II. Os conceitos convocados e o seu contexto de significação
1. A inimputabilidade por anomalia psíquica
1.6. A problematicidade das perturbações de personalidade
A personalidade corresponde à estrutura psíquica identitária de um indivíduo, podendo ser definida como a organização, mais ou menos estável e persistente, de padrões de comportamento, actuais ou potenciais, que resultam da interacção funcional de quatro áreas fundamentais em que se estruturam tais padrões: as áreas cognitiva (inteligência), volitiva (carácter), afectiva (temperamento) e somática ou constitucional59.
É a personalidade que fornece a chave da interpretação dos comportamentos habituais, do modelo de respostas a estímulos e de visões do mundo de cada pessoa. Os seus traços característicos, ainda que influenciados pela herança genética, vão sendo, sobretudo, moldados pelas vivências e pelo processo de socialização, definindo-se, em termos estáveis, entre a adolescência e a idade adulta.
Porém, como já referimos, quando o padrão estável de experiência interna e comportamento se afasta marcadamente do esperado para o indivíduo numa dada cultura, apresentando-se invasivo, global e inflexível e originando mal-estar clinicamente significativo ou deficit no funcionamento social, ocupacional ou noutras áreas importantes do funcionamento do indivíduo – na ausência de outra causa explicativa atinente a quadro
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patológico ou aos efeitos fisiológicos directos de uma substância - encontramo-nos perante uma perturbação de personalidade.
A questão de saber se um indivíduo, portador de uma perturbação de personalidade, pode ser considerado inimputável, em virtude dessa condição psicopatológica ou, de outra forma, se a presença da mesma é susceptível de destruir ou afectar, em grau elevado, a sua capacidade de culpa, tem sido alvo de ampla controvérsia.
Destacamos, a propósito dessa discussão, uma decisão paradigmática, proferida pelo Pleno das Secções Criminais da Suprema Corte di Cassazione italiana, em 8 de Março de 200560.
O Código Penal Italiano define, no artigo 88, sob a epígrafe vizio totale di mente, que não é imputável quem, no momento da prática do facto, se encontrava, por enfermidade, num estado mental que excluia a capacidade de entender ou de querer. O artigo 89, por sua vez, sob a epígrafe vizio parziale di mente, dispõe que quem, no momento da prática do facto, se encontrava, por enfermidade, num estado mental que diminuia fortemente, sem a excluir, a capacidade de entender ou de querer, responde pelo facto cometido, mas a pena é atenuada.
Neste contexto, a Suprema Corte di Cassazione foi chamada a dirimir a questão de saber se, para efeito de reconhecimento da existência de um vizio totale ou parziale di mente, era possível subsumir ao conceito legal de enfermidade as graves perturbações de personalidade.
Face à divergência jurisprudencial, existente no seio daquele Supremo Tribunal, a questão foi remetida ao Pleno das Secções Criminais.
De facto, a intervenção da formação plenária justificava-se pela subsistência de, fundamentalmente, duas correntes opostas. A tese maioritária defendia que as anomalias, susceptíveis de influir na capacidade de entender e de querer, eram “as doenças mentais em sentido estrito, nomeadamente as insuficiências cerebrais originárias e aquelas derivadas das consequências estabilizadas dos danos cerebrais de variada natureza, bem como as psicoses agudas ou crónicas”. Enfatizava esta corrente a distinção entre as verdadeiras doenças mentais
60 Sentenza 25 Gennaio 2005 – 8 Marzo 2005, n. 9163, disponívelem www.diritto-in-rete.com.
Vide, também, a este propósito, COSTA, J. - A relevância jurídico-penal das perturbações da personalidade no
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e uma série de outros fenómenos psíquicos, que apenas não se inseriam no estado de normalidade, por alterações quantitativas e não qualitativas. A corrente minoritária defendia, por seu lado, que o conceito legal de enfermidade mental, para efeitos criminais, era mais amplo que o de doença mental, pelo que a categoria dos doentes mentais poderia abarcar “os indivíduos afectados de neuroses e de psicopatias, no caso de estas se manifestarem com um elevado grau de intensidade e sob formas mais complexas, que as aproximariam, nos seus extremos, de uma verdadeira e própria psicose”.
