A paróquia, uma comunidade evangelizadora

No documento A Paróquia e a Nova Evangelização (páginas 15-25)

1. A missão evangelizadora da paróquia

1.2. A paróquia, uma comunidade evangelizadora

A nova evangelização exige, por parte da paróquia, um inevitável questionamento da sua ação. Não porque se encontre equivocada naquilo que oferece, mas precisamente para que seja incisiva e transformadora do mundo em que vive através dos seus fiéis. Já dissemos que a communitas christifidelium, de que nos fala o cânone 515 §1, que é a paróquia, é uma comunidade de fiéis de Cristo, de homens e mulheres santificados pelo Batismo, incorporados no Corpo de Cristo, que eles são todos corresponsáveis da missão de todo o Corpo eclesial. Podemos afirmar que todo o batizado é “partner” na missão da Igreja, ainda que de maneira diversificada. Dissemos também que a paróquia é o lugar por excelência da evangelização, quer ad intra que ad extra. A primeira grande dificuldade que encontra uma paróquia, ao partir para a evangelização, é a tomada de consciência, pelo menos de uma boa parte dos seus membros, da sua missão e do

CIC 83, c. 205.

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SAN JOSÉ, J., La «gobernanza» o el «buen gobierno» de la parroquia, 3109-3122.

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necessário compromisso. Portanto, esta tomada de consciência é o passo fundamental.

Será sempre impossível que o assumam todos os membros, mas urge que se consciencialize um bom grupo.

A partir daqui as comunidades paroquiais não podem mais ignorar que, nelas e ao seu redor, existe um pluralismo cultural e religioso crescente em que o Evangelho de Jesus Cristo já não é conhecido. Ao longo da história a paróquia mostrou-se uma estrutura flexível, embora com dificuldades, mostrou-se capaz de se adaptar à realidade concreta de cada local e de responder a mudanças sociais e culturais. Também nesta época, marcada pelo secularismo, relativismo e fenómenos de grande mobilidade humana ela vai ser capaz de estar à altura de anunciar Cristo aos homens que nela vivem. Por isso, a paróquia deve ser casa que está disposta a aceitar e ouvir as esperanças das pessoas, os seus medos, as suas dúvidas e as suas expetativas . 36

Já dissemos anteriormente que a paróquia é a estrutura pela qual a maioria dos homens e mulheres entram em contacto com a Igreja e onde os fiéis realizam os seus direitos e deveres fundamentais e obtêm os meios para a própria salvação. Ela tem de estar aberta a todos, principalmente aos mais pobres e fracos, e às angústias dos homens de hoje e oferecer-lhes corajosamente e, de forma expressiva, um anúncio credível da verdade, que é Cristo. O acolhimento cordial, gratuito, é a primeira condição para a Evangelização. Não podemos querer uma paróquia acolhedora, aberta, disponível...

tendo as portas das suas igrejas fechadas e sem um serviço de atendimento permanente.

As nossas paróquias precisam de ter abertas as portas das suas igrejas e templos . 37 Quantas pessoas, fora dos momentos celebrativos, encontramos nas nossas igrejas em clima de oração. Algumas delas, fiéis por vezes “afastados”. As paróquias maiores e mais centrais, devem possuir um serviço de atendimento, seja uma secretaria ou cartório paroquial. Cada paróquia há de encontrar, os recursos humanos e materiais para que o acolhimento seja uma realidade. A colmatar este acolhimento um pároco disponível.

CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota pastoral, Il volto missionario delle parrocchie in un

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Não devemos esquecer a riqueza de arte e história que possuem muitas das nossas paróquias: edifícios, pinturas, esculturas, arquivos, bibliotecas... por vezes não é necessário muito para um despertar religioso e para estabelecer um diálogo entre a cultura e a fé . 38

No meio de processos difusos de descristianização, que geram indiferença e agnosticismo, as vias tradicionais da transmissão da fé, em muitos casos, são impraticáveis, como era o caso das famílias. De algum modo, tem de ser agora a paróquia, a cumprir esta missão . Toda a comunidade tem de sentir esta missão e 39 responsabilidade. Até agora, os sacramentos do Batismo, da Eucaristia e da Confirmação foram recebidos no contexto da vida familiar, já orientada para Cristo, apoiados por uma preparação catequética. Hoje, no entanto, existem famílias que não pedem o Batismo para os seus filhos, meninos batizados que já não têm acesso aos outros sacramentos da iniciação, abandonam a missa dominical, e, muitas vezes, depois de receberem o sacramento da Confirmação, desaparecem definitivamente da vida da Igreja. Não demitamos as famílias desta responsabilidade. A iniciação cristã das crianças continua a desafiar a responsabilidade original da família na transmissão da fé.

O envolvimento da família começa antes da idade escolar, e a paróquia tem de oferecer aos pais os elementos essenciais que ajudem a fornecer o "alfabeto cristão" aos seus filhos.

Contudo, a iniciação cristã, tem o seu colo insubstituível na paróquia. Aí deve encontrar a unidade em torno da Eucaristia. Aos jovens e adultos têm de ser oferecidos novos e viáveis caminhos para a iniciação ou a renovação da vida cristã. Já o dissemos anteriormente, trata-se de passar da catequese como instrução e adotar a metodologia catecumenal. Se queremos manter nas nossas paróquias a capacidade de oferecer a todos a oportunidade de acesso à fé, a crescer nela e testemunhá-la em condições normais de vida, a reformulação é necessária. Não cabe aqui o debate sobre a ordem

FISICHELLA, R., La nueva evangelización, 119-132.

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CIC 83, cc. 773; 774 §§ 1 e 2.

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como são oferecidos os sacramentos da iniciação cristã, concretamente a Eucaristia e a Confirmação, mas será útil um debate canónico-pastoral sobre esta questão . 40

A paróquia, portanto, não pode apenas oferecer hospitalidade para aqueles que procuram os sacramentos como uma expressão da "necessidade religiosa". Ela tem de evangelizar e educar a questão religiosa, tem de despertar a questão religiosa de muitos, testemunhando a fé, face aos não-crentes. A paróquia tem de expressar a imagem de uma mão que continua a gerar seus próprios filhos dentro de um caminho de transmissão geracional da fé. Como dizia Tertuliano (155–222), “ninguém nasce cristão, torna-se cristão”.

Todos os domingos, em todas as paróquias, o povo cristão reúne-se a partir de Cristo para celebrar a Eucaristia, em obediência ao seu pedido: «Fazei isto em memória de Mim" (Lc 22, 19). Na Eucaristia, Cristo crucificado e ressuscitado está presente entre o seu povo. Na Eucaristia e pela Eucaristia se gera e regenera constantemente a Igreja de Cristo. Sem Eucaristia não há Igreja, não há missão . A vida paroquial tem de ter o seu 41 centro no dia do Senhor e na Eucaristia, que é o coração do domingo. É necessário trabalhar para que floresça o sentido de comunidade, sobretudo na celebração comum da missa dominical. É a atividade que mais gente congrega e com a qual mais se identifica a comunidade. Evitar que se multipliquem as missas por diferentes horários e distintos templos, dentro da mesma paróquia. Na medida do possível reúna-se a comunidade paroquial numa grande assembleia. A Eucaristia deve ser a fonte e o cume de toda a ação pastoral e evangelizadora. Ela deve ser bem preparada oferecendo aos fiéis uma experiência comunitária de qualidade, com cânticos apropriados, uma homilia breve mas assertiva, a participação dos diferentes serviços ministeriais... uma celebração festiva, alegre sem perder a dimensão mistagógica que abra à transcendência . 42

É necessário recuperar o sentido religioso do domingo e redescobrir a sua dimensão profética. As condições de vida impostas pela modernidade levaram ao obscurecimento

CONFERÊNCIA EPISCOPAL ITALIANA, Nota pastoral, Il volto missionario delle parrocchie in un

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mondo che cambia.

