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A reserva constitucional da propriedade sobre a terra

No documento Lições de direitos reais: Timor-Leste (páginas 135-139)

B. PRINCÍPIOS LIGADOS AO LADO EXTERNO DOS DIREITOS REAIS

7. A reserva constitucional da propriedade sobre a terra

7.1. Art. 54º, nº 4, da Constituição

Norma fundamental no ordenamento dominial timorense é a do art. 54º, nº 4, da Constituição segundo o qual “só os cidadãos timorenses têm

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direito à propriedade privada da terra”4.

A Constituição da República de Timor-Leste entrou em vigor, apenas, em 20 de maio de 2002. Porém, tem efeitos retroativos a restrição constitu- cional que veda aos estrangeiros a propriedade da terra?

Qualquer discriminação deverá, no entanto, ser muito restritivamente interpretada, como sempre resultaria do art. 2.°, em especial § 2, da Decla- ração Universal dos Direitos Humanos, recebida no ordenamento jurídico timorense, constituindo, aliás, um padrão de interpretação dos direitos fun- damentais constitucionais, nos termos do art. 23.° da Constituição.

O seu caráter de direito fundamental recomenda que as restrições que lhes sejam impostas por via legislativa obedeçam, pelo menos, aos princí- pios da preservação do conteúdo essencial e da não retroatividade (previstos no art. 24.° da Constituição como limites intransponíveis para as leis restri- tivas de direitos, liberdades e garantias).

A Lei de Nacionalidade de Timor-Leste, promulgada no dia 30 de Ou- tubro de 2002, define quais são os cidadãos timorenses5. Porém, esta lei, como é natural, apenas abrange as pessoas singulares e já não as colectivas.

7.2. As pessoas estrangeiras, singulares ou colectivas

Em face daquele preceito constitucional, poder-se-á concluir que os estrangeiros que adquiram a propriedade perfeita antes do dia 20 de maio de 2002 perdem automaticamente os seus direitos?

Parece que não, porquanto o art. 13.º, nº 1, da Lei n.º 1/2003, de 10 de Março, que fixa regime jurídico dos bens imóveis — I Parte: Titularida- de de bens imóveis, estipula que: “os cidadãos estrangeiros devem, no prazo de um ano a contar da data da entrada em vigor da presente lei, fornecer à DTP todos os dados sobre os bens imóveis de que foram proprietários até 19 de Maio de 2002, para os efeitos que a lei venha a estabelecer” (nº 1) e que “são inexistentes quaisquer actos de disposição de bens imóveis reali-

4 “A questão da exigência da nacionalidade para a titularidade do direito de

propriedade plena vigorava já no território nacional, por aplicação dos artigos 9.º, n.º 1, e 21.º, n.º 1, da Lei Agrária Indonésia, devidamente adaptada à RDTL”, RUI PENHA, Guia cit., pág. 29.

5 “Artigo 3.º da Constituição (Cidadania) 1. Na República Democrática

de Timor-Leste existe cidadania originária e cidadania adquirida. 2. São cidadãos originários de Timor-Leste, desde que tenham nascido em território nacional: a) Os filhos de pai ou mãe nascidos em Timor-Leste; b) Os filhos de pais incógnitos, apátridas ou de nacionalidade desconhecida; c) Os filhos de pai ou mãe estrangeiros que, sendo maiores de dezassete anos, declarem, por si, querer ser timorenses. 3. São cidadãos originários de Timor-Leste, ainda que nascidos em território estrangeiro, os filhos de pai ou mãe timorenses. 4. A aquisição, perda e reaquisição de cidadania, bem como o seu registo e prova, são regulados por lei”.

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zados desde o dia 20 de Maio de 2002 por cidadãos estrangeiros” (n.º 3). A reversão, como dispõe o n.º 2 do art. 13º do mesmo diploma, ape- nas tem lugar no caso da falta de fornecimento de dados sobre os bens imóveis. Entretanto, o prazo de um ano parece que nunca prescreve, já que o Diploma Ministerial n.º 16/2011, de 27 de julho, sobre o Levantamento Cadastral, veio validar as declaração de titularidade recolhidas em processo de levantamento cadastral realizado antes da sua entrada em vigor, incluin- do os nacionais e/ou estrangeiros que nunca prestaram suas declarações de titularidade e apenas submeterem as mesmas desde a reabertura do período de publicações6.

Os artigos 7.º, n.º 1, e 9.º, n.º 1, al. d), da Lei n.º 13/2017 preveem, respectivamente, que “o direito de propriedade sobre os bens imóveis que se encontrem na posse das pessoas referidas no número anterior ou em re- lação aos quais as mesmas pessoas tenham declarado a existência de direitos anteriores ou se arroguem seus titulares, revertem para o Estado, excepto se ocorrer usucapião especial a favor de cidadão nacional” e que “os bens imóveis sobre os quais incidam direitos anteriores primários ou secundários pertencentes a cidadãos estrangeiros, que, nos termos da presente lei, rever-

tam para o Estado respetivamente.”