O Supremo Tribunal italiano analisou os termos em que o Código Penal estruturava a base da imputabilidade criminal, reportando-se, no artigo 85, à capacidade de entender e de querer. Centrando-se em tais conceitos, transferiu o cerne da discussão da questão da integração das perturbações de personalidade no conceito legal de enfermidade para a problemática, mais profícua, relativa à influência destas perturbações na capacidade de entender e de querer. Tal alteração do foco de relevância é consonante com a preocupação, demonstrada pelo Tribunal, de assegurar uma interpretação constitucionalmente conforme das normas relativas à imputabilidade criminal, que impõe uma configuração pessoal da responsabilidade, traduzida na possibilidade de reconduzir a prática do facto jurídico- penalmente relevante ao âmbito das faculdades de controlo e de escolha decisional do agente. Na ausência dessa possibilidade, a atribuição da responsabilidade do facto corresponderia a uma imputação mecanicista ou meramente objectiva do evento historicamente determinado.
A configuração pessoal da responsabilidade criminal pressupõe a existência de uma vontade humana livre, não numa acepção de liberdade absoluta de autodeterminação ou puro arbítrio, que não existe - de acordo com o Supremo Tribunal italiano -, mas numa perspectiva menos pretensiosa e mais realista, traduzindo a capacidade de o indivíduo “não sucum[bir] passivamente aos impulsos psicológicos que o impelem a agir de determinado modo”, logrando “exercitar os poderes de inibição e de controlo idóneos a permitir que o mesmo faça escolhas conscientes e deliberadas”.
Recuperando a definição jurisprudencial dos conceitos que servem de base à noção de imputabilidade, o Tribunal sintetizou o sentido da capacidade de entender como correspondendo à idoneidade do sujeito para tomar consciência do valor e significado da sua conduta, nomeadamente avaliando as suas possíveis consequências e repercussões, e para se
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orientar no mundo externo de acordo com uma percepção não distorcida da realidade. Por sua vez, definiu a capacidade de querer como a idoneidade do sujeito para se autodeterminar, relativamente aos normais impulsos que motivam a acção, de modo coerente com os seus valores, ou, numa formulação alternativa, como o poder de controlar os impulsos de agir, determinando-se de acordo com o motivo que lhe parece mais razoável ou preferível, com base numa escala de valores.
Concluiu, assim, que, para efeito de aferição da imputabilidade, as perturbações de personalidade apenas assumem relevância se detiverem uma consistência, intensidade, relevância e gravidade tais que determinem uma incidência concreta sobre a capacidade de entender e de querer. Dizendo de outra forma, as perturbações de personalidade, para serem consideradas neste âmbito, devem ser idóneas a determinar um estado psíquico incontrolável, situação que, em concreto, se verifique, tornando o agente incapaz de exercitar o devido controlo sobre os próprios actos e, consequentemente, de avaliar o desvalor social do facto e de, autonomamente, livremente, autodeterminar-se. Pelo contrário, não relevam, para o mesmo efeito de aferição da imputabilidade, outras anomalias de carácter ou desarmonias da personalidade, uma vez que, não obstante se poderem reflectir no processo psíquico de determinação e inibição de comportamentos, não atingem o grau de incidência sobre a capacidade de autodeterminação do agente, que é exigido pelas normas penais analisadas.
Salientou ainda o Tribunal a indispensabilidade de um nexo etiológico entre a perturbação mental e o facto ilícito típico praticado, de modo a que possa afirmar-se que este último foi causalmente determinado pela referida condição psicopatológica. Enfatizou, desta forma, a necessidade de uma abordagem, não abstracta e hipotética, mas real e individualizada, que tenha em conta o facto concreto e a concreta pessoa do agente.
Nestes termos, sintetizou o Supremo Tribunal italiano as conclusões a que chegou, referindo que, para efeito de subsunção ao conceito legal de vizio totale ou parciale di mente, são enquadráveis, na noção de enfermidade, as graves perturbações de personalidade, desde que o juiz conclua que, face à sua gravidade e intensidade, excluem ou diminuem, em grau elevado, a capacidade de entender ou de querer, existindo um nexo etiológico entre o facto e a perturbação de personalidade, de modo a poder concluir-se que o primeiro é causalmente determinado por esta última.
