1.2 A intertextualidade
1.2.3 A proposta de Costa (2001): relações intertextuais, interdiscursivas e
Nelson Costa, em sua tese de doutoramento, afirma que as teorias acerca da heterogeneidade, dialogismo e polifonia, bem como os estudos feitos sobre a intertextualidade, têm o objetivo de investigar relações específicas entre textos (relações
21 A paródia pode, então, consistir em uma simples citação; reciprocamente, segundo Michel Butor, toda citação
é já uma forma de paródia, a decomposição de um fragmento, seu deslocamento num contexto inédito, tendendo sempre a falsear o sentido (tradução nossa).
intertextuais), entre discursos (relações interdiscursivas) e entre o sujeito e seu discurso (relações metadiscursivas). São esses três tipos de relação que resumimos abaixo.
• Relações intertextuais
Costa (2001) chama a atenção para o fato de que as relações de co-presença, descritas por Piégay-Gros, caracterizam-se por utilizar partes de outros textos, o que ocorre de diversas maneiras. Isso quer dizer que se um texto cita, refere- se, alude ou plagia (a) outro, mesmo assim, ele é autônomo em relação ao texto retomado. Por outro lado, essa independência não acontece nas relações de derivação; seus três tipos (paródia, travestismo e pastiche), além de operarem sobre produções textuais consagradas, envolvem textos cuja existência só é possível devido ao texto derivante.
Costa (2001, p. 28) utiliza a classificação de Piégay-Gros, ao analisar as relações intertextuais. Entretanto, faz algumas ressalvas no que se refere à tipologia apresentada por essa autora, e às quais descrevemos abaixo.
a) A intertextualidade é um exercício corrente em qualquer prática discursiva (literária, científica, religiosa etc.) e não se restringe ao campo literário, como sugere o trabalho de Piégay-Gros.
b) O texto reportado pode ser de tamanho diverso e se apresentar de modo fragmentado. Podem ser retomadas palavras, expressões, frases ou textos completos.
c) A categoria travestismo burlesco por parecer muito específica ao discurso literário é praticamente ignorada no trabalho de Costa.
d) O conceito de paródia, como observa Maingueneau (1997, p. 102), tem a desvantagem de ter historicamente adquirido um sentido depreciativo.
Costa (idem, ibidem) propõe ainda uma modificação da segunda categoria da classificação de Piégay-Gros, qual seja a de “relações de derivação”. Usa o que sugere Maingueneau (idem, ibidem), que prefere chamá-las de relação de imitação. A imitação se liga a dois valores opostos: a captação e a subversão. A primeira acontece quando um locutor incorpora, de forma explícita, a estrutura de um enunciado, com o objetivo de beneficiar-se da autoridade desse. Ela se difere do plágio, porque aquele que usa a imitação captativa, como pretende marcar uma filiação a um estilo, escola ou doutrina estética, mostra claramente sua atitude intertextual. Já na subversão, o enunciador imita um texto com o objetivo de desqualificá-lo. A imitação, seja captativa ou subversiva, só terá efeito com a cooperação do
leitor ou ouvinte. Costa considera a paródia uma imitação subversiva e o pastiche, uma imitação captativa. Então, o pesquisador (p. 29), a partir do esquema elaborado por Piégay- Gros (1996) para as relações intertextuais, propõe o seguinte quadro22:
Relações intertextuais
Relações de co-
presença Referência Citação Plágio Alusão Relações de
imitação Captativa estilização Pastiche, Subversiva Paródia
No entanto, na análise do corpus de sua tese, Costa só trabalha com a citação, a referência, a alusão e a paródia.
• Relações interdiscursivas
As relações interdiscursivas consistem nas relações da enunciação com o interdiscurso, isto é, com o suposto exterior discursivo. Aqui o sentido de “interdiscurso” é estrito, pois se refere ao interdiscurso enquanto sistemas discursivos anônimos (modos de dizer, gêneros, regras, fórmulas, formações discursivas etc.) que circulam na sociedade e compõem uma memória.
Assim, quando uma determinada formação discursiva faz uso de expressões
populares, quando utiliza termos habitados por outras esferas, registros
discursivos e até mesmo lingüísticos, ou ainda quando se reporta a ethos,
gestos e esquemas discursivos de outras práticas discursivas, temos relações
interdiscursivas ou interdiscursividade (COSTA, 2001, p. 29, grifos
nossos).
Portanto, o objeto da interdiscursividade não é o texto em si, e sim cenografias, ethos, palavras, códigos de linguagem, gêneros etc. pertencentes a outros textos.
Então, a partir da reformulação dos mecanismos intertextuais esquematizados por Piégay-Gros, Costa (2001, p. 30) propõe o seguinte esquema, adaptado para as relações interdiscursivas23: Relações interdiscursivas Relações de co- presença Referência cenografia validada; ethos; palavras códigos de linguagem; gêneros etc. Alusão Relações de imitação Captativa Subversiva
A referência interdiscursiva acontece quando um texto pertencente a uma formação discursiva comenta, representa, descreve, em suma, refere-se de alguma maneira a outra formação discursiva ou ao interdiscurso.
