade de inteligência de 100 quadrilhões de sinapses. Consciência unitária Múltiplos pontos de vista funcionando
paralelamente Gênero restrito (masculino ou
feminino) Possibilidade de mudança ilimitada de gênero Propenso a danos ambientais Impenetrável a danos ambientais Corrosão por irritabilidade, inveja
e depressão. Otimismo turbo-explosivo
Eliminação de dejetos e consumo
de gases Reciclagem e purificação dos resíduos.
Apesar da aparente “ironia” que poderia trespassar esse projeto artístico de Vita-More, percebe-se que ao desenvolver o conceito de seu corpo pós-humano como o de um produto, a
59 Esse quadro comparativo pode ser encontrado em uma das seções do site Primo Posthuman
artista não demonstra nenhuma ironia, ela acredita na futura viabilização desse corpo futurista e pensa que a melhor maneira de vendê-lo aos prováveis consumidores seria essa, ou seja, como um produto envolvido por uma campanha de marketing agressiva, enfatizando a obsolescência do “equipamento anterior” (corpo biológico/orgânico, de base carbônica). Em nenhum momento a artista fala sobre o possível custo de tal novo corpo, ou sobre o fato de que se ele realmente vir a existir será algo viável apenas para uma pequena elite. Não há preocupação social, a vida e o corpo são tratados como objetos, numa coerente postura individualista conectada ao liberalismo norte- americano, que está enraizado na ideologia extropiana, ramificando-se nesse “produto” da arte extropiana.
A criação de seu “corpo radical pós-humano” conta com uma “equipe científica multidisciplinar” de colaboradores, uma interação trans & interdisciplinar que vem crescendo a cada ano com o acréscimo de novos nomes: Max More (Filosofia), Robert Freitas (nanomedicina), Michael Rose (biologia evolucionária), Greg Fahy (criobiologia), Ralph Merkle (nanotecnologia), Marvin Minsky (inteligência artificial), Alexander Sasha Chislenko (realidade modificada), Roy Walford (gerontologia), Gregory Benford (físicista), Robin Hanson (economista), Vernor Vinge (matemático) e Hans Moravec (robótica), a artista procura dar credibilidade ao seu conceito, lançando mão das teorias futuristas desses cientistas.
Para Natasha Vita-More, na visão da arte apresentada em seu manifesto e explicitada em Primo Posthuman 2005, os artistas não passariam de designers sofisticados, preocupados em inventar formas para os novos produtos criados pela tecnologia avançada do futuro, aliados a uma nova economia de mercado, trabalhando possivelmente em grandes conglomerados empresariais futuristas, trustes da alta tecnologia.
Toda e qualquer experiência de transcendência ou sensibilidade é sobrepujada pelo “melhor desempenho”, numa postura materialista que remonta certos programas de qualidade total e reengenharia, apregoados por segmentos da nova administração empresarial, colocando o alto índice de produção acima do bem-estar humano. Em Primo Posthuman 2005, a qualidade é medida pela quantidade, quanto mais sinapses melhor, quanto mais vida melhor, quanto mais gêneros melhor, ser mais é ter mais.
Apesar da aparente idéia “futurista” do corpo pós-humano idealizado por Vita-More, ele parece estar altamente conectado ao paradigma atual de corpo, não se fala em novos sentidos, mas
na ampliação dos sentidos existentes, das formas de locomoção, da sensibilidade da pele e outros órgãos, mas eles se mantêm semelhantes aos atuais na forma e função. Isso pode ser visto nas imagens 3D criadas para representar Primo, muito simplórias e altamente semelhantes a um corpo humano atual, a não ser pela aparência metálica. Será que o corpo da geração pós-humana repetirá a forma do seu sucessor? Será que os sentidos serão os mesmos? Será que essa possível geração pós-humana precisará de um corpo físico? Estas são perguntas que Vita-More não responde em sua obra.
Em um trabalho artístico de minha autoria, a história em quadrinhos eletrônica Ariadne e o Labirinto Pós-humano60, propus uma sociedade futura, em que os organismos pós-humanos
evoluem de corpos ciborgues semelhantes ao humano para uma segunda classe de corpos biotecnológicos, que incorporam outras formas e outros sentidos para finalmente abandonarem a existência física e passarem a existir apenas como blocos de informação numa rede telemática interplanetária. Propondo assim uma possível transição gradual de humano para pós-humano, passando pelos estágios de transhumanidade, nessa perspectiva, o corpo imaginado por Natasha Vita-More nada mais é do que um estágio no sentido da evolução para a pós-humanidade, já que está altamente atrelado ao paradigma atual de corpo.
O projeto da arte extropiana parece estar, de certa forma, caminhando na direção contrária de muitas das atuais tendências artísticas ligadas à tecnologia, que procuram revalorizar a conexão do homem com seus aspectos místicos e transcendentes, utilizando a tecnologia como um canal. Observa-se isso claramente nas propostas de artistas como o inglês Roy Ascott, que cria conexões entre ciberespaço e xamanismo para expansão da consciência, assim como os brasileiros Gilbertto Prado e sua obra Desertesejo (2000), um espaço 3D multiusuário para a web onde navegadores remotos podem incorporar avatares que remontam a tradição ritualística Andina e ainda Diana Domingues com obras como TRANS-E: My body, my blood (2002), que propõe um transe eletrônico por meio de uma instalação interativa, fazendo um paralelo com os transes conseguidos pelos xamãs em seus rituais. O materialismo excessivo parece ser um dos resultados do culto à tecnologia postulado pela chamada "Arte Extropiana", gerando a singularidade de sua proposta dentro do panorama atual da arte- tecnologia.
Apesar das críticas ao trabalho da ciberartista, é importante frisar que Primo Posthuman 2005 é um exemplo seminal de poética prospectiva eutópica. Nele, é possível detectarmos claramente um maravilhamento desmedido diante dos vislumbres da tecnologia no que diz respeito ao aumento da longevidade ou até à imortalidade. O caráter transdisciplinar e a pretensão visionária também são evidentes na obra. Além disso, podemos perceber várias características cyberpunks, como o descaso com o corpo orgânico, o hibridismo tecnológico, o desinteresse pela reprodução biológica, a reinvenção do corpo através de uma prótese tecnológica e o questionamento do conceito de humano, propondo sua superação pelo pós- humano.
60Ariadne e o Labirinto Pós-Humano, trabalho presente no CD-ROM HQtrônicas – Parte integrante do meu livro HQtrônicas: Do Suporte papel à Rede Internet, São Paulo: Annablume, 2005.