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CAPÍTULO 3 O DISCURSO BRASILEIRO DE COMBATE À FOME E À

3.1 A especificidade do discurso

3.1.2 A política externa e o estudo do discurso

No conjunto das representações sociais formuladas na e pela linguagem, pode- se prever o funcionamento de determinados esquemas de interpretação que levam em

48 Destaque-se a realização na IV Conferência Nacional de Assistência Social em 2003 e da II

Conferência Nacional de Segurança Alimentar em 2004; a criação do Ministério Extraordinário de Segurança Alimentar e Combate à Fome (Mesa), substituído pelo Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome em 2004; aprovação da nova Política Nacional de Assistência Social (PNAS); instituição do Sistema Único de Assistência Social (Suas) e do Sistema Único de Segurança Alimentar e Nutricional (Susan) em 2005.

49 Ressalte-se a criação do Fundo para a Convergência Estrutural e Fortalecimento Institucional do

Mercosul (Focem), em 2004, com o objetivo de financiar projetos de melhoria da infraestrutura das economias menores e regiões menos desenvolvidas do Mercosul, visando a estimular a produtividade econômica dos Estados-partes e promover o desenvolvimento social, especialmente nas zonas de fronteira.

conta aspectos como, a posição do sujeito, o conjunto de valores e ideias que regem determinada sociedade em que aquele está inserido e, mais especificamente, a formação de discursos.

A esse respeito, e por entender que o foco das análises de política externa tem sido ampliado, em especial, por abordagens pós-positivistas, pós-estruturalistas e pós- modernistas, vê-se que a AD, como análise possível do fenômeno da política externa, concentra-se no significado de determinados conceitos, os quais estruturam e articulam o que os agentes querem e podem dizer (HANSEN, 2006).

Será útil, nesse sentido, tentar localizar a AD nos níveis teóricos tradicionais de análise de política externa já apresentados no primeiro capítulo, na perspectiva de compreender os fundamentos e as instâncias discursivas do discurso político formulado e implementado no Brasil, mais especificamente, a partir de 2003, tendo sido instrumentalizado com a ação internacional brasileira de combate à fome e à pobreza.

Nos estudos de política externa que utilizam o discurso como categoria analítica50, tem sido importante apontar que: a) o discurso constitui sistemas de representação, que podem ser analisados empiricamente, com ênfase nos relacionamentos que os países mantêm entre si; b) o discurso produz elementos que trazem inteligibilidade à política externa, ao passo que exclui aqueles que não são relevantes; c) o discurso é construído com base na autorização e na legitimidade dos enunciadores e do público-alvo; d) as formações discursivas competem e se articulam na política externa de modo a alcançarem hegemonia e permanecerem hegemônicas (MILIKEN, 1999).

Para os fins desta pesquisa, dois importantes pressupostos são levantados: o primeiro aponta para a definição dos discursos como práticas sociais, em que a linguagem verbal e outras semióticas com que se constroem os textos são parte do contexto sócio-histórico, e não apenas algo de caráter meramente instrumental, externo a pressões sociais (FOUCAULT, 2004); o segundo lida com o fato de que, tendo em vista o quadro de mudanças e continuidades existente na política externa, o

50 Aqui, ressalta-se a importância do trabalho de Henrik Larsen (1997) sobre o estudo das políticas

externas da França e da Grã-Bretanha no contexto da integração europeia na década de 1980, quando apresentou a hipótese de que, vistas como sistemas de significação, as políticas externas desses países foram articuladas em torno do discurso que cada um produzia sobre nação, Europa, segurança e a

estudo do discurso auxilia na compreensão das representações sociais, do conjunto de identidades e de posicionamentos de um dado país (MILIKEN, op. cit.).

Neste trabalho, agrega-se, ainda, aquilo que foi defendido por Charaudeau (2013), quando trata do jogo das representações sociais. Ele afirma:

Para o que nos interessa, abordaremos a questão partindo da noção de representação social como fenômeno cognitivo-discursivo geral, (...) [d]epois nos interrogaremos sobre a necessidade de operar uma distinção entre teorias, doutrinas e ideologias para atingir o que constitui o fundamento desses sistemas de saber: os imaginários sociodiscursivos (p.193-194) (grifo do autor).

(...)

À medida que esses saberes, enquanto representações sociais, constroem o real como universo de significação, segundo o princípio de coerência, falaremos de “imaginários”. E tendo em vista que estes são identificados por enunciados linguageiros produzidos de diferentes formas, mas semanticamente reagrupáveis, nós os chamaremos de “imaginários discursivos”. Enfim, considerando que circulam no interior de um grupo social, instituindo-se em normas de referência por seus membros, falaremos de “imaginários sociodiscursivos” (p. 203).

Resta útil apresentar os principais elementos da AD a serem utilizados nas seções a seguir e com base no que foi apresentado nos parágrafos precedentes. O primeiro deles tem a ver com a noção de representação social aqui adotada: “discursos sociais que testemunham, alguns, sobre o saber de conhecimento sobre o mundo, outros, sobre um saber de crenças que encerram sistemas de valores dos quais os indivíduos se dotam para julgar essa realidade” (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2012, p. 433). Assim, o que se procurará identificar tem a ver com o sistema de valores sociais que pode ser depreendido do corpus e que compõe o discurso brasileiro de combate à fome e à pobreza, durante os anos de 2003 a 2010.

A segunda noção é a de imaginário social, que, segundo Charaudeau (op. cit.), “é efetivamente uma imagem da realidade, mas imagem que interpreta a realidade, que a faz entrar em um universo de significações” (p. 203). Para tanto, uma tentativa de caracterizar a realidade apresentada pelo e no discurso brasileiro de 2003 a 2010, em especial, sobre o tema do combate à fome e à pobreza, não é somente essencial mas utilitária aos fins da pesquisa.

O terceiro elemento é o de imaginário sociodiscursivo, em que pese a necessidade de compreender como, no campo do discurso político, e, no caso do discurso de política externa, busca-se sua utilização para efeitos de convencimento e de persuasão. Para esse fim, buscar-se-á identificar os aspectos discursivos que

justificam a noção de um discurso brasileiro de combate à fome e à pobreza que se pretendeu apresentar à comunidade internacional. Assim,

[o]s imaginários sociodiscursivos circulam, portanto, em um espaço de interdiscursividade. Eles dão testemunho das identidades coletivas, da percepção que os indivíduos e os grupos têm dos acontecimentos, dos julgamentos que fazem de suas atividades sociais (CHARAUDEAU, op. cit., p. 207).

A esse respeito, de uma maneira geral, serão analisados os 145 pronunciamentos selecionados, tendo em vista o recorte já mencionado, buscando neles identificar o conjunto de elementos que justificam as estruturas discursivas principais do discurso brasileiro de combate à fome e à pobreza. Ademais, sempre que oportuno, serão apresentadas as ilustrações dos elementos ligados à teoria da AD, destacadas dos pronunciamentos que compõem o corpus deste trabalho.