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A passividade dos gestores produtivos do capital

No documento thiagomartinsjorge (páginas 103-109)

5. AS RESPOSTAS DOS GESTORES DO CAPITAL NO CONTEXTO DA

5.1 OS GESTORES DO CAPITAL NA FASE EXPANSIVA (2004 A 2008)

5.1.2 A passividade dos gestores produtivos do capital

Ainda assim, quando encaramos o impacto desse cenário no desenvolvimento do verdadeiro capitalismo no Brasil, a passividade dos gestores do capital produtivo é a grande marca do período (gráfico 12). Embora a taxa de lucro comece a se elevar já no final de 2002, os gestores produtivos só aceleraram o ritmo dos investimentos a partir de 2006. Como nos indica o Gráfico 13, até então, a estratégia adotada foi reduzir endividamento e apostar na ampliação do nível de utilização da capacidade produtiva instalada.

Gráfico 12 - Proporção do lucro média investida (%) (2000 a 2016)

Fonte: Theodosio (2019)

Os Gráficos 12 e 14 nos ajudam também a notar que, mesmo quando ampliaram os investimentos, o fizeram de forma homeopática. Podemos ver que a indústria nacional operou quase 7 anos (de 2008 a 2014) acima da sua capacidade produtiva regular: a qual, devemos enfatizar, já estava tecnologicamente muito defasada em relação aos principais players mundiais.

No Gráfico 9, por sua vez, vemos a evolução da produtividade das indústrias brasileiras em relação às indústrias norte-americanas. Com isso, somos capazes de tatear o tamanho do atraso da indústria nacional. Nessa direção, vale adicionar que mesmo a indústria norte-americana apresenta um não desprezível atraso tecnológico em relação às indústrias japonesa, alemã e sul-coreana (IEDI, 2018).

A passividade dos gestores do capital produtivo mostrar-se-á ainda mais danosa para o capital produtivo quando analisarmos a evolução da relação lucros x salários. Num cenário em que os gestores políticos priorizavam a valorização salarial, e tal medida era bem recepcionada pelo capital comercial, ao invés de os gestores do capital produtivo aumentarem a sua independência em relação às reivindicações da força de trabalho (aumentando a relação capital constante / capital variável, gerando desemprego e, assim, pressionando negativamente os salários), optaram por apostar largamente no emprego massivo de força de trabalho.

Gráfico 13 - Taxa de lucro sobre o patrimônio líquido (eixo da esquerda) e alavancagem (eixo da direita)

(2000 a 2015)

Fonte: Theodosio (2019)

Gráfico 14 - Utilização da capacidade instalada na economia brasileira (2002 – 2018)

Fonte: Gala (2018)

Reforçando o caráter atrófico do capitalismo brasileiro, o setor da indústria nacional em que os gestores foram mais comedidos nos investimentos é justamente o setor em que

mais se esperava uma alta nos investimentos: o setor Baseado em Engenharia e P&D. Na Tabela 3 vemos que o nível de investimento em relação ao valor agregado do setor Baseado em Engenharia e P&D fica muito próximo do setor Intensivo em Trabalho, em que o volume de investimentos demandado é mais baixo. Tessarin (2019) acrescenta que os gestores produtivos atuando em empresas transnacionais com filiais no Brasil também investem menos aqui do que em outros países. Nessas condições, é impossível imaginar que os setores de alta tecnologia do país iriam se desenvolver e se tornarem mais competitivos no mercado internacional.

Tabela 3 - Taxa de Investimento a preços correntes na Indústria: Aquisição mais Melhorias menos Baixa de ativos tangíveis/Valor adicionado

(2007, 2013 – 2015)

SETORES 2007 2013 2014 2015

Total da indústria 24,1 24,1 23,5 22,2

Baseado em recursos naturais 36 37 33,7 32

Intensivo em trabalho 8,8 8,8 7,7 6,1

Intensivo em Escala 21,7 17,7 20,7 20,4

Baseado em Engenharia e P&D 9,7 10,3 11 10,4

Fonte: adaptado pelo autor, a partir de IBGE/MP, Contas Nacionais Trimestrais

Podemos, no entanto, perguntar-nos sobre a possibilidade dos gestores do capital produtivo atuantes no setor de produtos baseados em Engenharia e P&D agirem de forma distinta, uma vez que são muitas as alegações de que as condições encontradas por ele impediriam qualquer tipo de reação. Num dos mais recentes estudos do Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (IEDI, 2018), muito se falou do caráter incipiente da estrutura nacional de pesquisa e desenvolvimento tecnológico (centros de pesquisa desintegrados, subfinanciados, etc.). Num momento em que a competição internacional se intensifica e, portanto, crescem as barreiras que impedem o acesso às principais tecnologias, a incapacidade em se desenvolver internamente novas tecnologias impossibilitaria uma ação mais contundente dos gestores do capital produtivo.

