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A responsabilidade moral como pressuposto à autorresponsabilidade

5.2 AUTONOMIA E A AUTORRESPONSABILIDADE DA VÍTIMA COMO

5.2.3 A responsabilidade moral como pressuposto à autorresponsabilidade

O Estado liberal se constituiu com a ideia de um contrato social, em que as pessoas lhe dão o poder de garantir os espaços de liberdade social de ação. Um Estado que, atualmente, assume uma perspectiva social e democrática, em que se pretende garantir a proteção da humanidade com o equilíbrio entre a liberdade e a igualdade de participação política das pessoas na sociedade brasileira.

Esse poder, dado ao Estado para garantir os espaços de liberdade gera responsabilidade. Para Hans Jonas, o poder de desencadear um curso causal através da ação não é a única condição de responsabilidade: existe uma responsabilidade como encargo, pois “o poder se torna, assim, objetivamente responsável por aquele que foi confiado”.341 A partir do desenvolvimento do sistema social apoiado na

proposta de Estado democrático de direito, existe uma responsabilidade como encargo, uma obrigação de cuidar do Estado brasileiro em face dos seus cidadãos, responsabilidade que alcança os sistemas de controle e proteção como o sistema jurídico-penal.

Essa responsabilidade possui dois aspectos, como afirma Alexandre Rocha: o positivo se refere ao dever de prover e o negativo que se liga ao dever de proteger. Nesse sentido, o Estado tem a responsabilidade pela proteção através de medidas que ampliem o desenvolvimento da dignidade humana, como políticas educacionais, de saúde, esportivas, laborais, urbanísticas etc.. Bem como tem a responsabilidade pela proteção através de ações que evitem lesão à livre disposição de bens, a proibição de matar, de lesionar, de restringir a liberdade. “É preciso que a eficácia dessas ações seja garantida, isto é, cabe ao cuidador providenciar para que seus atos de provimento e de proteção não sejam frustrados pelas circunstâncias ou atos de terceiros.”342 Se

formalmente se retira parte da liberdade de todos para uma vida social possível, oportunizando a igualdade de participação na coisa pública, a ausência de proteção agrava a liberdade daqueles que necessitam de proteção para alcançar tal igualdade.

341 JONAS op. cit., p. 167.

342 ROCHA, Alexandre Sergio da. Ação Humana e Responsabilidade (1º volume da trilogia A Responsabilidade como Humanismo) Original ainda não publicado, p. 204.

167 O problema, nesse âmbito, se orienta pelo nível do cuidado devido. A responsabilidade pelo encargo alcança a necessidade de proteção do caráter essencial do ser: a manutenção da vida. Para proteção da autonomia e da liberdade, é necessário que se garanta a vida das pessoas. Em um viés positivo, são necessárias ações que orientem a produção de uma vida digna, em um viés negativo, devem ser tomadas ações para preservação da vida: “que o ‘sobre’ se torne ‘para’ constitui a essência da responsabilidade.”343 A questão, como analisa Alexandre Rocha, é que o

‘para’ deve ser interpretado como ‘em benefício de’ e, na prática, essa questão acaba por se reverter em determinar-se quem tem a autoridade para dizer o que seja o ‘benefício’.344

O problema, nesse sentido, considerando a relação entre a sociedade, o Estado e a pessoa é que com a atribuição do poder que gera a responsabilidade pelo encargo que resulta no dever de cuidar, muda-se o âmbito de abordagem: o indivíduo solipsista decide sobre a necessidade de proteção ao seu bem; a pessoa social pode decidir sobre a mesma disposição.

O poder pessoal de decisão é um pressuposto à responsabilidade pessoal que, nesse caso, pode seguir ou não o mesmo sentido do poder de decidir que resulta na responsabilidade do Estado pela proteção de bens. No âmbito jurídico-penal, apesar do caráter público de sua forma de controle, a responsabilidade pela proteção de bens não pode se estabelecer a qualquer custo, especialmente sancionando as pessoas que tentaram ou praticaram autolesões: é o que Andrew von Hirsch chama de paternalismo direto. No entanto, a complexidade está no paternalismo indireto, em que se pune aqueles que ajudam os outros, intencionalmente, a se lesionar.345

A secularização do direito penal, com a substituição do poder divino pela razão, que acompanhou a busca pela fundamentação racional da imposição da pena sobre o indivíduo violador de um bem jurídico, forma caminhos para limitar a punição a

343 JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto – Editora PUC, 2006, p. 168.

344 ROCHA, Alexandre Sergio da. Poder e.Liberdade (2º volume da trilogia A Responsabilidade como Humanismo) Original ainda não publicado, p. 257.

