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A realidade do sofrimento humano

V. A relação entre o sofrimento e as promessas

1. A realidade do sofrimento humano

O sofrimento é uma condição que, de uma forma mais leve ou intensa, toca a todos. Quando falamos de sofrimento queremos expressar um conjunto de situações tão diversificadas e pluridimensionais que influenciam a pessoa. As situações de sofrimento expressas das mais variadas formas atingem a pessoa no seu todo. São procuradas soluções na medicina, mas tantas vezes não são encontradas respostas satisfatórias.

O Papa João Paulo II abordou a questão do sofrimento humano de uma forma profunda e deixou-nos algumas pistas para a reflexão. A palavra sofrimento é algo que só se pode entender no contexto da natureza humana. O sofrimento “é algo tão profundo como o homem, precisamente porque manifesta a seu modo aquela profundidade que é própria do homem e, a seu modo, a supera”198.

O sofrimento, pela sua complexidade, pode ser uma realidade “quase inefável e não comunicável, talvez nenhuma outra coisa exige ao mesmo tempo tanto como ele. A realidade objetiva do sofrimento precisa de ser tratada, meditada e concebida, dando ao problema uma forma explícita; e daí, que a seu respeito se levantem questões de fundo e que para estas se procurem respostas”199. A religião apresenta-se, para quem sofre, como uma possibilidade de sentido e de desígnio de vida. E muitas vezes é um fator que favorece a saúde e a qualidade de vida.

O sofrimento pode apresentar-se com diversos tipos ou significados. Assim, o sofrimento pode ser físico, mental, moral e espiritual. Por norma costumamos associar a palavra sofrimento “ao psíquico, ao mental ou à alma, enquanto a palavra dor, geralmente, é remetida a algo localizado no corpo”200. A forma como a pessoa tem perceção do sofrimento,                                                                                                                          

198 João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris (Braga: ed. A.O.), 2. 199 João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris, 5.  

condiciona a sua interpretação e as respostas para tentar ultrapassar as situações difíceis. Só no campo teórico é que podemos fazer uma distinção entre o sofrimento físico e psicológico, porque na verdade não podemos isolar estas duas dimensões, visto que a pessoa é una e indivisível. O sofrimento tem, também, uma dimensão espiritual que afeta toda a pessoa no seu caminho existencial. Podem ser causas do sofrimento: a doença, o remorso, a desesperança, o desemprego, dificuldades económicas, problemas familiares, desavenças, entre outras. Estas causas levam muitas vezes à procura da religião institucional ou então, pelo menos, à prática de ações da Religiosidade Popular. A procura da transcendência é muitas vezes uma forma de encontrar a esperança e a paz que os outros caminhos não foram capazes de oferecer. Diante da experiência humana do sofrimento, é na religião que as pessoas têm encontrado lugar de refúgio e de algum conforto e esperança.

A pessoa, ao longo da sua vida vai experimentando a sua finitude e a sua fragilidade. Esta é uma realidade que se impõe pela sua própria experiência. Ao longo dos tempos fomo-nos questionando sobre a realidade do sofrimento e não encontramos palavras e explicações capazes de satisfazer este anseio humano. “O sofrimento é algo inerente à espécie humana. Parte integrante da sua própria existência, enquanto ser relacional, capaz de a significar e de a valorizar”201. Nas dificuldades e nas adversidades a religião manifesta-se como um poder que pode organizar o mundo do sujeito entre a sua vida e o sagrado. Deste modo, “a experiência humana do sofrimento não fica indiferente à atitude religiosa podendo estimulá-la ou gerar desconfortos”202.

O sofrimento foi e continua a ser uma realidade presente na vida da pessoa, onde ela tem consciência da sua existência e dos seus efeitos. Mas todas as explicações são sempre débeis e ficam sempre aquém da realidade. O Homem, como ser dotado de razão, é o único ser que tem consciência do seu sofrimento e por isso ainda sofre de um modo mais profundo, porque não encontra respostas satisfatórias203. “O sofrimento encerra em si, o que de mais exclusivo existe em cada um de nós”204. A religião, está cada vez a ganhar mais espaço, como uma forma de enfrentar os vários tratamentos de saúde, destacando-se como suporte diante do sofrimento físico ou emocional. Como diz João Paulo II, “o sofrimento parece ser, e é mesmo, quase inseparável da existência terrena do homem”205.

