O coronel Marcondes foi mais útil e gentil do que esperávamos. Quando lhe expusemos os nossos projetos, entusiasmou-se tanto que nos sentimos na obrigação de o convidar para ir conosco.
— Infelizmente não me é possível. Tenho que fazer outras viagens. Mas é uma das coisas de que mais gostaria. Não queria morrer sem ver com os meus olhos alguns restos das antigas civilizações de nossa terra. Mas um dia! Ah... Porque, como vocês, eu acredito que houve no Brasil uma civilização para sempre perdida! Conheço mais ou menos o assunto e creio que um dia se há de fazer justiça à nossa terra, reconhecendo que daqui partiram os civilizadores do mundo....
— É o que pensamos também, coronel. E por isso é que resolvemos mergulhar nesse sertão.
— Fazem bem. É um trabalho útil à pátria e próprio para a mocidade. Já sabem que tenho umas coisas curiosas?
O coronel levou-nos a um quartinho, rigorosamente trancado, como se guardasse um tesouro. E não seria realmente um tesouro?
A primeira peça que nos mostrou era um vaso antropomorfo, cerâmica delicada, trabalhada com evidente gosto artístico.
Do seu formato geral de ânfora, destacava-se a figura humana estilizada que lembrava, remotamente, a escultura egípcia clássica. Mas os traços do rosto denunciavam o tipo mongolóide: face larga, maçãs do
rosto salientes, olhos bem separados. O coronel explicou que o vaso lhe fora trazido por um homem vindo das margens do Araguaia. Mas, infelizmente, ele chegara horrivelmente mutilado, sem língua, e sem orelhas. O vaso estava partido em cinco pedaços e o coronel o reconstituíra.
Não sei porque, não acreditei muito na história do viajante mutilado, e soube, depois, que Salvio também não lhe dera crédito. Decerto, o velho coronel tinha motivos para ocultar a verdadeira origem do vaso, e nós não íamos indagar que motivos eram esses.
Havia na caixa de ferro vários outros objetos curiosos. Um era um pedaço de cachimbo de barro cozido que tivera, sem dúvida, a forma de homem de grande cabeça e corpo caricaturalmente pequeno. A cabeça, escavada por dentro, era o fornilho e estava requeimada, o que indicava uso. A figura estava de joelhos e entre os pés juntos situava-se o furo onde se introduzia o canudo. Os olhos da figura eram estranhamente saltados, enormes, em desproporção com o rosto. Fazia lembrar certas esculturas incaicas. Havia, ainda, uma dessas figurinhas de barro que nos museus aparecem como “bonecas dos índios”. Salvio, que já estudara o assunto, afirmou que não eram absolutamente bonecas, mas sim ídolos, remanescentes de cultos que se perderam na noite dos tempos.
— É preciso notar — explicou ele — que estas figuras, tenham a origem que tiverem, obedecem sempre à mesma forma e têm todas quase o mesmo tamanho. Não há “bonecas” sem pernas, e não é de se crer que todos os índios, de todas as latitudes, fizessem, para seus filhos, “bonecas” de barro, todas iguais e tão pequenas.
Entre todos, porém, o objeto que mais impressionou Salvio foi uma grande placa de barro cozido, moldada em forma de bandeja em cruz. O centro da cruz era liso e bem no meio via-se um cubo, talvez altar, com a letra “S” perto. Nos quatro braços, arredondados, eram evidentes degraus de arquibancadas. A um canto havia uma porta de entrada, à qual se chegava por escadaria. Procuramos reproduzir, em desenho, essa curiosa peça, para que o leitor possa formar melhor idéia dela.
Salvio, que estudou essa placa durante muitas horas, disse que era, simplesmente, a reprodução de um templo, ou local de adoração do Sol. No altar do centro ficava o sacerdote, e nas arquibancadas, o povo. E declarou, afinal, que a placa tinha grande importância para os nossos trabalhos — o que o futuro demonstrou ser certo.
