2. O DINHEIRO ENQUANTO UMA INSTITUIÇÃO ECONÔMICA
2.3 Os economistas e a moeda como uma instituição construída
2.3.1 A teoria da moeda estatal (G Knapp e J Keynes)
Um dos desenvolvimentos mais completos de uma teoria estatal da moeda foi levado a cabo por Georg F. Knapp, economista e historiador alemão que publicou em 1905 o livro Teoria estatal do dinheiro, no qual concebeu um enfoque institucionalista sobre a natureza do dinheiro, destacando o papel do Estado na sua criação. Sua teoria também foi baseada na função da moeda como meio de troca. Para o autor, é impossível separar teoria monetária de teoria do Estado29.
Segundo Knapp, as dívidas são inicialmente expressas em um valor e, em um segundo momento, saldadas com um meio de pagamento (qualquer coisa móvel que tem a propriedade social/legal de portar valor). Mas, o que determina que coisas poderão atuar como meio de pagamento e saldar dívidas?
Observando os momentos em que os meios de pagamento já utilizados são por vezes trocados por outros, como quando da passagem da aceitação de um certo animal para outro (ou para o sal ou ainda para o metal) o autor repara que para essa situação ocorrer, de fato é necessário que se anuncie o que agora vale X unidades de valor. E nessa hora é fundamental perceber que é sempre uma autoridade estatal
28 Ao longo do próximo capítulo procurar-se-á explorar se esse raciocínio pode ser estendido para o
passado e até que ponto.
29 O resumo das idéias de Knapp que será aqui apresentado está baseado na análise que L. Randall
Wray fez da obra original e desenvolveu em sua obra Trabalho e moeda hoje, publicado originalmente em 1998.
quem anuncia essa taxa de conversão entre o antigo meio de pagamento e o atual. E se é o Estado quem faz o anúncio, ele é quem detém o poder de dizer o que é moeda. Embora muitos cartalistas acreditem que as leis de curso forçado determinam o que se aceita como meio de pagamento, Knapp não vai nesse caminho:
“O que faz parte do sistema monetário do Estado e o que não faz? Não devemos tomar nossa definição muito estreita. O critério não pode ser que a moeda é emitida pelo Estado, porque isso excluiria modalidades de moeda que são da mais alta importância: eu me refiro às notas bancárias: elas não são emitidas pelo Estado, mas fazem parte do seu sistema monetário. Nem pode a moeda de curso legal ser tomada como critério, porque em sistemas monetários há freqüentes modalidades de dinheiro que não são de curso legal (...) Ficamos mais perto dos fatos se tomamos como nosso critério que o dinheiro seja aceito nos pagamentos feitos aos guichês do Estado. Então todos os meios pelos quais um pagamento pode ser feito ao Estado fazem parte do sistema monetário. Nessa base não é a emissão, mas a aceitação, como a chamamos, que é decisiva. A aceitação estatal delimita o sistema monetário. Pela expressão “aceitação estatal” entenda-se somente a aceitação nos guichês de pagamento do Estado onde o Estado é o recebedor”.(KNAPP, in WRAY, 2003, p. 45).
Como se observa, para Knapp é o que o Estado decide aceitar em seus guichês como meio de pagamento que cria uma moeda estatal, e não as leis de curso forçado. É preciso, portanto, que esses pagamentos necessitem ser realizados para que surja efetivamente uma MOEDA no sentido moderno do termo (de equivalente universal). Os pagamentos entre pessoas privadas se auto-regulam, mas não tendem, necessariamente, a uma uniformidade nos meios de pagamento. Entretanto, as atitudes do Estado têm um papel decisivo na determinação daquilo que servirá como meio de pagamento nas transações privadas, até porque em uma disputa legal, o meio de pagamento que o credor é compelido a aceitar é sempre o que o próprio Estado também aceita.
