CAPÍTULO 1 – UM NOVO OLHAR PEDAGÓGICO PARA O ENSINO DE
1.3 A Perspectiva Construtivista e o Ensino Superior
Antes de discutirmos o processo de aprendizagem no ensino superior, se faz necessário caminhar pelos mesmos passos que Piaget, quando iniciou suas pesquisas sobre o desenvolvimento humano e como esse desenvolvimento pode influenciar na aprendizagem.
Destaca-se aqui que vários estudiosos afirmam que a abordagem de Piaget “prima pelo rigor científico de sua produção, ampla e consistente ao longo de 70 anos” (LA TAILLE, 1992; RAPPAPORT, 1981; FURTADO et. al,1999; COLL, 1992; etc. apud TERRA)6
Do ponto de vista de Piaget, o conhecimento se realiza por meio de construções sucessivas baseadas na maturação do ser humano. Tal maturação foi por ele classificada em quatro estágios de desenvolvimento distintos. O primeiro, conhecido por período sensório-motor, vai de 0 (zero) a 02 (dois) anos de idade e analisa os primeiros sentidos da criança diante de um mundo desconhecido por ela, no qual passa a habitar. As funções mentais limitam-se aos reflexos inatos conquistados mediante a percepção e os movimentos. O segundo período, pré-operatório, se encontra na fase dos 02 (dois) aos 07 (sete) anos de idade, quando a criança apresenta o uso da função simbólica, ou seja, a criança representa suas ações em seu pensamento, pois é por meio da linguagem lógica que se percebe o pensamento do sujeito. No entanto, Piaget defende que “o desenvolvimento da linguagem depende do desenvolvimento da inteligência”
. Não se pode negar que apesar de não ter sido com intenções específicas de aprendizagem, a teoria de Piaget trouxe inestimáveis contribuições para a educação.
7
6
Informação disponível no endereço eletrônico:
. O terceiro período, das operações concretas, se evidencia dos 07 (sete) aos 12 (doze) anos. Neste período, a criança consegue realizar operações mentais e, não apenas aquelas identificadas no período sensório-motor (ações físicas), mas desenvolve a capacidade de interiorizar as ações por meio da ação mental, ou
http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicações/textosd0005.htm. Acesso em 15/10/2008. 7
36 seja, sem precisar da ação física para encontrar a lógica das coisas.
Dos 12 (doze) anos em diante, no período das operações formais, ampliam- se as capacidades dos períodos anteriores. O indivíduo já consegue estruturar esquemas conceituais abstratos e por meio deles executar operações mentais dentro de uma lógica formal. É nessa fase que identificamos como se dá a aprendizagem do adulto e procuraremos fazer uma abordagem da teoria piagetiana diante das características dos alunos do ensino superior e, especificamente alunos do curso de Ciências Contábeis, nosso campo de estudo.
Os estudos de Piaget focaram o processo que permita surgir a aprendizagem “em vez de rotular o tipo de lógica usado pelos aprendizes (ou seja, pré- operatória, concreta ou formal)” (FOSNOT, et. al., 1998, p. 28).
Nos últimos 15 anos de sua vida, Piaget se preocupou em aprofundar seus estudos sobre o mecanismo da equilibração. Este mecanismo é usado para motivar as aprendizagens.
É por meio da contradição que se provoca o desequilíbrio, a motivação interna e conseqüente acomodação. Fosnot et. al. discutem as três propostas de acomodações que poderiam ser construídas por aprendizes, de acordo com Piaget, diante desse desequilíbrio:
(1) poderiam ignorar as contradições e perseverar em seu esquema ou idéia inicial;
(2) eles poderiam oscilar, mantendo ambas as teorias simultaneamente e lidando com a contradição, fazendo cada teoria servir para casos específicos e separados, ou
(3) eles poderiam construir uma noção nova, mais abrangente, que explicasse e resolvesse a contradição anterior (FOSNOT et. al., 1998, p.33).
O que se deve salientar é que em quaisquer das hipóteses, tais acomodações são decorrentes de um comportamento interno auto-organizador do aprendiz. Muito embora os estudos de Piaget apresentem como último o período das operações formais, observa-se que muito ainda está por ser construído pelo indivíduo adulto, pois de acordo com suas conquistas cognitivas que
teoricamente foram adquiridas no decorrer de sua vida, até então, continuarão presentes nos anos seguintes. Assim, pode-se afirmar que os adultos continuam em constante desenvolvimento, seja do ponto de vista cognitivo, físico ou afetivo. Dessa forma as equilibrações, orientadas por Piaget, também se observam no sujeito adulto.
Nesse sentido, Saravali (2005, p. 13) citando Legendre afirma que para “assimilar os conhecimentos científicos elaborados [...] é necessário dispor das estruturas próprias do pensamento operatório formal”. Evidentemente que para o adulto o meio não se apresenta tão cheio de novidades quanto para um recém-nascido, no entanto suas experiências vividas correspondem a uma transformação experiencial para uma transformação conceitual. Entende-se, portanto, que “suas inúmeras experiências anteriores formam sistemas ou modelos” e o adulto “vai interpretar a realidade”, ou seja, [...] “uma nova informação irá sempre ser observada pelo filtro desses saberes já construídos anteriormente e/ou servirá para reestruturá-los mediante um processo de equilibração” (op.cit).
Dessa forma, podemos entender que o estudante universitário encontra-se no período das operações formais, pois já traz em sua bagagem de vida experiências vividas nos períodos anteriores e se abre um leque de novos conhecimentos que precisam ser aprendidos e construídos.
No caso específico do aluno de contabilidade, os novos conhecimentos são de extrema complexidade devido ao raciocínio específico exigido do aprendiz. Por outro lado, o professor necessita identificar os primeiros conflitos na aprendizagem diante de um conhecimento novo e não experimentado nas fases anteriores, descritas por Piaget. Esses conflitos ocorrem principalmente no primeiro contato do aluno com a teoria contábil, quando se exige que ele entenda o mecanismo de débito e crédito, provocando nitidamente um desequilíbrio no raciocínio lógico, que só voltará a se re-equilibrar quando o docente se utiliza de analogias e representações para elucidar o mecanismo contábil.
38