Gilson Leandro Queluz
A REVISTA ESTUDIOS
Como já observamos, a Revista Estudios pode ser analisada como ligada ao campo do anarco-individualismo. Normalmente considerado como um componente a mais do anarquismo, Navarro (1997b, p. 17) afirma que “se considera o individualismo como uma atitude crítica a respeito dos processos de alienação da sociedade industrial” e como a expressão do conflito entre sociedade e indivíduo (DIEZ, 2007). A ideia de soberania individual (sem excluir a necessidade de construí-la no conjunto da sociedade) se faz presente no pensamento anarquista, e Diez (2007, p. 188) a apresenta como o primeiro e mais poderoso princípio dos anarquistas individualistas: “el derecho al placer, a la búsqueda de la felicidad sin más limites que los que el propio individuo quiera imponerse a sí mismo”. Sendo assim, o individualista deve combater todos os fatores que representam obstáculos à sua busca pela felicidade e liberdade:
La lucha o el esfuerzo dedicado para conseguir estos objetivos que tradicionalmente para los movimientos revolucionarios es externa, contra enemigos claramente definidos – el Estado, el capitalismo, la burguesía, la Iglesia... – y colectiva – acciones comunes, movilizaciones masivas, huelgas... –, adquirirá una nueva dimensión interna e individual. Los obstáculos están siempre fuera y dentro, en las instituciones hostiles a la libertad y al bienestar material de la mayoría, pero también en los prejuicios asumidos, consciente e inconscientemente, por cada uno. Y no será nunca la acción colectiva la que permitirá conseguir el cambio de mentalidad necesario para disfrutar plenamente de la existencia (DIEZ, 2007, p. 188-189).
A fim de construir uma nova cultura e uma nova moral para a sociedade, os anarquistas individualistas se organizavam em grupos de afinidade e também apostavam na imprensa como um importante meio educativo para a edificação da nova sociedade, apesar das dificuldades de publicação. Para tanto, temas como amor livre, autodidatismo e a necessidade da educação individual, anacionalismo8, antimilitarismo, naturismo e difusão
de conhecimentos científicos acerca do corpo e da sexualidade são bastante recorrentes nas publicações dos individualistas. Essa preocupação com a difusão do conhecimento da imprensa ácrata vai ao encontro dos princípios básicos da ideologia anarquista, que concedia à ciência o papel de instrumento de transformação social e ideológica (NAVARRO NAVARRO, 1997a).
A revista valenciana de ciência e cultura Estudios (1928-1937) – que de 1923 a 1928 foi editada sob o nome Generación Consciente – foi um importante instrumento de difusão dos ideais libertários à geração anterior à guerra civil espanhola. Durante a ditadura de Primo de Rivera (1923-1930) foi possível apenas um “ativismo mais cultural” (DIEZ, 2007, p. 95). Nesse período, o anarquismo “mais filosófico, mais ideológico, e a corrente mais individualista voltam a fazerem-se visíveis” (DIEZ, 2007, p. 96), permitindo que se construíssem as bases para que na década de 1930, durante a Segunda República, o ambiente espanhol possibilitasse a concretização do sonho revolucionário. Seu caráter educativo, amplo, eclético e aberto contribuiu para sua grande difusão.
[...] arma de luta ofensiva e defensiva, plataforma de informação direta e alternativa ao sistema, via de difusão das teorias ácratas e de captação de simpatizantes, etc. Mas funcionava ademais como veículo educativo e ferramenta de excepcional utilidade para elevar o conhecimento da classe operária (NAVARRO NAVARRO, 1997b, p. 18). Sua linha editorial constituiu-se por três eixos básicos, apontados por Navarro Navarro (1997b):
a) a cultura, em uma acepção ampla como, revolucionária e emancipadora, no sentido de “construcción de códigos y referentes propios, generadores de un significado específico e integrador de todos aquellos que permanecen voluntaria o involuntariamente excluidos del sistema económico-social dominante” (DIEZ, 2007, p. 137);
b) o autodidatismo, “como manera de conseguir conocimientos, no únicamente como compensación e una deficiente formación académica, sino como estrategia emancipadora de conquista del propio yo, mediante la adquisición de cultura” (DIEZ, 2007, p. 137);
c) o ecletismo, “que indica no únicamente las bases heterogéneas del discurso y la diversidad de temáticas a tratar, sino un espíritu abierto, no dogmático, con la intención de ejercer de plataforma de debate, antes que de púlpito” (DIEZ, 2007, p. 137).
