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4.2 Os fundamentos da memória, da cognição e da linguagem: a percepção, a atenção e a consciência

4.2.1 A percepção e o reconhecimento dos objetos

Para memorizarmos qualquer informação é primeiro preciso percebê-la. O que nos faz percorrer um lugar e perceber que é uma sala, que tipo de sala e que ali há uma cadeira para sentar? Isto é resultado do processo cognitivo de reconhecimento de objetos. Este processo ajudará a distinguir aquela palavra-chave que você apenas passando os olhos em um texto. O reconhecimento é fortalecido por três fatores: o contexto, o conhecimento anterior do observador e as expectativas do observador. Isto significa que quanto mais experiente nos tornamos em um tema, mais fluentes na leitura nos tornamos. Para reconhecermos um objeto complexo, conjugamos cognitivamente grupos de características físicas simples (processamento bottom-up) e nossos conhecimento e expectativas (processamento top-

down) com o contexto. Estes dois processos acontecem simultaneamente:

Você conhece uma xícara de café graças a dois processos simultâneos: (1) o processamento bottom-up pressiona você a registrar as características componentes, como a curva da asa de uma xícara; e (2) em função do processamento top-down, o contexto de uma cafeteria encoraja você a reconhecer a asa da xícara mais depressa. (MATLIN, 2004, p. 28).

Você reconhecerá as coisas que já conhecia mais rápido do que possa explicar como e porque sabe que aquele objeto é uma xícara. Entretanto, nem todas as vezes estes dois processos estão em equilíbrio e algumas vezes isto nos traz vantagens, como no caso da leitura.

4.2.1.1 A influência do processamento top-down na leitura e audição

A maior parte das pesquisas sobre reconhecimento de objetos está focada em como o contexto ajuda reconhecer as letras durante a leitura. Observemos a importância do nosso estoque de conhecimentos em relação à leitura: para que pudéssemos ler baseados somente nos estímulos, precisaríamos ser capazes de analisar 5.000 características por minuto de

leitura. Seria impossível! Por isto, temos fenômenos como o da supremacia da palavra que nos capacitam a [...] identificar uma única letra com mais exatidão e rapidez quando ela surge e àu aàpalav aàdoà ueà ua doàelaàsu geàsozi ha. àMáTLIN, 2004, p. 29). Significa que se u aàlet aàestive à aàpalav aàtese ,àse à aisàfa il e teàe o he idaàdoà ueà aà oàpalav aà

tees’. Oàleito àte à aisàfa ilidadeàe àle àaàpalav aàtese à esteàtextoàdoà ueàaàpalav aàa a axi à por causa do contexto.

A supremacia da palavra funciona tanto na leitura quanto na audição. Ainda que não pronunciemos todas as letras na palavra, ela será reconhecida. Uma explicação baseada na neurociência é

De acordo com o modelo conexionista, quando uma pessoa vê características em uma palavra, essas características ativam unidades de letras. Essas unidades de letras ativam, então, uma unidade de palavra que a pessoa tem no seu dicionário mental para aquela combinação de letras. Uma vez ativada aquela unidade de palavra, o feedback neural excitatório ajuda a identificar as letras em separado. Como resultado, as pessoas conseguem identificar letras mais depressa do que identificariam se não houvesse qualquer feedback excitatório fornecido pelo contexto de palavras. (MATLIN, 2004, p. 29).

Ao que parece, não decodificamos letra a letra, palavra a palavra, mas unidades de sentido são atribuídas a signos ou grupos de signos em unidade, o que mostra uma coordenação dos processamentos top-down e bottom-up, mas uma guia do processamento

top-down. O tamanho do dicionário mental (palavras conhecidas) e da memória de trabalho

influencia muito na velocidade e na qualidade da leitura. As primeiras letras na palavra ajudam a identificá-la e as outras palavras da frase ajudam a compreender o todo.