Por outro lado, citamos no capítulo anterior algumas estratégias empregadas em outros países para enfrentar essas dificuldades. A partir de Brenner (2006), destacamos a aproximação entre gestores econômicos e gestores políticos, no Japão, criando um plano nacional para o desenvolvimento industrial. Tessarin (2019), por exemplo, sugere a criação de políticas públicas que incentivem a ampliação de investimentos em P&D: “com estímulos à

transferência de tecnologias, instalação de centros de pesquisa, parcerias com instituições nacionais de desenvolvimento tecnológico, etc. Essa é uma linha que a China vem seguindo e alçando sucesso”. Na mesma linha, Tessarin, Suzigan e Gilhoto (2019) defendem a constituição de redes de cooperação para o sucesso dos investimentos em P&D.

Ainda seguindo os passos dos autores, a partir da comparação entre o padrão de respostas efetivado no Brasil e o padrão efetivado em outras economias, eles apontam uma diferença fundamental. No segundo grupo, enquanto os gestores atuantes em setores de menor intensidade tecnológica tendem a priorizar investimentos na aquisição de novas máquinas e equipamentos, os gestores atuando em setores de maior intensidade tecnológica tendem a priorizar investimentos em P&D. Já no Brasil essa diferença independe do setor de atuação, mas sim da criação de redes de cooperação. Os gestores das empresas que inovaram sem relação de cooperação - cinco sextos das inovadoras - concentraram seus investimentos na aquisição de máquinas e equipamentos (TESSARIN; SUZIGAN; GUILHOTO, 2019). Do outro lado, “as empresas nacionais que cooperaram se destacam por realizarem elevados gastos com P&D, especialmente o grupo de alta tecnologia” (TESSARIN; SUZIGAN; GUILHOTO, 2019, p. 22).

Contudo, alinhados com as reclamações dos pesquisadores ligados à indústria nacional (IEDI, 2018), os autores também denunciam as dificuldades em se criar uma rede de cooperação no Brasil. Para estabelecer redes de cooperação, os gestores do capital produtivo se viram obrigados a estreitar laços com “clientes e fornecedores, por isso o esforço teve que ser maior do que das empresas estrangeiras, pois não tinham a opção de contatar outras empresas do grupo para aproveitar informações de pesquisas já realizadas” (TESSARIN; SUZIGAN; GUILHOTO, 2019, p. 22).

Temos aqui, portanto, um caso claro em que a dinâmica econômica (que não pode ser divorciada das respostas efetivadas pelos gestores do capital no passado) impõe grandes limitações aos atuais gestores do capital, o que não significa, contudo, que há somente um único curso possível de ação.

Avançando ainda mais sobre o padrão dos investimentos dos gestores econômicos, devemos destacar o volume dos investimentos efetivados pelos gestores atuantes no setor extrativista. Enquanto a taxa de investimento média da indústria nacional era de 24%, os gestores das indústrias que exploram os recursos naturais (com destaque para petróleo e derivados) efetivavam investimentos acima dos 35% (tabela 3). Com isso, esse setor apresentou um ritmo elevado e constante de crescimento, mantendo a sua posição de liderança no setor industrial brasileiro (Gráfico 15).

Há, portanto, um forte contraste entre o caminho seguido pelos gestores das empresas extrativistas e os demais setores. Enquanto o setor extrativista segue em expansão até a crise, “o número de empresas inovadoras da indústria de transformação brasileira se manteve estagnado entre 2003 e 2014” (TESSARIN; SUZIGAN; GUILHOTO, 2019, p. 26). Um retrato disso é que os maiores lucros acumulados em território nacional no ano de 2008 foram auferidos por duas empresas que exploram os recursos naturais (Petrobrás e Vale) e dois bancos comerciais (Bradesco e Itaú Unibanco). Vale ainda adicionar que o peso do setor extrativista na composição do PIB brasileiro dobrou entre 2000 e 2010, de 5% para 11,2% (PETROBRÁS, 2014).

Gráfico 15 - Participação dos setores da indústria no PIB nacional (2003 – 2017)

Fonte: IBGE/MP, Contas Nacionais Trimestrais

Por outro lado, o conservadorismo dos gestores econômicos brasileiros, quanto à ampliação de investimentos nos setores mais tecnológicos, impactou positivamente na redução do nível de desemprego. Ao conterem os investimentos, os gestores do capital produtivo optaram por ampliar o uso de força de trabalho em detrimento de máquinas poupadoras de trabalho. Nesse diapasão, a taxa de desemprego cai “de 12,3 por cento em 2003 para 6,7 por cento em 2010” (MARQUETTI; HOFF; MIEBA, 2016, p. 10), o que é um

movimento importante diante do plano de ampliação do mercado interno efetivado pelos gestores políticos.

O impulso decisivo para a expansão econômica, no entanto, veio do boom internacional nos preços das commodities, que envolveu os setores industriais que exploram os recursos naturais numa espiral extremamente positiva. Acompanhando os Gráficos 14 e 15 podemos, no entanto, antever o ponto final dessa fase expansiva. Em ambos notamos uma queda abrupta das curvas no final de 2008 e início de 2009. Não coincidentemente, trata-se do momento em que a crise estadunidense converte-se numa crise mundial.

No documento thiagomartinsjorge (páginas 103-109)