A Revista Estudios foi, também, um local privilegiado do encontro do pensamento anarco-individualista internacional. O desafio de constituição de uma abordagem transnacional para a compreensão do anarquismo foi mais intenso no anarco-individualismo, pois sua característica internacionalista assumiu maior intensidade, tendo em vista seu objetivo de eliminar “as barreiras nacionais e culturais” e de criar “uma comunidade de indivíduos livres e afins, mais além de toda fronteira política” (DIEZ, 2007, p. 291). Este compartilhamento se expressou significativamente, no caso brasileiro, na participação em revistas com colaboradores internacionais, como a Revista Estudios, em torno das quais orbitavam pensadores libertários de discursos próximos, ou ainda na participação em associações internacionalistas9. É
importante ressaltar o caráter internacionalista da publicação, no diálogo com contribuições de outras partes do mundo, principalmente como um “veículo de penetração das ideias provenientes do individualismo francês” (NAVARRO NAVARRO, 1997b, p. 135), naquele momento preocupado com as temáticas do neomalthusianismo e eugenia.
Dessa forma, sucedem-se textos de espanhóis (como: Isaac Puente e Abad Santillan), franceses (como: Han Ryner e Emile Armand), mexicanos (como: Alfonso Herrera), argentinos (como: Dr. Juan Lazarte) e brasileiros (como: Maria Lacerda de Moura). Lacerda de Moura (1933c, p. 25) exaltou a Revista Estudios como o “pavilhão do pensamento livre”, como fórum “de las juventudes y receptáculo de todas las campañas generosas y elevadas, que propenden a salvaguardar toda la impoluta belleza de la libertad humana”.
Os temas relacionados à sexualidade eram centrais na revista, principalmente numa perspectiva neomalthusiana e eugênica, teorias que foram reapropriadas pelos libertários, com vistas à libertação da dominação capitalista e patriarcal, juntamente à construção de uma nova moral sexual que se contrapusesse à
dupla moral sexual burguesa. A presença dessas teorias na revista tinha um duplo objetivo manifesto: reduzir a natalidade operária e aumentar a qualidade dos nascimentos (eugenia) (NAVARRO NAVARRO, 1997a).
Enquanto a burguesia, a igreja e o estado utilizavam a Teoria de Malthus para justificar a desigualdade, os libertários a utilizavam para demonstrar a importância do controle populacional, visto que a miséria, decorrente da falta de recursos, não acarretaria a luta política. Quanto às teorias eugênicas, as teses evolucionistas e o darwinismo social contribuíram, hegemonicamente, para medidas repressivas por parte dos setores dominantes, ao conceberem o processo de seleção natural em um instrumento racional, com vistas ao melhoramento da raça, a partir de padrões estabelecidos pelas classes dominantes do que seriam as raças superiores. Nesse sentido, buscava-se, através do desenvolvimento tecnológico e científico, o desenvolvimento de medidas higienistas e sanitárias a fim de buscar um aperfeiçoamento da humanidade. Para os libertários – que apostavam na saúde como arma revolucionária e na educação como caminho para o conhecimento e para o aperfeiçoamento moral e ético – o capitalismo era um impeditivo ao aperfeiçoamento da humanidade: “desde una óptica anarquista, el principal elemento disgênico es la miséria. Y el capitalismo es el sistema que la genera. Por tanto, si hay que esterilizar algo, esto es el sistema de explotación económica” (DIEZ, 2007, p. 248).