A alusão interdiscursiva é uma maneira engenhosa de se referir à palavra ou à linguagem do exterior discursivo, utilizando-se de recursos como o jogo de palavras, a implicitação e o disfarce, dentre outros.
A captação interdiscursiva ocorre, por exemplo, quando um texto representa cenografias validadas ou um ethos pertencentes a outras práticas discursivas para legitimar seu discurso. É o caso de um professor que, ao dar a sua aula, imita a postura do cientista.
A subversão interdiscursiva se dá quando textos incorporam parodicamente cenários validados, ethos, códigos de linguagem etc. de outras formações discursivas para subvertê-los, legitimando-se por oposição.
Costa ressalta que a interdiscursividade também pode está ligada a uma única palavra. Na interdiscursividade lexical, é a palavra que promove a remissão a uma outra realidade de enunciação. É o que acontece no caso da metáfora, da polissemia e da argumentação, as quais precisam ser vistas sob uma concepção discursiva e dialógica, pois esses mecanismos envolvem a tensão entre vozes diferentes, pertencentes a universos discursivos também
diversos. Dessa maneira, a palavra funcionaria como um link, por ligar duas formações discursivas diferentes.
Para explicar o mecanismo da metáfora, Costa usa o exemplo da palavra sedimentado.
Quando um economista afirma que no processo histórico de formação econômica do Nordeste, “as particularidades demográficas, econômicas e ecológicas de cada região (sic) se articularam dentro de um sedimentado sistema de relações sociais...”, a metáfora efetuada pelo uso da palavra “sedimentado” evoca uma outra prática discursiva em que palavra “sedimentação” é usada como significando o “processo pelo qual substâncias minerais ou rochosas, ou substâncias de origem orgânica, se depositam em ambiente aquoso ou aéreo”: a prática discursiva das ciências geológicas. A metáfora então acaba funcionando como encruzilhada de vozes, fazendo ouvir não apenas a voz da prática discursiva à qual pertence o discurso, mas a voz de uma prática pertencente a outra região discursiva (p. 31).
Já a polissemia diz respeito à capacidade de uma mesma palavra poder evocar diferentes sentidos.
Nesse momento, Costa retoma o artigo de Eni Orlandi, a Tipologia de discurso e regras conversacionais24, no qual a autora afirma que o fato de haver dominâncias e tendências entre os sentidos das palavras está relacionado às condições de produção dos discursos. Segundo a autora, não existe um sentido central para as palavras, já dado previamente. O que há é um sentido literal, oficializado e institucionalizado. Portanto, existem diversos sentidos possíveis para um mesmo item lexical. Como em determinadas condições de produção, há o domínio de um sentido sobre os outros, Orlandi propõe uma tipologia de discurso que tem como critério “a tolerância para com a polissemia, de acordo com as condições de produção” (COSTA, p. 32). Sendo assim, existiriam três tipos de discurso: o lúdico, o polêmico e o autoritário. O primeiro “privilegia a pluralidade de sentidos e tende a apagar a dominância de um dos sentidos em relação aos outros” (idem); no segundo, “ocorre uma disputa entre os sentidos, em que o privilégio conferido a um deles é negociado e fundamentado” (idem); já o último “absolutiza um dos sentidos em jogo” (idem), fazendo com que ele seja o único. No que se refere à atuação da polissemia, no discurso lúdico ela é aberta (como acontece na poesia), no discurso polêmico é controlada (como em um debate) e no discurso autoritário é contida.
Com relação à argumentação, Costa afirma que esse fenômeno “articula não apenas dois ou três “conteúdos”, mas duas ou mais vozes ou discursos, ou ainda posições enunciativas” (idem). Para ilustrar esse caso, usa o exemplo25 da semântica argumentativa de Guimarães (1995, p. 79). Esse autor analisa a frase “Os incidentes de Leme envergonham o país, mas o país não parece estar envergonhado. A nação não está tomada por um sentimento doloroso de estupor ou indignação” da seguinte maneira:
r= Os incidentes de Leme envergonham o país, mas p = o país não parece estar envergonhado.
q = A nação não está tomada por um sentimento doloroso de estupor ou indignação. (não-r)
Uma análise semântico-argumentativa diria que o vocábulo “mas” serve para unir dois argumentos (p e q) com o objetivo de refutar, retificar ou justificar a recusa de r. Por outro lado, uma análise discursiva consideraria os dois argumentos como duas posições discursivas presentes na sociedade:
...este movimento argumentativo pode ser adequadamente apreendido e explicado a partir da consideração do interdiscurso na enunciação e, portanto, na argumentação. Esta seqüência de texto cruza dois discursos que caracterizo sem maiores precisões como: o da comodidade do brasileiro, de um lado, e, de outro, o dos direitos e deveres da cidadania. Pode-se dizer que o texto apresenta o discurso da comodidade do brasileiro como predominante e isto dirige o funcionamento das relações argumentativas. Por outro lado, pode-se dizer que o lugar do sujeito-autor assume o discurso dos direitos e deveres da cidadania. Ou seja, o autor-jornalista apresenta-se como determinado pelo discurso da comodidade do brasileiro, ao mesmo tempo em que a força do discurso da cidadania contra a violência do Estado (um dever da cidadania) determina este outro lugar, que se apresenta como pessoal (GUIMARÃES, 1995, p. 80 apud COSTA, 2001, p. 33).