Entretanto, nosso processamento perceptivo não é tão cristalino quanto se possa imaginar. Lembramos ao leitor de uma das premissas cognitivas: o processo cognitivo é ativo e interativo. Isto pode produzir facilitações, mas também distorções e limitações. O processamento de reconhecimento dos objetos pode ser distorcido ou limitado pelo menos de três maneiras:

- pelo processamento top-down superativo; - pela visão cega das mudanças; e

4.2.1.2 Distorções ou limitações do reconhecimento de objetos

Como dissemos, a percepção humana é inexoravelmente humana, interage e se transforma sofrendo limites ou distorções. Por vezes, acrescentamos informações que não estão lá, outras, não as consideramos, mesmo lá estando e nem sempre nos damos conta disto.

4.2.1.2.1 O processamento top-do àsupe ativo:à ua doàve osàoà ueà devia àesta àlá...à Por vezes, as nossas expectativas e conceitos prevalecem aos estímulos reais e vemos o que devia àesta lá,... mas não está realmente. Às vezes, exageramos no processamento

top-down e podemos obscurecer o que os estímulos dizem. A Professora MATLIN (2004) traz

um estudo de May Potter e colaboradores (1993), que demostrou essa tendência a usar demais uma boa estratégia com relação à leitura. Ao lerem uma lista de estímulos cuja metade eram palavras e a outra metade não palavras (misto de letras ao acaso), foi dado para a visualização 1/10 de segundo por palavra. A velocidade só permitiu ler corretamente 57% das palavras e 10% das não palavras. Entretanto, em 42% das tentativas de acertar a não palavra, ela foi substituída por uma palavra real. Isto indica que ao lermos algo rapidamente temos grande probabilidade de confundirmos o que está no texto com o que achamos que devia estar lá.

U aàleitu aà o oà ossosàpes uisadosà ha a a àdeà passa àdeàolhos ,à leitu aà t i a ,àleitu aà pida ,à ueàte àaàfu ç oàdeàfaze àu aàesp ieàdeàe o he i e toàge alàdoà texto, não deverá, no entanto, ser tão rápida a ponto de despertar o processamento top-down superativo, senão, se tornará inútil e enganosa. Pensamos que mais ajuda virá sobre este tipo deàleitu aà ua doàestive osà oàt pi oà ate ç oàdist i uída àeà ate ç oàfo ada ,à aisà adiante.

De modo geral, como todo o funcionamento do sistema nervoso, a percepção é direcionada, para a economia de recursos no sentido do menor dispêndio e maior eficácia. Mas vimos que com economia demais teremos distorções na percepção. Estes limites podem causar outros problemas de percepção, como a visão cega para mudanças e o reconhecimento seletivo.

4.2.1.2.2 Visão cega para mudanças: quando ainda vemos o que não está mais lá...

Muitas vezes, somos incapazes de detectar alterações em um objeto ou em uma cena por estarmos muito familiarizados ou com uma forte expectativa sobre eles. Este fenômeno é chamado visão cega para mudanças.àáàexpe i iaàha adaàoàest a hoàeàaàpo ta ào sistiuà de uma pessoa aproximar-se de alguém na rua para pedir informações e a visão do estranho ser bloqueada por algum tempo por duas pessoas carregando um quadro. Enquanto o quadro era retirado, o estranho foi substituído e o cidadão então foi questionado sobre a percepção da mudança de interlocutor. Somente a metade dos participantes perceberam a substituição, mesmo quando o novo interlocutor lhe perguntava se tinha notado que ele não era a mesma pessoa de antes (MATLIN, 2004). Estamos falando de metade das pessoas que estavam falando com alguém na rua e foram brevemente interrompidos... É algo que afetará a análise de qualquer situação e precisa ser considerado com cuidado. Havendo interrupções abruptas em qualquer processo de conhecimento ou informação, nós precisamos checar item a item se estamos recomeçando do mesmo ponto.

4.2.1.2.3 Reconhecimento seletivo: quando perdemos os detalhes...

Outras pesquisas demonstraram que nós somos capazes de detectar diferenças em imagens, se elas forem importantes ou muito claras, mas se forem um detalhe ou algo assim, vão passar despercebidas. Isto acontece para que nosso sistema visual não seja sobrecarregado de informações sem importância. (MATLIN, 2004). Essa tendência universal deve nos exigir atenção redobrada à distinção entre prioridades e detalhes sem importância. Eleger o que realmente é importante é a melhor forma de registrar o que realmente deve ser registrado. Porque aquilo que não for percebido, não receberá atenção e não será registrado na memória.