Knapp também incluiu a moeda bancária na sua análise, reconhecendo que as notas bancárias obtêm valor do seu uso na comunidade privada de pagamento ou na comunidade pública, como se pode concluir pelo extrato a seguir:
“Uma letra de câmbio é um documento cartal que especifica uma soma de moeda valuta; e o banco, ao emiti-la, está comprometido por lei a aceitá-la para um pagamento daquele montante(...) Uma letra bancária inconversível, portanto, não é uma nulidade, mas tem em comum com as letras de câmbio conversíveis o fato de que é uma garantia firme do banco. A nota “é uma garantia de caixa privada disponível para pagamentos ao banco(...) mas claramente os clientes do banco podem usá-la para pagamentos entre si, na medida em que estão seguros de que será aceita pelo banco.Estes clientes e o banco formam, como se diz, uma comunidade de pagamento privada; a comunidade de pagamento pública é o Estado” (KNAPP, in WRAY, 2003, p. 46-47).
Para Knapp, o que faz uma nota bancária moeda estatal? O aceite do Estado em pagamentos realizados para ele, e, nesse caso, Knapp as classifica de “acessórias”. No caso do próprio Estado também as utilizar para realizar pagamentos, então terão sido transformadas em moedas “volutas”. Entretanto, essa é uma decisão que está nas mãos do Estado, não nas dos bancos, do mercado ou dos indivíduos. Muitas vezes os Estados exigiram que os bancos tornassem suas notas conversíveis em moeda emitida pelo próprio Estado, afiançando assim uma posição superior ao seu próprio dinheiro.
Embora tenha escrito quase setenta anos antes do fim do lastro em ouro para o papel-moeda, ele reconheceu que o valor da moeda de um Estado não deriva do seu valor de metal, mais ainda, que para a circulação nacional, nenhum metal seria necessário, embora não tenha estendido essa afirmação para o comércio entre nações. Nesse caso Knapp reconhecia a importância do dinheiro em espécie. Só no caso de se criarem federações muito grandes de Estados ele aventava a hipótese (pouco provável) do metal poder ser abolido.
J. M. Keynes30 em seu Tratado sobre a moeda também utiliza a moeda-de- conta como o conceito inicial para a sua teoria monetária, que é na origem muito similar a de Knapp. De fato ele reconheceu a importância e a semelhança dos argumentos Knappianos com os seus. Ele chama de moeda-de-conta à descrição ou denominação e ao dinheiro àquilo que corresponde à discrição e prossegue, em acordo com Knapp, indicando que o Estado dirá o que serve como moeda-de-conta e o que será “a coisa” que será aceita como dinheiro.
“O Estado, portanto, atua, em primeiro lugar, como autoridade legal que obriga ao pagamento da coisa que corresponde ao nome ou descrição nos contratos. Mas atua uma segunda vez quando, além disso, invoca o direito de determinar e declarar que coisa corresponde ao nome, e mudar sua declaração de tempos em tempos – quando, por assim dizer, ele invoca o direito de reeditar o dicionário. Este direito é invocado por todos os Estados modernos e vem sendo invocado há quatro mil anos pelo menos” (KEYNES, in WRAY, 2003, p. 49).
Logo, correspondendo à exposição Keynesiana acima à descrição da “era da moeda cartalista ou estatal”, mesmo uma moeda-mercadoria, como o ouro cunhado ou apenas lastreada em metal precioso, é uma moeda estatal.
“Moeda é a medida de valor, mas considerá-la como tendo valor em si é uma relíquia da visão de que o valor da moeda é regulado pela substância de que é feita, e é como confundir um bilhete de teatro com a performance” (KEYNES, in WRAY, 2003, p. 52).
Sendo assim, uma moeda-mercadoria ou uma moeda-fiduciária deve ser admitida como sem “padrão objetivo”. Possuindo, de fato, apenas um valor que é nominal e denominado, em última instância, pelo Estado.
