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A quebra do paradigma do trabalhador típico

25.1. O NOVO CENÁRIO

Após vivenciar os períodos acima declinados, quando atingiu o auge da proteção aos trabalhadores por intermédio de intensa atividade legislativa, o Direito do Trabalho viu, ao chegar à década de setenta do século passado, seus princípios de proteção serem duramente golpeados pelas novas formas de prestação do trabalho subordinado que mudaram a face dos modelos de subordinação conhecidos.

Maurício Godinho 121 assim se reporta a essas transformações:

Uma conjugação de fatores verificou-se nesta época. De um lado, uma crise econômica iniciada alguns anos antes, entre 1973/1974 (a chamada crise do petróleo), que não encontrou resposta eficaz e rápida por parte das forças

políticas então dirigentes. [...] De outro lado, um processo de profunda renovação tecnológica, capitaneada pela microeletrônica, robotização e microinformática. Ais avanços da tecnologia agravavam a redução dos postos de trabalho em diversos segmentos econômicos, em especial na indústria, chegando a causar a ilusão de u a próxima sociedade sem trabalho.

Já Amauri Mascaro Nascimento 122 , ao comentar esta fase, diz que os

sociólogos e economistas observam que os empregos na indústria diminuíram e o conceito de classe e da luta de classes sofre modificações diante dos novos segmentos sociais. A ampliação das leis trabalhistas e as exigências econômicas do desenvolvimento da tecnologia nem sempre coincidem, mas, ao contrário, em alguns casos colidem.

Para Francisco Ferreira e Jouberto Quadros 123

A intervenção estatal e a atuação organizada dos trabalhadores foram elementos essenciais para o surgimento do Direito do Trabalho. Todavia, ante as transformações pelas quais passa a sociedade capitalista contemporânea, o Direito do Trabalho vem sofrendo mudanças que exigem a adoção de novos mecanismos, visando a sua flexibilização. A nova realidade econômica, ao adotar o fatos tecnológico tanto à produção quanto ao comércio, faz com que o modelo intervencionista estatal seja criticado em vários paises. O modelo estatal rígido de proteção é insuficiente para a tutela do trabalhador em face as novas técnicas de trabalho. O mundo globalizado exige um novo modelo de tutela ao trabalhador. A flexibilização é inexorável no trato das relações tanto

122

NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Iniciação ao Direito do Trabalho. 28ª ed. São Paulo: LTr, 2002, p. 44

coletivas quanto individuais de trabalho; todavia, a grande dificuldade repousa em se saber quais são os limites para a desregulamentação do Direito do Trabalho.

Maria do Rosário Palma Ramalho 124 considera que:

na década de setenta, e por razões ligadas a alteração dos sectores dominantes da economia, às tendências de especialização das empresas e, ao mesmo tempo, de globalização das trocas econômicas, bem como por força dos avanços tecnológicos, este quadro empresarial de referência de normas laborais vai se alterar.

A autora nos ensina que, nesta época, ao lado das grandes unidades produtivas do setor secundário, surgem às empresas do setor terciário e, devido ao avanço da tecnologia, empresas do setor quaternário da economia, pequenas e ágeis, concentrando-se no “core” de seu negócio e recorrendo a serviços externos para as funções auxiliares.

Prossegue a autora 125 :

Evidentemente, no seio destas empresas, os vínculos de trabalho tendem, também eles, a fugir ao modelo tradicional: assim, a retribuição dos trabalhadores é muitas vezes variável e em função dos resultados; a organização do trabalho não é feita em moldes hierarquizados, mas em

124

RAMALHO, Maria do Rosário Palma, Ob. cit, p. 60

equipes; o local de trabalho pode não corresponder às instalações da empresa, vulgarizando-se as formas de controle a distância que a evolução tecnológica propicia e, sobretudo, no âmbito dos grupos de empresas, incentivando-se uma certa migração dos trabalhadores entre as empresas do grupo; é também comum a flexibilização do tempo de trabalho em função das necessidades a empresa; por fim, a estrutura menos verticalizada destas empresas e as formas mais flexíveis de desenvolvimento do trabalho contribuem para uma maior aproximação dos trabalhadores ao empregador ou ao “management” ( freqüentemente incentivada por diversas formas de interessamento dos trabalhadores nos resultados, como prêmios de produtividade, participação nos lucros ou no capital) que altera a fisionomia classista tradicional do Direito do Trabalho e contribui para diminuir a força do associativismo sindical.

Resta claro que as novas demandas impostas pelas transformações sociais motivadas pelo avanço da tecnologia e pela volatilização dos capitais reclamam do Direito do Trabalho novas posturas capazes de apresentar respostas para estas questões. O modelo tradicional de subordinação da lugar a novas e variadas formas de prestação de serviço, que, de certa forma, não contam com o mesmo nível de proteção tutelado ao trabalhador que nos acostumamos acamar de “típico”.

Manuel Carlos Palomeque Lopez 126 sustenta que

A crise econômica dos anos setenta, instalada de modo severo nas economias industrializadas, no mínimo durante uma dúzia de anos, punha termo sem dúvida a idade de ouro precedente do Direito do Trabalho. Após quatro anos

de recuperação (o crescimento conjunto da economia espanhola durante o período 1985 -1989 chegou a ser de 21% com uma taxa anual acumulada de 4,9% , a mesmo tempo que o PIB comunitário europeu alcançava 13,2% no conjunto do quadriênio, equivalente a uma taxa anual de 3,1%), uma nova recessão econômica justificava, não obstante, no início dos anos noventa, importantes políticas de ajuste nos principais paises industriais,

Para o autor 127 o Direito do Trabalho “da crise” redescobre sua vocação originária de instrumento de racionalização econômica das regras do jogo aplicáveis às relações profissionais. E prossegue:

Deste modo, da as confrontação com a crise econômica e de mãos dadas às políticas governamentais de luta contra as graves conseqüências da mesma (política de emprego, de flexibilização do mercado de trabalho, de rendimentos, etc), o Direito do Trabalho recebeu efetivamente certas influências e transformações que fomentam, alem do mais, ceptiismo acerca da continuidade de determinadas pautas tradicionais próprias. Além do mais, serviu para alimentar ua magna e interessada operação de culpabilização do Direito do Trabalho a respeito das conseqüências da crise econômica. Pretende-se cm ela, no fim das contas, o amparo das supostas exigências da crise, o desarme da função dos indícios de identidade essenciais do ordenamento jurídico – laboral e, porquanto, o “assalto” a algumas expressões mais caracterizadas do Estado Social (rectificação de conquistas sociais, desregulação, etc).

Em vista do novo cenário, não faltam oportunistas querendo carrear para o Direito do Trabalho todas as mazelas que a tecnologia, a micro informática e a otimização dos processos produtivos trouxeram à relação de emprego tradicional, como se a simples supressão de tudo aquilo que foi conquistado pelos trabalhadores através de séculos de luta tivesse o condão de acabar com o desemprego que assola o mundo.

26. AS “CONSTITUIÇÕES ECONÔMICAS” BRASILEIRAS E O DIREITO DO