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Grosso modo, a realidade é elaborada pelos indivíduos por meio de suas interações cotidianas na busca de um ambiente estável onde possam desenvolver suas vidas sem grandes sobressaltos. A partir daí, elaboram regras e dão significados às suas ações e, desse modo, o mundo passa a ser um lugar compreensível e relativamente seguro.

Nesse sentido, as instituições aparecem como elemento importante para tal estabilização, pois tornam as ações habituais em rotinas tipificadas a serem obedecidas. “As tipificações das ações habituais que constituem as instituições são sempre partilhadas. São acessíveis a todos os membros do grupo social particular em questão, e a própria instituição tipifica os atores individuais assim como as ações individuais” (BERGER; LUCKMANN, 1973, p. 79). Portanto, quando vivemos em coletivos, não só o nosso ego influencia nas decisões, mas as instituições e as condições estruturais da sociedade em que fomos socializados impõem-nos determinados modelos de comportamento.

Por intermédio da linguagem e da cultura, estabelecemos conexões com os outros, conseguimos objetivar nossas experiências e desenvolver-nos subjetivamente, damos ordem ao mundo. Além disso, passam a orientar as ações dos sujeitos, pois sabem o que esperar como

consequência de seus atos. Assim, ao estudarmos as interações entabuladas pelas organizações da sociedade civil, avançamos no sentido de entender o próprio processo de formação da realidade social.

As organizações da sociedade civil objeto de nosso interesse contribuem de maneira importante nessa estabilização do mundo social, conferindo sentido às ações dos sujeitos que as integram, e ao mesmo tempo provocam mudanças sociais na compreensão da realidade, quando transformam o significado de certos conceitos e interações. Fazem isso ao chamar atenção para certos problemas despercebidos no cotidiano. Subjaz ao longo da pesquisa uma questão: como é possível o associativismo civil voltado aos direitos humanos no Espírito Santo? Trata-se de explicarmos como tal ordem social é mantida e/ou transformada.

Mas antes de nos debruçarmos sobre o campo empírico, é importante aprofundarmos a problemática da perspectiva teórica, porque é na relação entre teoria e empiria que os objetivos de pesquisa são gestados. Para tanto, neste momento, apresentaremos algumas interpretações sobre o conceito de sociedade civil. Esse será nosso ponto de partida conceitual, porque precisamos entendê-lo para compreendermos a lógica de funcionamento das organizações que a compõem.

Talvez uma das formulações mais aceitas desse conceito seja a desenvolvida por Habermas. Para ele, as sociedades apresentariam duas dimensões distintas: de um lado teríamos aquela abarcada pelo Estado e o Mercado, chamada de “sistema”, e de outro o “mundo da vida”, espaço cotidiano marcado pela comunicação, no qual os indivíduos procuram alcançar consensos mínimos sobre como regular a vida em conjunto – processos garantidos por leis, instituições e procedimentos que conferem legitimidade às decisões. É a partir do “mundo da vida” que se constitui a sociedade civil, composta por organizações e movimentos aptos a apreender os problemas sociais e tematizá-los na esfera pública:

O seu núcleo institucional é formado por associações e organizações livres, não estatais e não econômicas, as quais ancoram as estruturas de comunicação da esfera pública nos componentes sociais do mundo da vida. A sociedade civil compõe-se de movimentos, organizações e associações, os quais captam os ecos dos problemas sociais que ressoam nas esferas privadas, condensam-nos e os transmitem, a seguir, para a esfera pública política (HABERMAS, 2003, p. 99).

Mas esse não é o único entendimento possível. Por sua vez, a teoria tripartite da sociedade civil de Arato e Cohen (1992) apresenta alguns pontos de convergência e de divergência com o pensamento habermasiano, isto porque esta é entendida como uma esfera de interação diferente da economia e do Estado, com sua lógica própria (convergência). Contudo, para esses autores. O agir comunicativo16 (modo pelo qual os consensos são estabelecidos) apresenta três parâmetros analíticos distintos para a sua identificação, a saber, pluralidade, publicidade e privacidade. Os atores, neste caso, lutam não unicamente para se defenderem dos ímpetos colonizadores do “sistema”, mas para influir sobre este, por meio de associações e movimentos – portadores das inovações democráticas – com o apoio dos meios de comunicação, ou seja, da esfera pública (divergência).

Nessa leitura, os sistemas político e econômico apresentam espaços de interação com o “mundo da vida”, não se mantêm autolimitados. Cohen (2003, p. 10), ao comentar seu trabalho com Arato, afirma:

[...] como traço característico da sociedade civil, procuramos enfatizar o potencial crítico desta última no que se refere às normas e projetos, sua capacidade de exercer influência na sociedade política e a importância de proteger a sociedade civil contra a ‘colonização’ pelo dinheiro ou pelo poder.

Essas definições de sociedade civil, por um lado apresentam um caráter teórico- explicativo; por outro, um político-normativo. Isso porque, na mesma medida em que se propõem a entender o processo de constituição e legitimação das democracias e dos Estados modernos, apresentam-no como o modelo por excelência a ser adotado na busca por consenso e definição das decisões políticas.

Logo, o respeito aos procedimentos decisórios vazios de valores e a tentativa de consenso são o que as democracias devem valorizar, se almejam a legitimidade de suas ações, sendo este o único caminho aceitável de expressão dos indivíduos organizados. Trata-se do estabelecimento de uma esfera pública conectada ao “mundo da vida” pela sociedade civil em que todos possam participar em igualdade de condições, orientados pela lógica comunicativa com vistas ao consenso.

