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5.3 As provas de proficiência em língua francesa em quatro anos na UniC

5.3.2 A prova: o conceito de leitura subjacente

reconhecimento de informações específicas, por vezes o reconhecimento da perspectiva do autor, a solicitação do ponto de vista do candidato e a identificação de alguns aspectos lingüísticos específicos são chave para a compreensão do texto. Essas características remetem a um propósito de leitura com vistas a um entendimento global do texto, ainda que a seleção dos textos não seja a mais adequada. Com vistas a legitimar este estudo, optei por selecionar o texto do II semestre de 1999, por reunir neste as características analisadas.

23 linhas dizem respeito a um único extenso parágrafo, que é finalizado com a indicação bibliográfica.

O texto faz um convite, desde o título, a resistir-se à padronização dos alimentos, comentando de forma crítica a indústria agroalimentar. O contexto de produção do texto reporta o leitor para a publicação de um artigo da revista 'L'Express', de outubro do mesmo ano da prova, sendo, portanto, um texto jornalístico contemporâneo.

O segundo texto, intitulado 'Le bonheur: une définition psychologique', dispõe da mesma formatação do anterior, sendo dividido em dois grandes blocos, que poderiam ser entendidos como parágrafos se houvesse recuo nos mesmos. Ao final, tem-se igualmente a indicação bibliográfica, a qual determina desde já o contexto de inserção da leitura, por tratar-se de um excerto traduzido de 'Malaise dans la civilisation', de 1929, de Sigmund Freud, da P.U.F., Presse Universistaire Française.

Descrição das questões:

Prova composta de 8 perguntas para cada texto, as quais têm referência à linha a que se referem no texto. Não há uma seqüência linear conforme as informações do texto e as perguntas são elaboradas na língua estrangeira.

O gênero no qual se enquadra o primeiro texto é o informativo-jornalístico, explicitado também pela fonte, já que se trata de um texto extraído de uma revista francesa.

À semelhança de uma 'Super Interessante', o público leitor dessa publicação busca uma discussão de questões polêmicas da atualidade, pela ciência, neste caso, a industrialização desmedida dos alimentos.

A questão inicial relativa ao primeiro texto 'Por que o autor diz que é o momento de dispor da ciência a serviço do gosto?'é uma questão de cunho global. Já a questão seguinte

"Diga com suas próprias palavras o que significa 'se o terror desenvolver-se na distribuição em grande escala' trata-se mais freqüentemente de marketing do que real autenticidade?", solicita o posicionamento do leitor pesquisador quanto ao emprego expressivo que a autora faz do termo 'terroir' entre aspas, como indicado em destaque no próprio texto. A terceira questão volta ao início do texto 'A indústria agroalimentar atingiu extraordinários desempenhos, tal afirmação seria categórica, justifique-a?", perguntando ao candidato se essa afirmação seria categórica, além de solicitar sua justificativa.

Das três questões de caráter mais genérico, passa-se, a partir da quarta pergunta, a solicitações bastante pontuais: "A que se refere o pronome sublinhado na frase 'viu-se com o uso'?", que diz respeito ao emprego de um anafórico. Na questão seguinte "Qual o sentido

contextual do verbo 'ramollir'?", salienta-se que o candidato reconheça o caráter polissêmico da palavra em destaque. Na sexta, "O que o adjetivo possessivo 'ses' retoma?".

A exemplo da quarta pergunta, tem-se aí um recuperador textual, como também a questão de número oito "O que o pronome 'en' da linha 20 retoma?". A penúltima questão, sétima, apresenta estreita relação com a primeira, uma vez que tal questionamento não deixa de ser um desdobramento desta questão 'De que maneira a ciência poderia estar a serviço do gosto?"

Importante observar que a não linearidade das perguntas em relação à apresentação das idéias no texto não prejudica a construção da leitura bem como sua articulação lógica e progressiva, já que as idéias estão articuladas sob a forma das perguntas, que oscilam entre aspectos chave e questões de cunho lingüístico, como podemos observar ao realizar a análise da prova entre texto e suas questões.

A abordagem de questões quanto ao segundo texto é bastante semelhante, mas vejamos antes algumas considerações sobre o gênero deste documento. Diferentemente do primeiro texto, este trata de uma área específica, indo ao encontro do que nos foi informado quando das entrevistas com a Comissão de provas no que diz respeito à escolha de um texto mais genérico e outro mais próximo à área de formação do candidato. Assim, este texto da área da psicologia caracteriza-se por apresentar um tema específico desta área do saber, qualificando-o como acadêmico-científico, retirado de uma fonte reconhecida pelo meio em que se insere, trata-se de uma publicação da P.U.F. - Presse Universitaire Française -, legitimada, dessa forma, por seu contexto de produção e circulação. Mas, nas circunstâncias do exame de proficiência, ou seja, em sua situação de recepção, há de se reconhecer que se

trata de um texto muito próprio a uma determinada área, contemplando, assim, apenas uma das candidatas, quando os demais eram oriundos de outros cursos, como se pode constatar no Anexo A, sobre o índice de aprovação e reprovação dos candidatos em que há a indicação do curso. Curiosamente foi justamente a candidata desta área a reprovada no exame, dentre os seis candidatos que realizaram a prova neste semestre da UniC, com a nota atribuída de 6,4, quando a média solicitada era de 7,0.

A exemplo do texto anterior, este é abordado por oito perguntas, que são orientadas por uma ordem geral: 'Les questions ci-dessous se réfèrent au texte 2. Lisez-les attentivement et répondez-y en portugais. A primeira questão é de ordem genérica, solicitando ao candidato que responda o que significa 'felicidade' para Freud em um sentido mais estrito, além de convidar o leitor a se posicionar sobre tal assunto, perguntando-lhe ao final da questão, o que ele pensa sobre o tema.

Já a segunda pergunta, solicita ao leitor que traduza as quatro primeiras linhas do texto. A questão seguinte segue a estrutura hierárquica textual, pedindo que o candidato diga ao que o objetivo positivo da felicidade é associado, se é realizável e explicando o porquê. A quarta questão demanda o entendimento do valor polissêmico do verbo 'trahir' e a questão de número cinco solicita a explicação pontual do recuperador textual 'cette aspiration'.

Na sexta questão, a recuperação de itens pontuais do texto é reforçada, ao solicitar a referência do pronome 'y'. A sétima pergunta tem um caráter mais global, ao solicitar ao candidato que justifique sua resposta ao discorrer sobre o fato de o prazer ser intenso e permanente. A última pergunta volta a um questionamento restrito, ao demandar o sentido

contextual da palavra 'persistência'.

Conforme a análise do gênero deste texto e da sua respectiva abordagem por meio das perguntas da prova, reconhece-se que as perguntas revelam vários níveis de leitura, exigindo que o leitor seja decodificador, usuário, participante e crítico, de acordo com Gibbons (2002), uma vez que algumas questões convidam o leitor a trazer sua perspectiva em relação a questões que pressupõem a compreensão do texto. Apresento a seguir a prova deste período e passo na seção seguinte a analiar as respostas de duas candidatas, uma considerada proficiente e outra não proficiente, que são exemplos típicos do desempenho dos seis candidatos que fizeram esta prova (cinco aprovados e uma reprovada).

TEXTO 1 - PROVA DO II SEMESTRE DE 1999