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A sucessão do companheiro nas Leis 8.971/1994 e 9.278/1996

No documento Sucessão necessária (páginas 159-164)

Capítulo 12 SUCESSÃO NECESSÁRIA DO COMPANHEIRO SOBREVIVENTE A

12.2. A sucessão do companheiro nas Leis 8.971/1994 e 9.278/1996

A partir da Lei 8.971/1994, o direito sucessório do companheiro sobrevivente passou a contar com regulamentação infraconstitucional. Dispunha essa lei que, na concorrência com descendentes, na primeira posição da ordem da vocação hereditária, o companheiro teria direito ao usufruto da quarta parte dos bens do de cujus enquanto não constituísse nova união. Na concorrência com ascendentes, ao usufruto de metade. Na terceira posição, à totalidade da herança, com preferência aos colaterais. Houve previsão, ainda, de meação nos bens resultantes de atividade em que houvesse colaboração do companheiro. Essa lei condicionava o exercício desses direitos à existência de união estável de mais de cinco anos ou se tivesse resultado prole, bem como ao estado civil de solteiro, separado judicialmente, divorciado ou viúvo.

A Lei 9.278, de 10 de maio de 1996, voltou a tratar do tema, não mais exigindo prazo mínimo de cinco anos ou prole para reconhecimento da união estável. Bastava o prazo suficiente, à luz de cada caso concreto, para se reputar preenchidos os requisitos de convivência duradoura, pública e contínua, com objetivo de constituição de família. Tampouco renovou a exigência de específico estado civil, tornando possível o reconhecimento da união estável diante de simples separação de fato. Quanto ao direito sucessório, por meio do § único do art. 7º passou a contemplar o companheiro sobrevivente com direito real de habitação enquanto vivesse ou não constituísse nova união ou se casasse, relativamente ao imóvel destinado à residência da família. Não exigiu que o imóvel fosse o único dessa natureza a inventariar, norma mais benevolente, portanto, do que o direito similar previsto no § 2º do art. 1.611 do Código de 1916. O art. 5º, quanto ao regime de bens, passou a considerar os adquiridos onerosamente na constância da união estável como fruto do trabalho e da colaboração comum, com direito de meação, salvo contrato escrito em contrário, cessando a presunção se a aquisição patrimonial ocorresse com produto de bens adquiridos antes do início da união (ressalva do § 1º do art. 5º). O regime de bens, portanto, passou a ser, em última análise, similar ao da comunhão parcial, o regime legal supletivo para o casamento. A presunção de colaboração para a aquisição de bens onerosos na constância da união estável era relativa, podendo ser desconstituída se do casamento e da família não fundada no matrimônio, In: Temas de Direito Civil, 2. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2001, p. 358). Esses argumentos são desenvolvidos com profundidade por Ana Luíza Maia Nevares (NEVARES, Ana Luiza Maia, cit., 2004, p. 185-214).

houvesse contrato escrito em contrário ou prova de aquisição com produto de bens anteriores à união417.

O entendimento prevalecente foi o de que a Lei 9.278 não revogou a Lei 8.971 no que não fossem incompatíveis. Caiu, assim, o prazo mínimo de cinco anos ou prole em prazo menor, para reconhecimento da união estável, bem como a exigência de determinado estado civil, exigências da primeira dessas leis não reproduzidas na mais recente. Permaneceram os direitos sucessórios da Lei 8.971, acrescentados pelo direito real de habitação da Lei 9.278.

Essa última conclusão acarretava, no entanto, paradoxo em comparação com a tutela sucessória do cônjuge. Pois, a partir da Lei 9.278, na concorrência com descendentes e ascendentes, o companheiro passou a ser contemplado simultaneamente com usufruto vidual e direito real de habitação. Como visto nos comentários precedentes ao Estatuto da Mulher Casada, o cônjuge sobrevivente, na mesma situação, tinha direito real de habitação quando casado por comunhão universal ou usufruto vidual se o regime fosse outro. Não havia possibilidade de cumulação dos dois direitos.

Na busca de solução para essa incongruência, diversos foram os posicionamentos da doutrina e da jurisprudência. No relato de Ana Luíza Maia Nevares, houve quem sustentasse que a Lei 9.278 teria revogado as normas sobre sucessão do companheiro da Lei 8.971, de modo que só lhe restaria o direito real de habitação, sem usufruto e sem figurar na terceira posição da ordem da vocação hereditária. Outra corrente considerou inconstitucional a instituição do direito real de habitação em acréscimo ao usufruto vidual da lei anterior, por representar benesse superior à do cônjuge casado por regime diverso da comunhão universal. Outros defenderam a solução oposta, ou seja, a concessão do direito real de habitação teria excluído o de usufruto. Outra posição era a de Luiz Edson Fachin, pela qual, sendo o usufruto e a habitação direitos reais sobre coisa alheia, a coexistência deles seria inviável. Em sentido oposto, Caio Mário da Silva Pereira entendia viável a coexistência dos dois direitos418. Por fim, havia corrente, defendida por João Baptista Villela e Marco Aurélio Sá Viana, estendendo todas as vantagens da união estável ao casamento419.