Nesse caso, argumentar vai além do “gesto de relacionar dois ou mais discursos”. Esse processo “consiste (principalmente) em induzir a que um deles seja interpretado como conclusão e o(s) outro(s) como argumento”, atitude essa que indica uma posição do enunciador no interdiscurso.
• Relações metadiscursivas
Veremos agora as relações metadiscursivas ou metadiscursividade. Authier-Revuz (1995) propõe chamar as relações metadiscursivas de relação de conotação ou modalização autonímica. A autonímia, que pode ser simples e complexa, manifesta a propriedade que a linguagem tem de falar de si mesma. No emprego autonímico, o enunciador refere-se aos signos propriamente ditos (“Gato” é um substantivo masculino). Esse emprego opõe-se ao uso corrente, em que as palavras referem-se a qualidades externas à linguagem (O gato é preto).
A autonímia simples diz respeito ao processo pelo qual um fragmento do discurso é por ele mencionado em meio aos outros elementos lingüísticos por ele usados. Esse processo, que se caracteriza pela quebra sintática, inclui o discurso direto (Z disse: X) e outras formas de menção por meio de um gesto metalingüístico (A palavra X; A expressão Z).
Na autonímia complexa, o fragmento designado como um outro é integrado à cadeia discursiva sem ruptura sintática.
O que Authier-Revuz (1990) chama de modalização autonímica diz respeito à propriedade que tem o enunciador de interromper o fio da narração e comentar sua própria fala enquanto ela está sendo produzida; “ela supõe um movimento reflexivo em que o locutor “opacifica” seu próprio dizer, isto é, suspende a obviedade ou transparência de determinada palavra ou expressão de seu discurso, ao tomá-la como objeto. Em poucas palavras, o enunciador usa e menciona o signo ao mesmo tempo. Na frase É um marginal, como se diz hoje em dia, a palavra marginal é utilizada ao mesmo tempo como um falar sobre o mundo (marginal = “indivíduo à margem da sociedade”) e sobre o signo marginal” (COSTA, 2001, p. 44).
Nesses casos, Costa (2001, p. 35) observa que a heterogeneidade consiste em:
1. cumular duas estruturas semióticas hierarquizadas: inicialmente relaciona-se um signo a um referente (semiótica denotativa) e, depois, toma-se este signo como referente (semiótica metalingüística);
2. efetuar-se como falando das coisas com palavras; representar-se fazendo isto; e representar, por meio da autonímia, a forma desse fazer (MAINGUENEAU, 2001, p. 33);
3. além desse desdobramento do sujeito enunciativo, existe também o remeter-se a uma outra fonte enunciativa26 em relação à qual o discurso pretende afirmar sua identidade e unidade.
26 Ponto a partir do qual se originam os discursos. Essas fontes podem associar-se ao locutor, ao enunciador ou
Neste último caso, a alteridade pode ser representada por: a) uma outra língua (“al dente, como dizem os italianos”);
b) um outro registro discursivo (familiar, vulgar etc.: “para usar uma palavra dos jovens de hoje em dia”);
c) um outro discurso (técnico, político, marxista etc.: “... ‘significante’, no sentido que a lingüística estrutural confere ao termo...”);
d) uma outra modalidade de significação da palavra, recorrendo-se explicitamente a um exterior lingüístico ou a um outro universo discursivo (no primeiro caso, o da língua como lugar de polissemia, homonímia, metáfora etc. – “X, sem trocadilho” ou “X, para usar de um eufemismo...” – e no segundo caso, o da palavra já habitada historicamente por um ou mais discursos: “uma contradição, no sentido materialista do termo”);
e) uma outra palavra, potencial ou explícita denotativa de reserva (“X, se se puder chamar isso de X...”), hesitação ou retificação (X, ou melhor, Y), confirmação (X, essa é a palavra exata...) etc.
f) um outro falante (“como diria Marx...”) ou o interlocutor suscetível de não compreender ou de não aceitar expressões tidas como óbvias (“... X, com o perdão da palavra...”, “se você quiser, X”, “X, se você me entende”)
Diferentemente de Authier-Revuz, que vê as relações metadiscursivas numa perspectiva restrita, Costa adota, em sua pesquisa, o metadiscurso em um sentido amplo, considerando-o como o “processo segundo o qual o discurso de um locutor tem como objeto seu próprio discurso, constituindo a si mesmo como alteridade, ou seu próprio discurso como outro” (COSTA, p. 36).
Ao terminar de expor as relações intertextuais, interdiscursivas e metadiscursivas, Costa atenta para o fato de que, ao analisar essas relações, o que interessa não é a estrutura das relações textuais em si mesmas. O que o analista deve buscar é que implicações essas relações trazem para o posicionamento exercido pelo sujeito dentro de sua prática discursiva. Ou seja, que tipo de relação ele mantém com seu campo discursivo (o interdiscurso). É sobre a noção de posicionamento que falamos a seguir.