5 O CENÁRIO DE DESIGUALDADE, CONFLITUOSIDADE, E INSTABILIDADE
5.1 A Simbólica e persistente desigualdade econômica
A desigualdade econômica é um elemento tão presente num mundo repleto de tantas misérias e ao mesmo tão revelador e simbólico das disputas e conflitos que adoecem o mundo e o homem, que se opta por não incluí-la entre as heranças sociopolíticas nacionais, apesar de estar presente e exercer influência na formação da sociedade brasileira.
A desigualdade econômica no Brasil não é um valor cultural ou elemento comportamental que serve para identificar traços e características sociopolíticas, mas é uma espécie de simultânea causa e consequência que orienta as ações e está presente na motivação camuflada de atitudes e decisões tomadas no âmbito da sociedade brasileira contemporânea. Sua persistência em toda história da sociedade brasileira é uma marca indelével que pode muito bem explicar a hierarquia social no Brasil, assim como também pode explicar boa parte do que está em jogo na deflagrada disputa política que, neste momento, parece estar mais aflorada do que nunca, apesar das narrativas diversionistas.
Seria natural antever que, diante de tantas ações voltadas a reparar anos de desigualdades e injustiças sociais promovidas nos últimos anos, a diminuição da desigualdade econômica do Brasil já poderia estar sendo detectada. No entanto, isso não ocorre. Mas, antes de demonstrar estudos que revelam a estabilidade da desigualdade econômica no Brasil, é importante compreender a sua evolução histórica.
Apesar das evidências de profunda desigualdade econômica já no período colonial, que apresentava um quadro socioeconômico no século XVIII no qual 10% da população obtinha 2/3 da riqueza produzida (CAMPOS, 2004), parece mais razoável utilizar o marco histórico relacionado ao fim do estatuto colonial, momento em que a riqueza produzida deixou de ser expropriada pela metrópole (FERNANDES, 1976), como verdadeiro marco inicial em que a riqueza passa a ser disputada pela sociedade nacional emergente. Mesmo porque não houve significativa alteração no padrão de concentração de riqueza em razão da manutenção de muitos aspectos sociais, econômicos e políticos que estavam presentes no período colonial. Contudo, não se pode desprezar que esse poder econômico concentrado na era colonial, ao ser transposto para a sociedade nacional, exerceria influência nas relações que se estabeleceriam dentro dos novos arranjos de poder.
Também pode ser dito que dentro dos diferentes ciclos econômicos nacionais perpetuou- se o mesmo padrão distributivo de renda e riqueza no país. Somente dentro do ciclo econômico classificado como urbanista-industrial é que pode ser identificada uma significativa alteração.
Essa mudança ocorre principalmente a partir da “Era Vargas”, na qual, conforme já suscitado neste trabalho, há a criação de diversos direitos sociais que acabam por estancar o processo de concentração de renda e riqueza. Atrelado à criação de importantes direitos sociais houve significativa participação de representantes da sociedade civil organizada como sindicatos, partidos políticos e movimentos estudantis que serviram de instrumento de luta pela igualdade social e econômica. Ocorre que, a partir da década de 60, especialmente pela política econômica adotada pelo regime militar de estímulo econômico, sem paralela política de desenvolvimento social, iniciou-se a retomada da desigualdade social até praticamente o final do século passado (POCHEMANN, 2015).
A partir da redemocratização uma nova articulação de políticas públicas retoma os investimentos voltados para atender demandas sociais estocadas nos períodos de alta concentração de poder, no entanto, incapazes de suprir um imenso passivo construído ao longo do tempo. É claro que outros elementos externos contribuíram para o aumento da desigualdade econômica, especialmente a prevalência do neoliberalismo como política econômica hegemônica que acabou exercendo influência na sociedade brasileira nos anos 90 ao reprimir o Estado de bem-estar social que aqui recém se inaugurava.
No final do século XX, a desigualdade econômica era tão alta que produzia um quadro de concentração de riqueza em que “apenas 10% dos brasileiros concentrava 4/5 da riqueza do país” (POCHMANN, 2015, p. 108).
Já no início do presente século, importante estudo desenvolvido pelos pesquisadores brasileiros Marcelo Medeiros, Pedro H.G.F. Souza e Fabio Avila de Castro, intitulado “A estabilidade da desigualdade de renda no Brasil, 2006 – 2012” (2015), trabalho que foi inovador no país ao combinar dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com as declarações de ajuste anual do imposto de renda da pessoa física (DIRPF) de 2006, 2009 e 2012 da Receita Federal do Brasil (RFB), foi concluído que
A desigualdade de renda no Brasil é muito alta e estável entre 2006 e 2012. Quando se combina a PNAD à DIRPF, quase metade de toda a renda no país está concentrada nos 5% mais ricos e um quarto no 1% mais rico. O milésimo mais rico acumula mais renda que toda a metade mais pobre da população. Isso reflete um perfil que já é bem conhecido: o Brasil é marcado por uma grande massa de população de baixa renda que se distingue de uma pequena, porém muito rica elite” (MEDEIROS; SOUZA; CASTRO, p. 982, 2015).