Na linha dessa última posição, o Superior Tribunal de Justiça decidiu que o direito

417

Nesse sentido: OLIVEIRA, Euclides. União Estável: do concubinato ao casamento, 6. ed. São Paulo: Método, 2003, p. 95; NEVARES, Ana Luíza Maia, cit., 2004, p. 134

418 PEREIRA, Caio Mário da Silva, cit., vol. VI, 2004, p. 152-153.

real de habitação em favor do cônjuge, a partir da Lei 9.278/1996, deveria ser equiparado ao do companheiro para evitar inferioridade do casamento e, assim, passou a ser aplicável a todos os regimes de bens420. Tal conclusão parece adequada não só pela lógica da solução, mas também porque, tomada a evolução da tutela sucessória do cônjuge em perspectiva, sabe-se que essa foi a solução do Código Civil de 2002, estendendo o direito real de habitação a todos os regimes de bens, sem prejuízo da participação do cônjuge na herança.

No que se refere ao usufruto da Lei 8.971/1994, é de se recordar a análise realizada quando do exame do usufruto vidual do Estatuto da Mulher Casada. Segundo a posição ali defendida, não se conferia usufruto vidual ao casado por comunhão universal porque, nesse regime, o cônjuge já estava protegido por meação, a revelar opção legislativa pelo usufruto para a situação oposta, ou seja, na qual os bens deixados pelo de cujus eram particulares, bens que a ele pertenciam com exclusividade, sem comunhão com o outro cônjuge. Nessa hipótese havia risco de desamparo patrimonial do viúvo ou pelo menos de brusca queda de padrão de vida, a justificar o usufruto. Esse o panorama legal resultante do Estatuto da Mulher Casada.

A Lei 8.971/1994 não faz nenhuma discriminação quanto a regime de bens da união estável, prevendo o usufruto indistintamente, o que leva a indagar qual seria o regime jurídico do usufruto instituído por essa lei. Seria aplicável somente aos bens particulares, como se defendeu quanto ao usufruto vidual do Estatuto da Mulher Casada, ou incidiria sobre todos os bens, comuns e particulares?

A resposta que reputamos mais adequada é a de que, assim como no Estatuto da Mulher Casada, o usufruto do companheiro sobrevivente só incidia sobre os bens particulares. A Lei 8.971 previa, nos incisos I e II do art. 2º, o usufruto de quarta parte, na concorrência com os filhos — entendam-se descendentes —, e de metade com os

420 No caso objeto desse julgado do STJ, falecida a esposa em 1981, o marido ficou com meação sobre o

apartamento residencial e a outra metade, correspondente à herança, foi atribuída aos filhos do casal. Em 1989, o viúvo se casou novamente, por separação obrigatória, não resultando filhos. Falecido o marido em 1999, sua parte no apartamento foi transmitida aos filhos por sucessão hereditária. Tornando-se os únicos proprietários do bem, os filhos ajuizaram ação de reintegração de posse contra a viúva. O pedido foi julgado improcedente em primeira e segunda instâncias, reconhecendo-se em favor da viúva o direito real de habitação. Na época do óbito em 1999, vigia o § 2º do art. 1.611 do Código Civil, pelo qual somente o casado por comunhão universal tinha direito real de habitação. Mas o Ministro Sidnei Beneti ponderou que, naquela data, vigia também o § único do art. 7º da Lei 9.278/1996, que conferia ao companheiro sobrevivente direito real de habitação qualquer que fosse o regime de bens pactuado. Como não era admissível tratar pior pessoas casadas, decidiu-se que desde a Lei 9.278 a mesma benesse conferida à união estável deveria ser estendida ao casamento, reconhecendo-se direito real de habitação para qualquer regime de bens, situação que veio a ser positivada pelo art. 1.831 do Código Civil de 2002 (REsp 821.660/DF, rel. Min. Sidnei Beneti, 3ª Turma, j. 14/06/2011).

ascendentes, percentuais a incidir sobre os “bens do de cujus”. O art. 3º, por sua vez, dispunha que, se os bens deixados pelo autor da herança resultassem de atividade na qual houvesse colaboração do companheiro, teria o sobrevivente direito à metade dos bens. Seria o reconhecimento póstumo do direito à meação. Ao contrário da Lei 9.278, na qual foi estabelecida presunção de comunhão dos aquestos, na Lei 8.971 a presunção era inversa, ou seja, que os bens eram exclusivos do falecido, com possibilidade de prova em contrário pelo sobrevivente. Essa circunstância particular permite concluir que, no artigo anterior, o 2º, os bens ali referidos, sobre os quais incidiria o usufruto, eram efetivamente bens do de cujus, exclusivos dele, particulares. Reconhecido o direito à meação e estando protegido o companheiro, não havia necessidade do usufruto.