                                                                                                                         

201 Carqueja, “A prática religiosa e a perceção do sofrimento,” 8.

202 M. Geronasso e D. Coelho, “A influência da religiosidade/espiritualidade na qualidade de vida das pessoas

com câncer,” Saúde e Meio Ambiente, nº 1 (junho 2012): 179.

203 Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris, 9. 204 Carqueja, “A prática religiosa e a perceção do sofrimento,” 9.   205 Cf. João Paulo II, Carta Apostólica Salvifici doloris, 3.

Para melhor abordarmos este tema é importante partirmos de algumas definições feitas por diversos autores. O sofrimento pode ser definido de vários modos, de acordo com o nosso prisma de reflexão. De uma forma sucinta, apresento algumas definições que podem ajudar a delimitar este conceito: Uma enfermeira americana, a partir da sua experiência clínica, diz que o sofrimento “é um sentimento de desprazer, variando de um simples e transitório desconforto mental, físico ou espiritual, até uma extrema angústia”.206 Para Freud, o sofrimento é o estado de expetativa face ao perigo e preparação para ele, seja ele um perigo desconhecido, conhecido ou imprevisto207.

Nesta perspetiva, o estado de sofrimento da pessoa apresenta-se como uma reação para enfrentar o ambiente nem sempre muito favorável. O sofrimento pode ser “entendido como um mal-estar pessoal e reflete-se no rosto e na vida da pessoa”208. É muito comum que a

pessoa, em caso de enfermidade ou diante de outra causa de sofrimento, procure na religião um suporte emocional. Ela sente na vida a sua própria fragilidade. Por isso o sofrimento pode ser entendido como “uma experiência de impotência da dor não aliviada ou situações de doença que levam a interpretar a vida vazia de sentido”209. O sofrimento é sinónimo de uma perda da qualidade de vida, que pode levar a uma rutura na vida da pessoa210.

O sofrimento pode ser entendido como um sentimento de angústia, fragilidade, perda de controlo e ameaça à integridade da pessoa. “A religiosidade tem sido um importante papel na vida das pessoas, facilitando a forma como elas têm enfrentado as adversidades da vida”211. A forma como o sofrimento é vivido difere de pessoa para pessoa e depende, também, do estado emocional e físico em que ela se encontra naquele momento concreto da sua existência.

O sofrimento é uma realidade que está presente na vida de todos e, de uma forma mais ou menos assumida, continua a ser motivo para um constante questionamento. Mas também é uma forma de viver a solidariedade dos momentos mais dolorosos. Assim, “se alguém não sofre, deve-se não só a que não padece, como também a que não se compadece”212. O sofrimento pode ser um acontecimento para a pessoa percecionar a sua fragilidade e a sua finitude, mas também pode ser um caminho de superação e de descoberta da fé, de religação à transcendência, como vamos procurar aprofundar a seguir.

                                                                                                                         

206 Joyce Travelbe, Interpersonal aspects of nursing (Filadélfia: 1971), 91.

207 Cf. Sigmund Freud, Além do princípio do prazer (Rio de Janeiro: Editora Imago, 1920), 41.

208 A. Guerra, “Sofrimento,” in Dicionário de Pastoral, Ed. Cassiano Floristán (Porto: editorial Perpétuo

Socorro, 1990), 524.

209 Léo Pessini, “Humanização da dor e sofrimento humano no contexto hospitalar,”10, nº 2 Revista de Bioética,

(novembro 2002): 52.

210 Outras definições de sofrimento podemos encontrar em: Carqueja, “A prática religiosa e a perceção do

sofrimento,” 9.

211 L. Silva e V. Moreno, “A religião e a experiência do sofrimento psíquico: escutando a família,” Ciência, Caridade e Saúde, nº 2 (maio/agosto 2004): 161.