345 HIRSCH, Andrew von. Paternalismo direto: autolesões devem ser punidas penalmente? IN: Revista Brasileira de Ciências Criminais. Julho-Agosto de 2007. Ano 15. Nº 67. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. P. 12.

168 qualquer custo, ou a proteção estatal do bem contra a vontade do indivíduo. Não é cabível se valer da fundamentação religiosa para justificar proibições penais que imponham ao indivíduo o dever de permanecer vivo.

John Stuart Mill, a partir de uma ética utilitarista, criticando intervenções paternalistas, formulou como base à limitação do cuidado contra a vontade do indivíduo o princípio da ofensa (harm principle), em que o dano causado a uma outrem é o fundamento para criminalização346. Feinberg considera que intervenções paternalistas ferem a

autonomia do agente347. Andrew von Hirsch, partindo da ideia de autodeterminação,

afirma que “o Estado não deve empregar sua violência coativa para impedir que um indivíduo pratique autolesões.”348

É possível um paternalismo penal duro no âmbito do paternalismo indireto, como defende Schünemann349. Ou seja, a utilização da pena como sanção a quem auxilia

a autolesão, como ocorre no Brasil, no caso da proibição penal da participação dolosa em suicídio. O autor, no entanto, acredita que quando o dano social só puder ser causado com um comportamento do portador do bem, então não é o autor que deve ser punido, mas a vítima que deve ser contramotivada, sendo-lhe negada a proteção penal350.

É a responsabilidade que fundamenta a existência de um espaço de proteção a ser garantido por cada pessoa, pois ela, a responsabilidade, é a consequência da existência social e individual de cada ser humano. É a relação próxima que se estabelece entre a conduta humana e os efeitos externos, que podem afetar a si mesmos ou ao próximo.

346 MILL, John Stuart. A Liberdade Utilitarismo. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

347 SCHUNEMANN, Bernd. A Crítica ao Paternalismo Jurídico-Penal: Um trabalho de Sísifo? IN: SCHÜNEMANN, Bernd. Estudos de Direito Penal, Direito Processual Penal e Filosofia do Direito. Coordenador: Luís Greco. São Paulo: Marcial Pons, 2013. P.91

348 HIRSCH, Andrew von. Op Cit., 2007. P. 14. 349 SCHUNEMANN, Op Cit., 2013. P. 109.

350 SCHUNEMANN, Bernd. A Posição da Vítima no Sistema de Justiça penal: Um modelo em três colunas. IN: SCHÜNEMANN, Bernd. Estudos de Direito Penal, Direito Processual Penal e Filosofia do Direito. Coordenador: Luís Greco. São Paulo: Marcial Pons, 2013. P. 117.

169 O requisito mínimo dessa responsabilidade é o desencadeamento de um curso causal entre a ação, manifestação objetiva da personalidade, e o resultado enquanto exteriorização da ação e suas consequências por uma pessoa imputável, e o limite máximo é o âmbito de organização normativamente estabelecido como padrão à compreensão sistêmica da autorresponsabilidade inerente à cada pessoa. Nesse sentido, a vítima é a responsável pelo resultado lesivo que decorre da compreensão jurídico-penal dos efeitos de sua ação.

O instituto jurídico-penal que tradicionalmente tem na ação do ator lesado, enquanto a manifestação de sua vontade, um elemento capaz de orientar a frustração do injusto é o consentimento do ofendido. O consentimento considera tomar a descrição subjetiva da vontade, o querer e o desejo do portador do bem lesado, como expressão da autonomia que fornece o fundamento que demonstra a prevalência dos interesses do indivíduo em face ao programa penal de proteção a bens.

O consentimento do ofendido é o instituto jurídico-penal que insere a autonomia como critério capaz de orientar a descaracterização do fato punível. Trata-se do instituto jurídico-penal que produz a abertura dos espaços públicos de proibição ao respeito à autonomia, conduzindo ao recuo do âmbito de tutela penal, desagravando espaços de liberdade de ação em respeito à vontade do ofendido.

5.3 A INSUFICIÊNCIA DO CONSENTIMENTO DO OFENDIDO NOS CASOS DE