CIC 83, c. 897; JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Ecclesia de Eucharistia (17-IV-2003), 1, in:

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AAS 95 (2003) 433-457.

SAN JOSÉ, J., La «gobernanza» o el «buen gobierno» de la parroquia, 3108-3109.

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do Domingo. A sua revalorização, pela comunidade paroquial, mantendo a relação harmoniosa entre ecclesia, eucharistia e dies dominica, parece hoje uma luta titânica.

Mas comecemos por desenvolver nos fiéis uma consciência eclesial, que vai para além da missa dominical, sobre a vivência do domingo. Para o cristão, o domingo, é o dia da alegria, do repouso e da solidariedade . Não haverá renovação paroquial sem se 43 descobrir a beleza da fé que vence o individualismo, levando a comunidade a superar a mentalidade de viver uma religiosidade sem compromisso eclesial, e cada fiel a encarar o dia do Senhor como dia de testemunho e de missão . 44

A missão paroquial é servir a fé das pessoas. Mas não uma fé desencarnada, mas uma fé que se vive na situação concreta em que cada um se encontra. A paróquia tem de ter sempre presente que é uma família de famílias. Em primeiro lugar, a preparação do matrimónio . Para muitos é uma oportunidade de contacto com a comunidade cristã, 45 após anos de ausência. Deve tornar-se num momento especial de recuperação da fé.

Momento oportuno para tornar Deus conhecido, fonte e garantia do amor humano;

conhecer Jesus Cristo, a revelação do Pai como a medida de todo o amor verdadeiro;

conhecer a comunidade dos seus discípulos, na qual a celebração da Palavra e dos Sacramentos ajuda a caminhada do casal, muitas vezes, apoiada num amor precário . 46 Um segundo momento a ter em conta é o nascimento dos filhos, especialmente o do primeiro. Existem muitos pais que pedem o Batismo para os filhos devendo ser convenientemente preparados, não só para o rito mas ajudados a redescobrirem o sentido da vida cristã e a tarefa educativa que assumem.

Finalmente, não podemos esquecer os momentos de dificuldade das famílias, especialmente devido à doença ou a outro sofrimento, como a morte. Particularmente nestes momentos as pessoas sentem a necessidade de uma palavra e um gesto que expresse a partilha humana e se prolongue no mistério de Deus. Aqui é decisivo o papel do pároco, bem como de outras pessoas comprometidas na paróquia, que são a

JOÃO PAULO II, Carta Apostólica Dies Domini (31-V-1998), 35, in: AAS 90 (1998) 713-766.

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BORRAS, A.; ROUTHILER, G., La nueva parroquia, 60-67.

44

SAN JOSÉ, J., La «gobernanza» o el «buen gobierno» de la parroquia, 3107.

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AZNAR, F., Derecho Matrimonial Canónico - Vol. I: Cánones 1055-1094, 2ª ed., Salamanca:

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Publicaciones UPSA, 2007, 162-172.

expressão de uma comunidade que acolhe, que afasta o isolamento e a descriminação.

Um momento importante é a oração nas horas em se velam os defuntos. Tenha a paróquia pessoas preparadas para orientar estes momentos profundamente marcantes na vida das famílias.

A paróquia foi criada e cresce em estreita ligação com o território, como uma resposta às necessidades das suas ramificações. Graças a este vínculo tem sido capaz de manter essa proximidade; a Igreja mantém uma proximidade com o quotidiano das pessoas.

Hoje, essa relação torna-se cada vez mais complexa: a mobilidade humana e tantas vezes os limites territoriais da paróquia já não contêm as vivências das suas gentes, mas apesar de todas estas questões as pessoas continuam a ter uma determinada terra e um determinado lugar como ponto de referência. Por isso, a paróquia deve continuar a servir os homens e mulheres que ali vivem ou por ali passam. Ela deve cooperar com os outros atores e instituições sociais, promovendo a cultura e o desenvolvimento integral da pessoa humana.