Desde a fase anterior da revista, enquanto Generación Consciente, havia certa obsessão pela regeneração física e espiritual das classes populares, com o claro objetivo do desenvolvimento harmônico dos indivíduos, aliado a uma filosofia de reencontro com a natureza e de ecologia humana (MASJUAN, 2002; NAVARRO NAVARRO, 1997a). Havia nisso a compreensão de que o objetivo do anarquismo ia para além das possibilidades da luta sindical, numa missão muito mais ampla. A junção desses elementos, portanto – neomalthusianismo, eugenia, maternidade consciente, aperfeiçoamento moral e ético, bem como a crítica da revolução violenta –, auxiliam-nos a compreender a concepção de revolução presente nas publicações da revista: “una revolución permanente, basada en la auto superación constante. Es decir, es el suyo un concepto de revolución dinámica, de auto perfeccionamiento sin pausa” (DIEZ, 2007, p. 161). A respeito da publicação Generación consciente, Rafaelli (2009, p. 4) aponta que ela demonstraria:
[...] el grado de importancia que tenían, para los neomalthusianos anarquistas, la resistencia y la lucha desde el ámbito de lo cotidiano; y es que Generación Consciente es hija de la idea que entiende a la revolución no estrictamente en clave sindical sino abarcando en la práctica todos los aspectos de la vida.
Compreendendo que a reprodução humana apresenta aspectos físicos e morais que configuram a sociedade de dominação, os libertários apostavam na procriação consciente e limitada aliada a uma nova moral sexual como requisito fundamental para uma verdadeira revolução integral.
A obsessão da sociedade moderna com a ciência, com a precisão, e consequentemente com a disciplina e a educação, impôs à classe trabalhadora um ideal de família criado pelo imaginário burguês, a fim de “instituir hábitos moralizados, costumes regrados, em contraposição às práticas populares promíscuas e anti-higiênicas observadas no interior da habitação operária, na lógica do poder” (RAGO, 1985, p. 61). Essa reconfiguração familiar promoveu “um novo modelo de feminilidade” baseado na figura da “esposa-dona-de- casa-mãe-de-família”, além de uma “preocupação especial com a infância” (RAGO, 1985, p. 62), de modo que às mulheres cabia o cuidado com a vida cotidiana de cada membro da família e a recém-construída preocupação com a criança seria o meio pelo qual os cuidados médicos (e, portanto, seu poder) passavam a controlar a vida familiar.
Os discursos médicos, relacionados ao mito do amor materno, contribuíram para a construção de um ideário de nova mãe, fundamental no nascimento da família nuclear moderna. Passando a ser considerada a rainha do lar, à mulher caberia a enorme responsabilidade moral da educação dos filhos (RAGO, 1985). Para os libertários, no entanto, a maternidade como é colocada na sociedade burguesa, enquanto responsabilidade e obrigação feminina devido à condição biológica, escraviza as mulheres e impossibilita seu livre desenvolvimento.
[...] es a través de este medio que se lograría el cometido del neomalthusiano anarquista: la regeneración de la humanidad. La mujer se erige, de esta manera, como una redentora social al ser la poseedora y hacedora de la herramienta clave para el cambio. […] ¿Pero porqué la maternidad consciente permitiría la regeneración de la humanidad? La clave está en que echaba por tierra todos los preceptos que sostenían la concepción de la maternidad en la mentalidad burguesa, especialmente la idea de la maternidad como misión, como fin último y necesario de la mujer y como concepto inseparable de la sexualidad concebida desde la reproducción (RAFAELLI, 2009, p. 14).
No âmbito da moralidade, a procriação consciente e limitada também servia à defesa do pacifismo e do antimilitarismo. Após a Primeira Guerra Mundial, os libertários neomalthusianos “reforzaron sus argumentos ante la sociedad con la recomendación de no producir más carne de cañón obrera” (GIORNI apud MASJUAN, 2002, p. 85). Apontando o neomalthusianismo como “uma teoria sociológica de resistência al capitalismo”, Masjuan (2002, p. 80, grifo do autor) ainda afirma que “la propaganda antimilitarista de los neomalthusianos rechazó las causas biológicas que los nacionalismos atribuían a la guerra como una de las vertientes de lucha por la vida, la famosa búsqueda de espacio vital”.
A maternidade para os neomalthusianos não servia para a fabricação de filhos, tal como na sociedade capitalista, mas para enriquecer a coletividade (RAFAELLI, 2009). Sendo assim, era necessário que a nova moral sexual possibilitasse “otro tipo de relaciones humanas, basadas en uniones libres” (RAFAELLI, 2009, p. 19).