• Nenhum resultado encontrado

5.2 O RETORNO DA PESQUISADORA AO PAQUIÇAMBA

5.2.1 A EXPULSÃO DAS “PROFESSORINHAS” DO CIMI

5.2.1.2 A representatividade indígena na “aldeia” e os recursos do Programa

A organização política dos Juruna já havia passado por processos de transformação quando da época da demarcação da área como TI. Anteriormente o chefe era o Fortunato Juruna, que com a intervenção da FUNAI perdeu a liderança para Manuel. Sobre esta mudança o Fortunato Juruna deu o seguinte depoimento: “Benigno perguntou quem era o chefe aqui, colocou o Manel como chefe; ele não sabe de nada, acho que ele está fazendo tudo errado”. (F. Juruna, 95 anos, 11-02-2001, Furo Seco, depoimento.). De acordo com o que se levantou em campo, em Paquiçamba Fortunato nunca aceitou essa decisão, e sempre questionou o poder de Manuel. De modo que todos sabem, dentro da TI, que do Furo Seco para baixo Manuel não exerce nenhum poder, ou seja, o próprio grupo produziu internamente uma espécie de um rearranjo político com vistas a evitar conflitos. Entretanto, oficialmente Fortunato não responde mais pelos Juruna.

Com a criação da “aldeia” e conseqüentemente a interferência de outras agências, novos desdobramentos surgem em torno do poder no âmbito da TI provocando novas divisões internas. Se antes o poder de Manuel era questionado pelo grupo familiar de Fortunato, na “aldeia” os outros grupos também lhe fazem oposição e, principalmente, ao filho Marino, que é também liderança. Enquanto isso, externamente ocorre uma disputa entre as agências no qual os índios participam dela. Internamente acontece uma disputa entre os índios no qual as agências, também tiram partido.

Com a chegada dos recursos do Programa Raízes na “aldeia” que correspondeu em uma voadeira, um barco e dinheiro para compra de material para a construção de uma casa de farinha e para a construção de um casarão que seria utilizado para armazenamento de grãos, o que é estranho já que os Juruna não se dedicam à agricultura, os conflitos se polemizaram. Uma das prioridades do Programa para os índios se refere ao “[...] apoio a projetos produtivos que induzam o desenvolvimento sustentável dos aldeamentos” (PROGRAMA, 2000). As professoras

23 O Programa Raízes foi criado em 12 de maio de 2000 pelo Decreto nº 4.054, sendo um instrumento de política

pública do governo do Estado do Pará, que visa promover o reconhecimento e a proteção dos direitos dos índios e das comunidades remanescentes de quilombos.

do CIMI enviaram uma carta ao coordenador do Programa em Belém denunciando as lideranças de estarem se beneficiando dos recursos e desvio de dinheiro. Sobre isto uma índia relatou: “As professoras começaram a exigir as notas fiscais de tudo que foi comprado e eles se sentiram pressionados” (N. Juruna Arara 25 anos, 13- 06- 2004, depoimento).

A coordenação do Raízes enviou um representante para apurar os fatos. Na “aldeia” os grupos que faziam oposição ao Manuel denunciaram que as lideranças utilizam o barco e a voadeira para fazerem frete e que eles são impedidos de usarem e ainda houve denuncias de desvio de dinheiro. O representante explicou que a voadeira e o barco pertencem à comunidade e que não é para fazerem fretes. Sobre isto Manuel explicou a pesquisadora: “Eu não pesco cari. Eu tenho que fazer frete, eu nunca empatei eles de pegar no barco”. (M. 8-07-2004, Altamira, depoimento). O que demonstra que as lideranças estão cientes dos problemas divergentes, entretanto acham que estão no seu direito, uma vez que não existe nenhum tipo de acompanhamento do Raízes no decorrer da aplicação dos recursos na TI e nem um estudo das reais necessidades do grupo para a implantação dos projetos.

Anterior a chegada das novas famílias, ou seja, a construção da “aldeia” já existia uma situação instável politicamente em que Fortunato nunca aceitou a perda da liderança e devido a isso passou a viver exilado na TI. Com a nova configuração da aldeia essas questões voltam à tona, em que os Felix Juruna se vêem questionados não só pelos filhos de Fortunato mais também pelos outros que também querem participar das decisões políticas e assim obter controle sob os recursos que chegam à TI. Isto fica claro no argumento de Agustinho Juruna:

Ele tem que participar para os outros da comunidade e ele não faz. Esse é o desgosto da comunidade. Ele não se comunica. Quando a gente vê o negócio já tá feito, a desunião começa disso aí, mas se ele fizesse tudo direitinho tinha união. O que tá acontecendo? Faz frete no barco, a gente não sabe o que está se passando. O barco foi doado para a comunidade então quando eu vou precisar do barco ele sai. Faz de conta que é dele mesmo (A.50 anos, 15-06-2004, depoimento).

Ainda sobre a liderança de Manuel, uma não- índia assim falou:

Sumiu R$ 1000, o Benigno disse que ia se responsabilizar pelo dinheiro, pagar o que sumiu. Nós quer o casarão de pé que é para botar a farinha. O Benigno não dá nada aqui. Ele engana o Manel. O Manel é um índio abestado por isso a gente tá pedindo um chefe de posto pra cá. (M.31 anos, 11-06-2004, depoimento).

A reivindicação desta moradora esta ligada aos interesses de sua família. Foi observado que os Pereira Juruna corresponde à única família que destina um tempo de suas atividades para

cuidar de suas roças. Os Pereira Juruna é uma família com sete filhos na faixa de seis meses a 11 anos de idade. Deste modo para garantir o sustento da família, principalmente em período de escassez, a roça constitui num recurso fundamental para este grupo familiar. Então, a sua indignação pelo fato do sumiço do dinheiro que seria usado para a construção do casarão de grãos e também pelo fato da casa de farinha está erguida somente pela metade com funcionamento de apenas um forno. Muitos materiais estão se estragando no pátio da “aldeia” e outros já desapareceram.

O que demonstra as limitações do Programa Raízes, que corresponde a uma política pública do governo do Estado que visa promover “[...] a melhoria da qualidade de vida das populações indígenas e quilombolas respeitando seus padrões e valores” (SEDS-SEJU, 2000). Entretanto, o que se visualizou na prática foi um desrespeito as diferentes realidades das populações indígenas, aplicando um projeto que não corresponde ao modo de vida dos Juruna. Além da falta de controle das verbas e garantia da realização do projeto. O que termina por gerar desconfianças e divergências na vida do grupo.