A paróquia não pode agir sozinha: é preciso uma "pastoral integrada". Já o dissemos: ela é uma estrutura indispensável, na unidade da Diocese . Ela é a comunidade de pertença 47 natural, na qual os fiéis de Cristo escutam a Palavra de Deus, celebram os Sacramentos, vivem a caridade e anunciam o Evangelho. No entanto, ela por si só, sem estar em comunhão com a Igreja particular, nunca poderá realizar toda a missão evangelizadora.

Deve ser abandonada qualquer pretensão de auto-suficiência, as paróquias estão ligadas umas às outras, por vezes com diferentes formas, dependendo da situação – a partir de arciprestados, de unidades pastorais. coordenação e integração, mas de verdadeira liderança do plano pastoral, chamando a

CIC 83, c. 374 §§1 e 2.

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SAN JOSÉ, J., Derecho Parroquial, 83-98.

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todos a viverem em comunhão diocesana e pedindo a todos para reconhecerem a sua paróquia como uma presença concreta e visível da Igreja particular naquele lugar.

Conclusão

A paróquia, enquanto comunidade de fiéis, constituída de forma estável na Igreja particular, cuja cura pastoral, foi confiada a um pároco, sob a autoridade do Bispo diocesano, como seu pastor próprio, é sem dúvida a forma habitual de os homens se incorporarem na Igreja. Esta estrutura eclesial, normalmente territorial, é onde se garante aos fiéis os elementos essenciais da Igreja de Cristo: o anúncio da Palavra de Deus, a celebração dos sacramentos, em especial o da Eucaristia, a comunhão do Espírito Santo e o serviço da caridade.

Neste sentido, a paróquia é o lugar por excelência da evangelização, quer ad intra que ad extra. Cada paróquia, expressando a sua peculiaridade, sob a guia do seu pastor próprio, reconhecendo-se porção da Igreja particular, à qual pertence e da qual depende, está chamada à conversão missionária e evangelizadora. Ela é ao mesmo tempo destinatário e sujeito da evangelização, tendo consciência que é chamada a manifestar naquele lugar a Igreja de Cristo, deve anunciá-Lo, com alegria, nas “periferias” do seu território. Ela é justamente designada como a “Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e filhas”.

A paróquia é um lugar privilegiado de evangelização, contrariamente a algumas vozes que, por vezes, a apontam como uma estrutura obsoleta na Igreja, incapaz de responder aos novos desafios contemporâneos, face a fenómenos como a mobilidade humana, o urbanismo, a desertificação, etc. Cada paróquia tem necessidade de ser constantemente renovada, repensada e reformulada na sua maneira de atuar, nos seus planos pastorais, mas como estrutura jurídica básica, de atenção pastoral, ela continua a estar à altura de dar respostas concretas ao ambiente secularizado em que vivemos. A paróquia é na verdade, comunidade de fé, comunidade celebrativa, comunidade de caridade e presença evangelizadora da Igreja na sociedade e no mundo.

A convocatória para a nova evangelização exige da paróquia a reconsideração da sua ação. Não porque se tenha equivocado n’Aquele que oferece, mas precisamente para que seja incisiva, levando os fiéis a uma transformação das suas próprias vidas, apresentando o seu testemunho na sociedade em que vivem. Não se pode perder de vista que o chamamento universal ao apostolado está estritamente unido ao chamamento

universal à santidade. Daí que santidade e apostolado não podem existir separadamente.

A paróquia tem de ser, constantemente, repensada e inovada porque o ambiente em que vive agora é novo. Não se trata de um contexto de paganismo mas de secularização, onde a abordagem religiosa da pessoa humana a Deus é questionada em si mesmo, e onde a mediação eclesial é recebida como um obstáculo, mesmo para muitos fiéis.

Perante deste cenário, a paróquia necessita de uma adequação ao seu contexto, uma adequação ao seu próprio território, segundo as novas circunstâncias, revitalizando os seus costumes e tradições identitárias e adotando novas formas de presença e proximidade aceites por todos.

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