Essa interpretação se amolda à linha evolutiva da proteção sucessória do cônjuge. Como visto, pelo Estatuto da Mulher Casada procurou-se protegê-la por meio do direito das sucessões, empregando a técnica de lhe conferir, nos bens particulares, usufruto vidual. Nos bens comuns, sob a consideração de que já protegida pela meação, bastava a propriedade plena de metade deles. O direito de família era suficiente para impedir o desamparo patrimonial indesejado pelo legislador. Essa mesma técnica veio a ser utilizada no Código Civil de 2002, segundo a corrente que em nossa opinião melhor interpreta seu art. 1.829, ou seja, substituído o usufruto por concorrência em propriedade plena, o cônjuge, ao concorrer com descendentes, tem cota hereditária nos bens particulares, não nos comuns em face dos quais já está protegido pela meação. No caso da concorrência com ascendentes, é certo, do inc. II do art. 1.829, o cônjuge concorre tanto nos bens comuns como nos particulares, mas se trata de situação particular a respeito da peculiar consideração sobre os ascendentes na ordem da vocação hereditária, com tendência evolutiva de cada vez maior limitação da vocação sucessória legítima deles421.

Registre-se, em contrário ao aqui sustentado, a opinião de Caio Mário da Silva Pereira, de que seria possível cumular o usufruto com a meação422.

Outra questão relevante diz respeito à situação do companheiro sobrevivente na terceira posição da ordem da vocação hereditária, à falta de descendentes e ascendentes. A Lei 8.971 afirma que, nessa posição, o companheiro “terá” direito à totalidade da herança. Como não havia nessa lei dispositivo similar ao art. 1.725 do Código de 1916, a permitir a exclusão do companheiro em caso de testamento abrangente de todo o patrimônio sem o

421 Na França, por exemplo, a Lei 2006-728, de 23 de junho de 2006, aboliu a reserva hereditária em favor

dos ascendentes.

contemplar, parcela da doutrina passou a sustentar que o companheiro teria se tornado herdeiro necessário. Outros entenderam que permaneceu herdeiro facultativo e que poderia ser alijado da sucessão423.

Parece mais correto esse segundo entendimento, embora em termos. Não há como inferir do texto da lei, claramente, intuito de transformar o companheiro em herdeiro necessário. Pelo contrário, a preocupação que se percebe foi a de equalizar direitos sucessórios de cônjuges e companheiros. Não houve inclusão de disposição similar à do art. 1.725, mas também não houve expressa referência ao companheiro como herdeiro necessário. Se o intuito fosse o de promover o companheiro a herdeiro necessário, certamente teria sido estendida tal benesse ao cônjuge, na mesma lei, sob pena de flagrante desarranjo no sistema.

Mas essa orientação que não reconhecia ao companheiro o status de herdeiro necessário deve ser temperada com as mesmas observações apresentadas quando da abordagem do usufruto vidual no Estatuto da Mulher Casada. Pois, nas hipóteses nas quais concorre com descendentes e ascendentes em usufruto, não poderia ser alijado da sucessão em testamento que contemplasse todos os bens. Pois, havendo descendentes e ascendentes, o testamento não poderia contemplar todos os bens. O companheiro, portanto, assim como o cônjuge no usufruto vidual, tornou-se herdeiro necessário em usufruto. Na terceira posição da ordem da vocação hereditária, era preciso lhe assegurar, para manter a coerência do sistema, pelo menos o usufruto de metade dos bens particulares, na parte indisponível, se houvesse testamento abarcando todo o patrimônio, pois não teria sentido poder fazer valer o direito de usufruto em relação a ascendentes, herdeiros necessários, e não em face de terceiros.

423 Ana Luíza Maia Nevares relaciona, em favor da condição de herdeiro necessário do companheiro, a partir

da Lei 8.971, as opiniões de Caio Mário da Silva Pereira e de Luiz Edson Fachin. Em contrário, as de Marco Aurélio Sá Viana e de Rodrigo da Cunha Pereira (NEVARES, Ana Luíza Maia, cit., 2004, p. 141-143).

No documento Sucessão necessária (páginas 159-164)

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