Havia, ainda, alguns pequenos objetos que Salvio apenas olhou, considerando-os sem valor. O coronel, porém, apanhou entre os dedos uma nefrite, o “muirakitã” dos amazonenses, e exibiu-a ao meu amigo, com olhar interrogador.
— Lindo — disse Salvio. — Um “muirakitã”... — Examine-o bem.
Era, realmente, uma peça maravilhosa. A linda pedra verde estava talhada em forma de homem nu “de pé, com os braços erguidos” — o que figurava a célebre “runa” que significava riqueza e poder. Quando Salvio percebeu isso, ficou impressionado, e nem sabia o que dizer. Olhava espantado para o coronel que, agora, assumia, a seus olhos, importância muito maior do que se esperaria.
— Leve-a — disse o coronel. — Leve-a, não a perca, que lhe será muito útil. Posso lhe repetir a célebre frase: “In hoc signo vinces”.
Salvio estremeceu, e, apanhando o cordão de prata que o coronel lhe estendia, passou-o pelo buraco que havia na pedra, pendurando-a em seguida ao pescoço.
— Não sei como lhe agradecer, coronel. O senhor foi providencial. Agora, tenho certeza de que atingiremos o nosso fim. Na volta lhe devolveremos o “muirakitã”.
O coronel sorriu misteriosamente. E nós não compreendemos o seu sorriso. Mas o certo é que nunca mais passaríamos por Anápolis, tendo voltado por outro caminho, e o coronel morreu no mês passado, sem tornar a ver a sua pedra verde, que Salvio traz consigo até hoje.
O coronel foi um tesouro para nós. Sem ele, jamais teríamos realizado a temerosa aventura. Patrocinou-nos a viagem, providenciando tudo o que precisávamos. Entregou-nos dez mil cruzeiros; deu-nos seis mulas arreadas; e ofereceu-nos conselhos de inestimável valor.
À noite, no alpendre do botequim, diante das cervejas, comentávamos com espanto a atitude daquele velho respeitável e Salvio disse, antes de nos retirarmos para dormir:
— É melhor não falar. Nem podemos fazer idéia de quem seja esse homem, mas garanto que não é absolutamente o que parece.
— Que quer dizer, Salvio? Eu também o achei misterioso.
— Só lhe digo isto: o bom êxito de nossa viagem está absolutamente seguro.
— Por que pensa assim?
— Nem eu sei. Mas, ou é verdade, ou estou redondamente enganado. E creio que não me engano. Não se esqueça: “Com este sinal, vencerás”!
* * *
Numa quinta-feira de madrugada, bem antes de nascer o sol, as seis mulas, carregadas, estavam alinhadas no terreiro, diante do botequim. Perto delas, via-se o coronel Marcondes, sorridente e amigo. Quincas contratara dois homens apenas, “que valiam por dez cada um”, dizia ele. Eram sertanejos magros, fortes, requeimados, cobertos com largos chapeirões de palha. Usavam calças e paletós de brim sobre camisas rasgadas e cada um tinha uma garrucha e um facão à cintura. Estavam descalços. Não infundiam muita confiança quanto à valentia, mas Quincas respondia por eles e era o bastante. O mais alto atendia por Lalau, e o outro chamava-se Tobias. Os petrechos que carregavam as mulas tinham sido reduzidos por Quincas, com raro tino, ao mínimo indispensável, e uma delas, que não levaria carga humana, trazia os volumes mais pesados.
Quando o sol começou a dourar o cume de Santa Rita, muito cedo ainda, abraçamos o coronel e nos pusemos a caminho na seguinte ordem: Quincas, Salvio, eu, Lalau e Tobias, que puxava a sexta mula pela corda.
Partíamos para Formosa, primeira etapa de nossa viagem pelo interior de Goiás, rumo à incrível aventura. E de longe ouvíamos ainda os augúrios de boa viagem que nos fazia o coronel Marcondes.