Os preceitos supra referidos apenas referem a palavra “reversão” e o texto integral da Lei n.º 13/2017 nada prevê sobre o procedimento da re- versão e sobre o direito a indemnização, consagrado no art. 54º, nº 3, da Constituição. Se a via escolhida não for a expropriação, o Estado tem a possibilidade estabelecer uma disciplina especial7.

No que respeita aos estrangeiros singulares, o regime aludido determi- na que os bens imóveis de declarantes estrangeiros titulares de direito ante- rior revertam para o Estado, salvaguardando-se a possibilidade de continuar

6 Artigo 6, nº 1, do Diploma Ministerial n.º 16/2011, de 27 de julho sobre

o Levantamento Cadastral “São válidas as declarações de titularidade recolhidas em processo de levantamento cadastral realizado antes da entrada em vigor deste Diploma Ministerial, desde que seja reaberto o período de publicações para a submissão de novas declarações, com a republicação dos mapas cadastrais e as listas de declarantes, nos termos do Decreto-Lei nº 27/2011”.

7 Se a questão da propriedade pertencente aos estrangeiros não se resolver no

contexto dos primeiros títulos de propriedade (infra), estas propriedades vão continuar num limbo jurídico, impedindo, sua utilização económica e social. Aliás, num documento preparado pelo projeto intitulado Technical Framework for a Transitional Land Law for

East Timor, Document for Discussion Prepared by Strengthening Property Rights in Timor- Leste Project (Ita Nia Rai), USAID/ARD Inc,. de 2008, previa-se a possibilidade de,

através duma lei da terra transitória que regulasse o art. 54º, nº 4, da Constituição, não nacionalizar a propriedade pertencente aos estrangeiros e o pagamento de indemnização pela expropriação pelo Estado. Cf. Ibere LOPES, Technical Framework

for a Transitional Land Law for East Timor, USAID/ARD Strengthening Property Rights in Timor-Leste Ita Nia Rai Project, September 2008, pág. 17.

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a utilizá-los por meio de contrato de arrendamento celebrado com o Estado (art. 7º, nº 3). Relativamente às pessoas colectivas jurídicas nacionais, só as empresas pertencentes na totalidade a nacionais ou cujo capital seja integral e exclusivamente detido por cidadãos nacionais têm direito a comprar e possuir terras (art. 6º, nº 1, alínea b)), o que pode ser visto como um sério constrangimento para o investidor que pretenda adquirir um imóvel através de uma pessoa jurídica, uma vez que não lhe pode ser reconhecido o direito de ser titular de terrenos em Timor-Leste.

A questão que se coloca é a seguinte: será que o tribunal se encontra impedido de julgar ações judiciais de reconhecimento do direito de pro- priedade a um cidadão estrangeiro? Nos termos do artigo 510.º, n.º 1, do CPC, deve entender-se que este não é um pressuposto processual, mas sim uma condição para a procedência da pretensão8.

7.3. As pessoas colectivas religiosas

Do ponto de vista estritamente jurídico-formal, em Timor-Leste não existe um regime específico para a constituição e registo de Pessoas Coleti- vas Religiosas9, pelo que as várias dioceses deverão fazer prova da sua cons- tituição e registo enquanto pessoa coletiva, nos termos do Decreto-Lei n.º 5/2005, de 7 de Setembro, Sobre Pessoas Coletivas Sem Fins Lucrativos.

Quanto à possibilidade de a Igreja Católica, possuidor da maior par- te das terras em Timor-Leste, poder ser titular do direito da propriedade sobre a terra, a Constituição da RDTL é omissa, como também a legisla- ção ordinária10.

No entanto, em 14 de agosto de 2015, foi assinado o Acordo entre a Santa Sé e a República Democrática de Timor-Leste11, que entrou em vigor

8 Rui PENHA, Guia cit., pág. 30.

9 Na Resolução do Governo n.º 16/2015, de 15 de abril, relativa ao terreno

para a Santa Sé, refere-se “… que até ao momento não foi ainda regulamentado por lei o estatuto jurídico das entidades religiosas, através do qual se possam claramente determinar quais as instituições dentro de cada entidade que têm personalidade jurídica autónoma nos termos da lei”.

10 Sobre tal questão, afirmou-se na Resolução do Governo n.º 16/2015 “que

não foi ainda clarificado em legislação ordinária se entidades jurídicas que não pessoas singulares de nacionalidade timorense podem ser titulares do direito de propriedade nos termos do artigo 54º nº 4 da Constituição, e que o Governo está limitado pelos limites jurídicos que a Constituição lhe impõe”.

11 Relativamente à Concordata celebrada entre a Santa Sé e a República

Portuguesa, incluindo o Acordo Missionário que criou a Diocese de Díli, ambos de 7 de Maio 1940, pode entender-se que tais acordos não vinculavam a República Democrática de Timor-Leste.

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em 201612, e no qual se reconhece a personalidade jurídica pública da Igreja Católica e a titularidade dos seus bens imóveis13.

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