30 Em função do objeto específico desse trabalho, a exposição do pensamento do economista J. M.
É com base também nos argumentos de Knapp (e Keynes) que Wray alega que a moeda não pode ser entendida isoladamente, como uma entidade que comporta diferentes funções, mas que depende de sua relação com o poder político, pois aparece como instrumento criado pelo governo para o pagamento de tributos. É preciso que se reconheça a natureza do dinheiro moderno, uma vez que em qualquer economia moderna é o governo que define o que é dinheiro ao escolher o que aceitará como pagamento dos tributos. Como os governos modernos impõem e obtém através da coerção uma contribuição tributária de seus cidadãos, eles estão em condições de também escolherem em que “espécie” serão recolhidos. É porque o cidadão necessita do dinheiro do governo − “exigibilidades do governo que são moeda” (Wray, 2003, p. 23) − que ele aceita fornecer coisas para o governo, assim auferindo o meio de pagamento aceito nos guichês do Estado. Ainda, segundo suas próprias palavras:
“Meu argumento é que, na realidade, todo gasto governamental é financiado por criação de moeda, mas esta moeda é aceita porque há uma obrigação fiscal imposta que é, por definição, penosa. Sem essa obrigação tributária onerosa, o governo poderia fazer funcionar impressoras até o dia de São Nunca, mas não encontraria nada à venda por dólares”(WRAY, 2003, p. 16).
O governo então cria uma demanda por moeda, e ele mesmo detém o monopólio da oferta dessa moeda, que ele fornece ao comprar bens, serviços e ativos do público. Essa moeda então será utilizada como moeda de conta e de pagamento, fundamentalmente nas transações com o governo, mas também nas transações privadas. Mesmo que apenas algumas pessoas paguem impostos, aqueles que não o fazem acabam desejando também obter essa moeda do governo porque sabem que os que necessitam dela (os que têm obrigações tributárias)
poderiam trocar coisas com eles como forma de obter essa moeda. Ou seja, com a cobrança de impostos monetários e as respectivas penalidades para os infratores, o governo pode transferir para si mesmo uma parte do produto do país. Mas não em função do pagamento dos impostos em si, e sim porque as obrigações tributárias obrigam os cidadãos a fornecer coisas para o governo (“vender”) como forma de alcançar ao dinheiro para quitar essa “dívida”. Daí que, atualmente a maior parte do papel-moeda (depósitos, em geral) é emitida privadamente (moeda bancária), mas continua derivando sua demanda da anuência do Estado.
Uma forma similar de abordar a questão monetária tem sido a que muitos economistas mais recentemente têm chamado de abordagem da “moeda endógena” (em contraposição a idéia ortodoxa − apresentada anteriormente − de que a quantidade de moeda em circulação é determinada de forma externa ao sistema econômico e só tem influência sobre este no curto prazo), uma vez que observam:(1) que a oferta de moeda tende a acompanhar a demanda e (2) que o Banco Central não tem controle direto sobre a quantidade de moeda. Wray, chama a atenção para o fato de que embora o Estado defina a moeda, ele não controla diretamente a quantidade:
“O Estado é apto para controlar sua emissão inicial de dinheiro, mas isso é feito mais através da política fiscal que através da política monetária. Isto é, a quantidade de moeda criada é determinada pelas compras do Estado (...) parte dessa moeda então será removida de circulação na medida em que os tributos sejam pagos. O resto termina na forma de encaixes desejados , ou flui para os bancos para ser acumulado como reservas bancárias. A política monetária então drena o excesso de reservas, removendo-as das contas dos Bancos Membros e substituindo-as por títulos comprados voluntariamente.” (WRAY, 2003, p. 54).
Pode-se então tomar como certo que, mesmo que não tenha sido sempre assim31, contemporaneamente a moeda só pode ser compreendida como uma criatura do Estado. E segundo o autor, somente quando o Estado está em crise, e dependendo da extensão da perda de sua legitimidade (inclusive na cobrança de tributos), a “moeda normal” tenderá a cair em desconfiança, o que pode levar a utilização de moedas estrangeiras (estatais de outras nações) em transações privadas.