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2.1 A DEMOCRATIZAÇÃO DO ESTADO RUMO AOS DIREITOS

2.1.2. A sociedade e o Estado: dimensões e dilemas

Em sua análise sobre o indivíduo, sociedade e Estado, Morin (2007, p.167) nos passa a ideia de que supõem a complexidade. Coloca o autor ainda, que as sociedades se formam a partir de indivíduos complexos e também retroagem sobre os mesmos, fornecendo-lhes a sua cultura. Isto significa dizer que os indivíduos estão presentes em relações sociais, cuja emergência repercute em organização, demandas diante do Estado. Devido a esta singularidade a investigação em ciências sociais pode tentar amparar-se ou restituir as experiências dos indivíduos.

Por sua vez, o Estado surge no âmbito das sociedades históricas que acabaram metamorfoseando-se em sociedades modernas. Parafraseando Morin (2007, p 177) num paradoxal contexto histórico de nações modernas, “o Estado faz-se presente, e seu paradoxo é ser ao mesmo tempo bárbaro e civilizador, emancipador e escravizador”. Essa mesma dialética ou tais paradoxos são apontados por Ianni (2008) ao refletir sobre as mudanças em curso envolvendo tanto os nexos entre sociedade civil e Estado, quanto um conjunto de outros desdobramentos.

Aos poucos, ou de repente, o mundo se torna grande e pequeno, homogêneo e plural, articulado e multiplicado. Simultaneamente à globalização, dispersam-se os pontos de referência, dando a impressão de que se deslocam, flutuam, perdem. Mesmo os centros decisórios mundiais mais fortes nem sempre se afirmam absolutos, inquestionáveis. Podem ser levados a omitir-se, declinam, devido ao jogo das forças que operam em escala mundial. As relações, os processos e as estruturas de dominação e apropriação, integração e antagonismo, frequentemente dissolvem fronteiras, locais de mando e referências. A verdade é que declina o Estado-nação, mesmo o metropolitano, dispersando-se os centros decisórios por diferentes lugares, empresas,

corporações, conglomerados, organizações e agências transnacionais. Globalizam-se perspectivas e dilemas sociais, políticos, econômicos e culturais”[ (IANNI, 2008, p. 91).

O Estado, nesse viés, num primeiro momento é pungido a reconhecer direitos de cidadania e, neste processo, emancipa aos indivíduos atribuindo a estes os direitos então disponibilizados; e, num outro momento, esses mesmo direitos tornam-se de difícil acesso pela própria inércia dos mecanismos de Estado. Nesse sentido, contraditoriamente à instituição judiciária, que fica presa a regras e burocracias, atribui aos indivíduos os direitos a ter direitos, previstos na Constituição, porquanto ao mesmo tempo consolida mecanismo obstinado por retardar a universalização da cidadania.

Algumas transformações da sociedade estão ocorrendo devido à mudança tecnológica, inclusive alguns conceitos de ordem política, social e cultural. Da mesma forma, emergem mecanismos novos, visando às práticas de negociação diante da recorrência de conflitos insolúveis no cotidiano. Todavia, são múltiplos os aspectos que se conectam com inovações e mudanças, com fluxos e refluxos, como novos territórios e fronteiras, onde tudo se relaciona e tudo se movimenta.

A desterritorialização manifesta-se tanto na esfera da economia como na da política e da cultura. Todos os níveis da vida social, em alguma medida, são alcançados pelo deslocamento ou dissolução de fronteiras, raízes, centros decisórios, pontos de referência. As relações, os processos e as estruturas globais fazem com que tudo se movimente em direções conhecidas e desconhecidas, conexas e contraditórias. (IANNI, 2008, p. 95).

A sociedade brasileira, na dimensão nacional ou local, passa por conflitos entre as mais variadas formas sociais, como a família, consumo, religião, escola, trabalho, política e ferramentas de informação. Essas estruturas são dinâmicas e estão, portanto, em constante mudanças. Nas ciências sociais, compreende-se que é da natureza do próprio indivíduo esartabelecer relações com os demais por meio de formas associativas e, ao mesmo tempo, entrar em conflito em determinadas circunstâncias.

No entanto, a base da reflexão sobre a democracia também pode tomar para si a crítica ao tema da ideologia, especialmente na medida em que exista a possibilidade de postular um sujeito social do ponto de vista do direito como uma entidade estável, transparente e indivisível. Em sentido mais intenso pode-se afirmar que a democracia radical envolve a desconstrução recíproca da oposição entre o sujeito e o objeto de representação política. Todavia, a questão apresenta a sua complexidade, como segue:

Há três áreas-chave nas quais os teóricos da democracia radical muito marcadamente se diferenciam. A primeira refere-se ao objetivo da argumentação democrática. Como acima dito, para os teóricos deliberativos, o objetivo é a busca de um consenso racional. Isto marca um forte contraste com os democratas radicais da tradição pós-estruturalista que estão preocupados com o potencial conflituoso e deslocatório da democracia. Segundo, enquanto as concepções deliberativas da democracia partem de um modelo de diálogo sem constrangimento, desprovido

do poder e das ‘distorções’, os pós-estruturalistas argumentam que as relações de poder são intrínsecas às suas abordagens acerca da democracia. Finalmente, em contraste com o projeto habermasiano, os pós-estruturalistas não pretendem especificar pré-condições normativas e fundações para o discurso democrático (NORVAL, apud MENDONÇA, 2010, p. 111)

A democracia constitui-se tanto numa vertente de regime de representação vinculada à política, quanto a uma perspectiva na qual essa exerce nas práticas sociais e vem como uma forma de vislumbrar opções através de um processo deliberativo. Todavia, isto não impede um mal-estar diante da democracia.