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Em Portugal, a questão problemática não se coloca, como já vimos, no âmbito da integração da perturbação de personalidade no conceito de anomalia psíquica, uma vez que a ductilidade dessa categoria seguramente abarca tal condição psicopatológica.
O cerne da discussão médico-legal transfere-se, assim, para a susceptibilidade de influência decisiva no elemento psicológico da inimputabilidade, à semelhança do que, aliás, também considerou o Supremo Tribunal italiano, embora num quadro legal diverso, condicionado pela categoria legal de enfermidade, como vimos.
Neste contexto, e sem prejuízo da reafirmação de que a apreciação só pode ser efectuada casuisticamente, por referência a determinado facto concreto, poderemos dizer que, em princípio, as perturbações de personalidade, desacompanhadas de outro quadro psicopatológico, não excluem ou diminuem consideravelmente a capacidade de culpa, não sendo, por isso, em regra, susceptíveis de determinar a presença de pressupostos médico- legais de inimputabilidade. Porém, tal asserção não inviabiliza a possibilidade de, por exemplo, em virtude da impulsividade potencialmente existente nos indivíduos com estruturas perturbadas de personalidade, sobretudo do cluster B, ocorrerem comportamentos caracterizados por uma resposta imediatista – por vezes, designada de reacção em curto- circuito – na sequência de um determinado estímulo. Nesses casos, por não existir processamento cognitivo do estímulo, poderemos estar na presença de uma real incapacidade de determinação do agente, naquele momento e para aquele facto concreto. Naturalmente, não estará aqui em causa apenas uma impulsividade-traço61, enquanto inabilidade ou tendência, em abstracto, para reagir de forma rápida e sem ponderação. É preciso estarmos perante uma
impulsividade-estado62, que se repercuta no acto concreto, traduzindo-se num
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A impulsividade-traço corresponde à inabilidade ou dificuldade em atrasar a recepção de uma recompensa ou à marcada preferência por pequenas recompensas imediatas, em desfavor de recompensas maiores que impliquem um tempo de espera mais longo. Vide SWANN, Alan C. – Neurobiology of Impulsive Behavior. Vide ainda SWANN, Alan C. – Mechanisms of Impulsivity.
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Para melhor explicar este conceito, Alan Swann refere que, antes de tomarmos a decisão consciente de assumir determinado comportamento, essa alternativa ou comportamento prospectivo passa por um processo de filtragem que consiste numa rápida apreciação das condições ou circunstâncias exteriores, que enquadram o evento, e das memórias relevantes. Este processo tem lugar fora da consciência, envolve o córtex pré-frontal e a amígdala, além de outras zonas cerebrais, e tem uma duração inferior a 0,5 segundos. Implica que funções cerebrais importantes, como a atenção, a memória de trabalho, o equilíbrio entre os mecanismos de activação e inibição comportamental, se encontrem minimamente conservadas. Se o comportamento prospectivo não for rejeitado ao longo deste processo, o indivíduo pode reflectir e decidir se efectiva ou não tal comportamento.
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comportamento, geralmente assumido num período de tempo inferior a 0,5 segundos após o estímulo, que resulte de uma falha do sistema de feedback comportamental. Apenas um acto impulsivo com estas características traduzirá uma incapacidade de o agente conformar o comportamento motivado ao seu contexto externo e interno. Somente nestas circunstâncias excepcionais, a impulsividade no acto – causalmente ligada à perturbação de personalidade, que gera vulnerabilidade à ocorrência deste fenómeno - poderá determinar a presença de pressupostos médico-legais de inimputabilidade.
Nestes termos, em regra, a presença de perturbações de personalidade, nomeadamente do referido cluster B, não determinando, isoladamente, situações de inimputabilidade, nos termos do artigo 20.º, n.ºs 1 ou 2, do Código Penal, implica uma ponderação especial, quando as mesmas surgem, em co-morbilidade, em agentes declarados inimputáveis, porquanto constituem frequentemente factores de agravamento do juízo de perigosidade criminal, como desenvolveremos mais adiante.