Outro dado importante que pode ser encontrado neste estudo diz respeito aos coeficientes de Gini43 de 2006, 2009 e 2012 que foram calculados, respectivamente, 0,696, 0.698 e 0.690 e refletem um pequeno aumento seguido de queda (MEDEIROS; SOUZA; CASTRO, 2015)
A pesquisa também revela que os 5% mais rico tinham uma renda de 50,9 mil reais por ano, em 2006, mas que em 2012 passou para 71,1 mil reais por ano. Já a metade mais pobre, que tinha uma renda anual, em 2006, de cerca de 7,2 mil reais, passou a ter uma renda anual, em 2012, de aproximadamente 9,7 mil reais. Em resumo, houve um considerável aumento de renda, mas a apropriação desse crescimento foi muito desigual.
O extrato desse conjunto de dados revela que, mesmo com o crescimento econômico no ocorrido no Brasil nos últimos anos, com a estabilidade da economia, com o aumento das políticas públicas que transferiram renda e aportaram volumosos investimentos sociais em projetos precursores na vida nacional, a desigualdade de renda manteve-se estável. Sinal de que a deformidade socioeconômica ainda é brutal.
O mais importante sobre a desigualdade econômica no Brasil, estabilizada ou não, é que ela é produto do patrimonialismo, do autoritarismo, da preponderância das instituições extrativistas, da história escravagista e de todo o culturalismo criticado por Jessé Souza, que congrega todas essas características como inerentes ao processo dominante orientado pelas poderosas elites. Tudo isso está relacionado à intencionalidade da manutenção de uma lógica em que aprofunda a desigualdade econômica no Brasil e enseja a concentração de poder que, consequentemente, ínsita a instabilidade democrática e a sua própria expropriação.
Por conseguinte, a desigualdade econômica e as heranças sociopolíticas já arroladas no presente estudo possuem algo em comum: todas são, ao mesmo tempo, reproduções fenomênicas do poder concentrado e fontes desse mesmo poder que se recicla em sua aparência e vitaliciedade. Outrossim, toda a história de formação da sociedade brasileira, em que há o constante predomínio de um poder concentrado, seja pela metrópole portuguesa na era colonial, seja pela sociedade rural e a burguesia emergente que se organizou após o fim do estatuto colonial ou pela oligarquia política que passa a representar todas essas categorias elitistas, incluindo a classe empresarial que auferiu fabulosa riqueza com a industrialização do país, projetou o acúmulo de deformidades sociopolíticas como a desigualdade econômica.
43 O “Índice Gini” permite definir o grau de desigualdade na distribuição dos rendimentos, variando do mínimo de 0 para a situação de igualdad e perfeita para o máximo de 1 que apontaria para uma desigualdade de caráter extremo.
Talvez essa constatação facilite a compreensão do Estado de bem-estar social tardio e a imutabilidade da ordem arrecadatória estatal que também reproduz assimetrias através de uma estrutura tributária que permanece regressiva e injusta ao sacrificar a população pobre que, proporcionalmente, paga mais impostos que os integrantes das classes mais privilegiadas (POCHMANN, 2015).
A desigualdade econômica que o Brasil revela é a prova cabal de que existe uma minoria que pode ser identificada como representantes das elites repletas de privilégios, atuando dentro do Estado democrático de direito brasileiro, impondo suas diretrizes para perpetuar sua dominação e capacidade de concentrar riqueza que fomenta a alarmante estratificação social no país. Este parece ser um comportamento global decorrente da prospecção sistêmica do capitalismo, pois conforme Thomas Piketty (2014), a concentração de riqueza e a hierarquia social também fazem parte da realidade socioeconômica dos países desenvolvidos.
Por isso, mesmo sendo razoável atribuir a história do país principalmente a 3 séculos de escravidão, toda a formação e evolução da desigualdade econômica do Brasil, não é crível que em pleno século XXI o processo de repartição de riqueza de uma das maiores economias do mundo ainda seja um processo atravessado por artimanhas e negociatas espúrias arquitetadas por uma minoria travestida de conservadora e meritocrática.
5.2 A Polarização que desnuda as heranças sociopolíticas, os conflitos de classe e a