Lendo e relendo Bauman (2004) verifica-se que o mesmo mostra a modernidade em dois períodos ou duas óticas: a Sólida e a Líquida. A modernidade sólida tem início com as transformações com o advento de um conjunto estável de valores e modos de vida cultural e político. A líquida, ou volátil, na qual as relações sociais não são mais tangíveis e a vida em grupo - familiar, casais, amigos, sociedade e perdem seguranças e estabilidades. Conforme avançavam mecanismos de satisfação sem superar o horizonte de numa sociedade insatisfeita “o esgotamento da modernidade transforma-se com rapidez em sentimento angustiante do sem- sentido” (Touraine, 2002, p. 101). Neste interim, as principais características são o desapego, a provisoriedade e o acelerado processo de individualização9. Um tempo que, ao mesmo tempo gera a liberdade e a insegurança. E discorre sobre

os mal-estares presentes na vida dos sujeitos modernos e pós-modernos. Enquanto na Modernidade havia uma busca pela segurança com um consequente sacrifício das liberdades individuais, na Pós-modernidade o que se percebe é o reino soberano da liberdade individual. Tal liberdade deve ser alcançada pelo esforço próprio, tornando- se a referência das normas supraindividuais e a base pela qual todos os outros valores são avaliados. De acordo com o autor, trocamos a monotonia pela insegurança: “se obscuros e monótonos dias assombravam os que procuravam segurança, noites insones são a desgraça dos livres” (BAUMAN, 2004, p. 10).

E, para finalizar, parafraseando Heller que afirma que o desenvolvimento do indivíduo é, antes de mais nada, função de suas possibilidades de liberdade, pois ninguém é igual a ninguém; ou seja, se é diferente um do outro, se tem diferente personalidade, pensamentos e ideias entre o individual e coletivo, como inter-relacionados. O fato de se nascer lançado na cotidianidade continua significando que os indivíduos assumem como dadas as funções da vida cotidiana e as exercem paralelamente. Heller compreende os afazeres do cotidiano como uma singularidade e

oportunidades de vida iguais para todos, liberdade igual para todos, a ideia reguladora do melhor mundo sociopolítico possível, também podem ser concebidos como um objetivo... ainda assim, esse objetivo é um meio. O objetivo do melhor mundo sociopolítico possível merece ser buscado porque é a condição da possibilidade da vida boa para todos. O único objetivo que não

7. O processo de individualização em curso, no qual o individualismo possessivo do consumidor se sobrepõe à individualidade como realização da liberdade, e o mercado, a concorrência e a acumulação são figuras preponderantes (NOGUEIRA, 2004), a apreciação dos serviços públicos pode ampliar o distanciamento da prática política, das lutas pela cidadania.

é apenas um meio é a vida boa para todos. O objetivo da justiça está além da justiça. (HELLER, 1998, p. 436-437).

A ética, como motivação (moral), é algo individual, mas não particular; é individual no sentido de ter, uma maior liberdade de escolha adotada por nós diante da vida, da sociedade e dos outros indivíduos em particular.

Quando o Estado não consegue mais dar conta de suas atribuições nem garantir o mínimo possível de enfrentamento do atrito, os movimentos inerentes às relações sociais aspiram outras soluções. Para tanto, a sociedade atual requer um novo modelo de tratamento de conflitos em frente à crescente ineficiência da jurisdição estatal. A função jurisdicional não mais oferece respostas às demandas de uma sociedade complexa, passando, assim, a figurar dentro de uma lógica de construção ordinária de uma esfera de confiança social.

Diante dessa crise, instauram-se iniciativas para identificar outras formas de tratamento dos conflitos, refazendo caminhos ou desenhando novos paradigmas. Nesse aspecto, apresenta- se a participação para esboçar articulações visando à costura de um acordo ou uma resposta construída pelos atores envolvidos nos embates travados em relações sociais. Em contraponto aos procedimentos na esfera da justiça tradicional, contenciosa, estritamente jurisdicional, saturada, onerosa e tardia (Abreu, 2008, 26-27), os juizados especiais têm sido postos para as questões de acesso à justiça, pela adoção de medidas condizentes: rapidez, simplicidade, informalidade, baixo custo, universalidade e celeridade.

Desta forma, por serem os meios alternativos de resoluções de conflitos mecanismos mais rápidos, de processos mais céleres e de baixo valor pecuniário, fazem esses automaticamente a devida efetivação daquele que é dito o mais importante dos direitos fundamentais, que é o acesso à justiça, abrindo o caminho à efetivação de todos os outros direitos, realizando, assim, a democratização do Estado.

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