16 Esse conceito é cunhado por Habermas (2003) para expressar a lógica de ação presente no mundo da vida. Essa

lógica orienta as ações cotidianas dos indivíduos no sentido do entendimento recíproco e no estabelecimento de consensos normativos.

A partir desta compreensão, as organizações que lutam pelos direitos humanos teriam a tendência de alcançarem entre si um consenso sobre a definição do que são direitos humanos e de seus âmbitos de atuação. Uma tentativa de afinar discursos e estratégias de ação. Porém, como se lerá nesta tese, a realidade empírica não se apresenta de maneira tão unívoca.

Há também uma forte crítica a esse conjunto teórico, porque tal realizaria uma disjunção entre teoria e realidade empírica, aproximando-se sobremaneira da Filosofia Política em função do seu caráter normativo, haja vista, que as elucubrações teóricas muitas vezes não encontram relação com as mobilizações cotidianas desenvolvidas pelos atores sociais. Consequentemente, algumas pesquisas desenvolvidas no Brasil por autores como Avritzer (2007 e 2008), Lüchmann (2002 e 2007) e Dagnino e Tatagiba (2007), que partem desse referencial teórico, acabam por incorporar essa dualidade. A normatividade e a certeza da existência de uma sociedade civil forte e de uma esfera pública atuante fazem-se presentes em seus trabalhos. Creditam grande importância aos procedimentos deliberativos, por exemplo, conselhos de gestão pública, orçamento participativo, novas modalidades de representação, como instâncias ativas capazes de fazer frente ao Estado e ao Mercado, e não percebem as imbricações entre estes e a heterogeneidade da sociedade civil.

Realizam crítica nesse mesmo tom Gurza Lavalle, Castello e Bichir (2006, 2007) e Silva, K. (2006), quando comentam que esses tipos de estudos às vezes caem em certo essencialismo, por acreditarem que a sociedade civil por si seja elemento capaz de “democratizar a democracia” e garantir a “boa governança”, ou seja, que ela consiga manter-se livre das influências do Mercado e do Estado e sobre estes exerça pressão. Além disso, focadas muitas vezes em investigações sobre políticas públicas, não prestam a atenção devida às dinâmicas internas da sociedade civil entre as suas díspares organizações, esquecem como a ordem social é forjada. Há assim uma homogeneização das entidades, como se atuassem sobre os mesmos propósitos e da mesma forma:

Essa perspectiva, no entanto, tem sido objeto de crescentes críticas que enfatizam o descompasso entre as prescrições normativas e essencialistas do modelo teórico e os atores empíricos que configuram a “sociedade civil” brasileira, a qual seria altamente heterogênea e marcada por diversas características (clientelismo, autoritarismo, baixa densidade associativa, heteronímia ante os atores políticos e governamentais, etc.) que problematizariam tal inculcação natural e direta entre associativismo civil e democratização (SILVA, K., 2006, p. 3).

Em resumo, não se trata simplesmente de negar essa literatura e seus achados como um todo, mas levar em séria conta a realidade empírica e, a partir daí, pensarmos a teoria, caso contrário, corremos o risco, como nos alerta o autor supracitado, de reificarmos o conceito e perdermos de vista a sua capacidade explicativa. A ideia de que todas as organizações responsáveis pela sociedade civil brasileira guiam-se quase exclusivamente pela tentativa de consenso pode soar como ingenuidade.

Pelo contrário, as relações entre as entidades são eivadas de tensões e conflitos por prestígio, poder e dinheiro. Nelas, a decisão nem sempre é o resultado de acordo comum, mas às vezes resultado de um cálculo racional. Isso é possível porque elas não só possuem histórias diferentes, mas também almejam objetivos diversos, mesmo que todas se autodefinam defensoras dos direitos humanos. Por exemplo, às vezes, ao participarem de redes, algumas desempenham “funções” específicas para o funcionamento do arranjo, denotando uma espécie de divisão do trabalho social que escapa aos acordos coletivos. Em razão disso, a empiria ganha grande relevância no nosso estudo, pois, de maneira um tanto quanto ambiciosa, pretendemos preencher algumas lacunas existentes no estudo do associativismo civil brasileiro, sem cairmos na Filosofia Política. Para isso construiremos um quadro explicativo das conexões estabelecidas entre as várias entidades que dão forma à sociedade civil, por exemplo, movimentos sociais, associações de bairros, associações comunitárias, fóruns, coletivos, organizações não governamentais (ONGs) etc.

Quando pensamos inicialmente no tema desta tese tínhamos em mente uma investigação que não se limitasse a um simples estudo de caso ou ficasse refém de limites geográficos, mas que fosse capaz de generalizar seus resultados. Havia certa ambição explicativa, desenvolver um conjunto de enunciados capazes de explicar as lógicas de ação por detrás do modo como a sociedade civil no Brasil se organizava. Conforme, comentamos anteriormente, era importante para nós romper com as explicações maniqueístas sobre a temática e colocar a nu o associativismo nacional.

Imaginávamos que esses objetivos só seriam alcançados na medida em que definíssemos um objeto empírico amplo e robusto o suficiente que, grosso modo, representasse as organizações civis brasileiras como um todo. Essa foi uma das razões que nos levaram em um primeiro momento a estudar uma rede de âmbito nacional. Porém essa má compreensão da representatividade do objeto, como vimos, acarretou muitos dos problemas enfrentados na

execução deste trabalho. Acreditávamos que a importância da pesquisa estava diretamente vinculada ao tamanho do objeto empírico, então, se nossos objetivos eram grandiosos, aquele também deveria sê-lo. Iludimo-nos com as necessidades de inovação e produção científica demandas por uma tese. Compreender esse equívoco ajudou-nos a repensar a construção do desenho de pesquisa e a execução da coleta das informações e análise dos dados.